[amargo]

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Amanheci com o amargo da tua língua nos meus ouvidos,
guardando um eco que não pediu para ficar.
Parecia lâmina fina, dessas que cortam sem anunciar o gesto.
Pedra, papel, tesoura, manifesto.
E eu, ainda meio sonho, meio carne,
tentei decifrar o gosto:
era despedida?
era cansaço?
ou só verdade dita sem cuidado,
chegando crua,
sem a delicadeza de um intervalo?
A segunda-feira abriu mesmo assim,
sem pedir licença,
carregando nos bolsos
restos de domingo,
promessas mal dobradas,
e uma coragem que ainda bocejava.
Luz atravessando frestas,
café tentando reorganizar o mundo,
e eu aqui, recolhendo sílabas do chão,
tentando decidir o que merecia ser levado
e o que já podia, enfim, ser deixado.
Não teve festa nem vela.
Só um embrulho no meu peito,
um verbo estreito,
uma frase suspensa,
metade sopro, metade verso,
um quase que pesou mais
que qualquer certeza inversa.
E eu, entre linhas, li o que não disseste —
e não foi adivinhação.
Foi porque o silêncio, às vezes,
grita com cirúrgica precisão.
Se era jogo,
foi lance sujo.
Se era fuga,
deixou rastro. Imundo.
E agora,
o que faço com esse
pseudo intervalo
que carrega mais verdade
do que a própria palavra?
A cidade acende em ritmo seco,
o mundo volta a cobrar presença,
e a gente… a gente costura o próprio começo
com o fio que sobrou.
Porque a segunda não pergunta.
Convoca.
Oh, glória!
Eu fiquei quando a frase
terminou antes da hora.
Eu ouvi o que vinha torto
e ainda assim não virei o rosto.
E agora,
vivo assim, tentando de novo,
não um recomeço grandioso,
mas um passo firme,
quase teimoso,
decidindo existir
mesmo com esse gosto amargo na memória.
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❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday
★ ilustração deste poema: Angela Smyth Artist.
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[durma até sonhar, viva até acordar…]



