resolvi vestir a imaginação com sabre de luz e brincar com a força do seu coração may the force be my song entre batidas e pulsos soluços e sustos olhei pela fresta e vi um vão
resolvi atravessar a fronteira da segunda-feira faceira parecia besteira mas não era não
vi o mundo — por um segundo torto — entre um passo e outro mostrar seu avesso a t r a v e s s a d o enviesado quase marcado por intervalos irrisíveis quase tristes vieses em riste como se tudo que existisse fosse apenas um quase entendimento meio atrasado meio bonito meio bobo meio infinito may the forth seria sorte?
sem protocolo, só verdade sem drama, só vontade de deixar acontecer e só depois a gente entender
resolvi vestir a vida e despir a partida repartida entre planos insanos mais amplos mais difíceis de conter mais impossíveis de prever orbitando saberes e buscando mistérios que insistiam em me dar poderes may the force me traga recortes
deixei a luz escorrer pelos dedos deixei a galáxia lançar seus fenômenos deixei o medo encostar na gente e o sol se fazer poente no meio da rua levando junto a ternura e a amargura enquanto a segunda-feira tansborda e inaugura uma nova sina que me destina me dobra me alcança me ensina
may the forth play the force não me conforte take myself of course
Amanheci com o amargo da tua língua nos meus ouvidos, guardando um eco que não pediu para ficar.
Parecia lâmina fina, dessas que cortam sem anunciar o gesto.
Pedra, papel, tesoura, manifesto.
E eu, ainda meio sonho, meio carne, tentei decifrar o gosto: era despedida? era cansaço? ou só verdade dita sem cuidado, chegando crua, sem a delicadeza de um intervalo?
A segunda-feira abriu mesmo assim, sem pedir licença, carregando nos bolsos restos de domingo, promessas mal dobradas, e uma coragem que ainda bocejava.
Luz atravessando frestas, café tentando reorganizar o mundo, e eu aqui, recolhendo sílabas do chão, tentando decidir o que merecia ser levado e o que já podia, enfim, ser deixado.
Não teve festa nem vela. Só um embrulho no meu peito, um verbo estreito, uma frase suspensa, metade sopro, metade verso, um quase que pesou mais que qualquer certeza inversa.
E eu, entre linhas, li o que não disseste — e não foi adivinhação. Foi porque o silêncio, às vezes, grita com cirúrgica precisão.
Se era jogo, foi lance sujo. Se era fuga, deixou rastro. Imundo.
E agora, o que faço com esse pseudo intervalo que carrega mais verdade do que a própria palavra?
A cidade acende em ritmo seco, o mundo volta a cobrar presença, e a gente… a gente costura o próprio começo com o fio que sobrou.
Porque a segunda não pergunta. Convoca.
Oh, glória! Eu fiquei quando a frase terminou antes da hora. Eu ouvi o que vinha torto e ainda assim não virei o rosto.
E agora, vivo assim, tentando de novo, não um recomeço grandioso, mas um passo firme, quase teimoso, decidindo existir mesmo com esse gosto amargo na memória.
★ ilustração deste poema: obras ‘tocando com o coração’, ‘sufocado na própria delicadeza’ e ‘coração, sem razão’ by Susano Correiapara a linha Co_Folk da Folk Books.
★ ilustração deste poema: pintura sobre madeira by Jessikha Clartin.
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[LIVRO]
versos de um réveillon sem fogos
Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.