[Das coisas mortas pelo caminho…]

Da borboleta tenho dó:
o desfrute das asas coloridas
chega de repente, resplandecente.
Vê-la caída no chão reflete
a fatia de tempo cortada
pelo rasante final.
Da ratazana, que dizer?
Pelos amassados, olhos esbugalhados.
Fim trágico de uma corrida mal sucedida.
Da barata passo perto por mero descuido.
O que realmente quero
é que seu último suspiro fique longe
ou sou capaz de plantar bananeira no muro.
Das formigas que pisoteio,
melhor deixar de escanteio o pensamento
antes que venha um morcego.
Do passarinho, exclamo: “Oh!”
e fico imaginando
se foi acidente de percurso ou atropelo.
Da aranha, que drama.
A cidade invade e muita coisa nela mais não cabe.
A segunda-feira chama e tudo se reparte.
Be part. Not apart.
–
[durma até sonhar, viva até acordar…]



