[Shanti Lee]

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O seu nome sempre coube
em muitas línguas, significados e trocadilhos.
O seu nome sempre soube
que ainda sobrava afeto no meio do caminho.
Shanti —
palavra que pousa no chão e assenta o ar
paz que ocupa a casa inteira,
se espalha pelos cantos,
e ensina a respirar devagar.
Lee —
nome de impacto curto,
rápido como um salto preciso
sobre a mesa,
mas também elétrico,
com riso, irreverência
e um certo gosto por desafinar o mundo
só para ver o que acontece depois.
É… você tinha o soco de Lee,
a rebeldia da Rita, e a doçura do chantilly
nos teus pelos, na tua alma
e no teu riso de margarida
Havia dias em que Shanti Lee
era filosofia oriental,
olhos semicerrados,
o tempo dobrado em ronronar.
Em outros, era puro movimento:
branca, felpuda,
um borrão elegante atravessando a sala
como se treinasse uma coreografia secreta.
E quando o nome virava chantilly,
não era trocadilho: era textura.
Nuvem com peso exato,
doçura sem açúcar,
essa coisa rara
de ser macia e ter presença peluda.
Shanti Lee não foi apenas gata.
Foi intervalo.
Foi comentário irônico no meio do dia.
Foi um modo próprio de ocupar o espaço
sem pedir licença
e sem jamais excessos rasos.
Você deixou pelos nas roupas,
rotinas levemente deslocadas,
silêncios habitáveis.
A casa aprendeu seu ritmo,
sua voz, sua manha, suas façanhas,
suas pelúcias preferidas ora perdidas,
ora estrategicamente escondidas.
Sempre me lembro da sua elegância esguia…
Sua voz era um sopro que o dia trazia
e escolhia meu colo para os sonhos antigos,
para as noites vazias, para rimas sem poesia.
Dorme agora, Shanti, no macio da memória,
na segunda-feira transitória,
minha gata-poema, minha paz, meu merengue,
minha garra, minha ovelha branca,
minha melhor história.
Obrigada por ter me escolhido para ser o seu cais,
pelas viagens, companhias quentinhas,
beijinhos gelados, estudos cansados,
pelos “miaus” e pelos mimos sutis,
pelas segundas-feiras banais,
por todos os para sempre
e por todos os nunca mais.
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by Tina Teresa.
[durma até sonhar, viva até acordar…]



