Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Pulga ninja]

Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


❝ by Tina Teresapanicmonday

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Photo by Tina Teresa

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