[Miss. Sunshine in the rain…]

– Posso mesmo ir com vocês? Cabe mais um?
– Claro que cabe, prima, é uma kombi!
(Hmmm… to me sentindo a Miss. Sunshine…)
– A porta tem todo um esquema para abrir e fechar…
– Tá ali, aquela branca, ali…
– É a única kombi da rua, podia ser pink, amarela…
(Miss. Sunshine…)
– Deixa que eu cuido da porta. Entrem.
– Quem ficou com o vô?
– Onde?
– Vô?
– Poxa, ninguém ficou com o vô.
– Eu estou bem, eu estou bem.
– Como ninguém ficou com o vô? Eu to aqui no meio da rua com os braços abertos para nenhum carro passar por cima dele!
– Que chuva, logo agora!
– Choveu quando eu vim também, tive que vir saltando de marquise em marquise, mas mesmo assim me molhei bastante.
– Se fosse segunda-feira, seria uma crise.
– Você veio a pé?
– Claro, é tão pertinho, imagina… mas pra voltar carregando essa máquina… esse negócio tá ficando pesado…
– Mas você se molhou, viu?
– Vai ficar gripada.
– Não se preocupe.
– Vou prender o cabelo.
– Seu cabelo tá molhado da chuva?
– Sim.
– Se eu soubesse que você viria de carona conosco, prima, teria deixado a máquina no carro ao invés de carregá-la no aniversário.
– Pois é, e o que você vai fazer com essa máquina de escrever?
– Decorar a minha casa; eu sou apaixonada por máquina de escrever.
– A mãe vai na frente com o pai. As crianças já entraram?
– Também tenho uma máquina de costura antiga que era da outra tia, irmã da nona.
– Eu já entrei.
– Eu também.
– Você já tinha visto a máquina lá em casa, da outra vez?
– Sua vez, vó.
– Já tinha inclusive feito uma foto dela.
– O vô já conseguiu atravessar a rua?
– Entre você agora, prima, que eu levo a máquina no colo.
– Peraí, vó, deixa eu arrumar a colcha aqui no banco pra você sentar.
– Eu deixei aí pra forrar.
– Eu aprendi a datilografar em máquina de escrever, antes do computador.
– Por isso que você quis ser jornalista?
– É. Não. Sei lá…
– Cada louco com sua mania.
– Será que ainda funciona? Quero contar essa historia nela…
– Como você vai carregá-la no avião?
(Miss. Sunshine in…)
– Tá todo mundo aí dentro?
– Ah, eu dou um jeito.
– Prima, segura esses docinhos pra eu poder fechar a porta.
– Tava ótimo o aniversário, não tava?
– Pera, deixa eu acomodar a máquina no meu colo.
– Puxa a colcha…
– Tava sim, nossa, adorei rever toda a família e conhecer os que eu ainda não conhecia.
– Agora devolve os meus docinhos.
– Pena que sua tia não foi.
– Você não pegou nenhum cupcake de lembrança?
– Com a bolsa numa mão e a máquina na outra, não tinha como.
– Você vai escrever com ela?
– Eu vou tentar.
– Acho que você vai ter que trocar a fita…
– Na segunda-feira, quando eu voltar, vou procurar onde comprar uma nova, vô. Mas obrigada, ela era sua, né? Adorei…
– Presente de Natal.
– Você vai lá pra casa?
– Não, eu fico aqui na casa do meu primo. É nessa mesma rua, só que mais pra trás.
– Tenho que dar a volta na quadra, então?
– Isso mesmo, tio, eu contei umas quatro quadras quando eu vim, a pé. Mas tava chovendo, melhor entrar mais pra frente.
– Você está atravessando o sinal vermelho, marido!
– Numa ladeira como esta, se eu parar a kombi, a gente desaba.
– Esse bairro é cheio de morros…
– Bem que meu amigo falou que quem mora aqui tem a barriga da perna durinha…
– Tá tão abafado aqui dentro…
– Esse verão vai ser forte…
– Os vidros estão todos embaçados, mano.
– Da outra vez que eu vim, quando fiquei na casa da sua madrinha, o aniversariante estava dentro da barriga ainda…
– Nossa, já faz quatro anos!
– Só mais uma quadra e penso que já podemos virar.
– Eu só contei três até agora.
– Abre um pouco mais essa sua janela, mãe.
– Então vou dobrar na próxima esquina.
– Titio, você pegou quantos docinhos?
– É à direita, né?
– Peguei vários docinhos, pra nossa sobremesa de amanhã.
– Isso, á direita, mas eu não me lembro do prédio do meu primo ser numa subida, acho que é numa descida.
– Penso que ou entramos uma rua antes da quadra dele ou uma rua depois.
– Vamos mais pra frente.
– Qual o número daquele prédio ali?
– Hein?
– Por que você está rindo?
– Aquele prédio ali?
– Alguém consegue enxergar o número? Sou míope e estou sem óculos…
– Ele está rindo do seu sotaque do sul.
– 1400.
– Ix, passamos, temos que voltar mais uma quadra pra trás.
– Contornar a quadra novamente?
– Meu sotaque?
– Isso, e dobrar à direita mais adiante.
– Nessa?
– Não. Quer dizer, sim. Nessa agora e seguimos em frente e então dobramos de novo.
– Agora?
– É isso aí, filhão, olha só quantos docinhos!
– Sim, pode dobrar.
– Tem certeza?
– Quem mora ali?
(Definitivamente Miss. Sunshine…)
– Não quer ir lá pra casa mesmo?
– Obrigada, foi muito bom estar com todos vocês.
– Encosto onde?
– Ali, ali, marido.
– É garagem, mas pode encostar ali, pra não ficar no meio da rua.
– Meu primo mora aqui.
– Vai ficar no meio da rua mesmo.
– Ok, eu desço rapidinho.
– Mas eu também sou seu primo? Ou não sou?
– Claro que você é primo dela, pois se você é meu irmão, tem que ser primo dela também.
– Dê um abraço na sua mãe quando você voltar e encontrar com ela.
– Eu darei.
– Fico feliz que conseguimos nos ver, vamos tentar combinar algo amanhã?
– Aqui mora outro primo meu.
– Toma, leva esse cupcake pra você.
– Darei o abraço nela, lógico, vamos tentar combinar amanhã, sim.
– Você vai na Bienal de Artes?
– Que bacana conhecer seus pais, seu irmão, o filhinho dele é um fofo! E sua filha, prima, cada vez mais linda!
– Ela vai.
– Tchau, vô, vó…
– Leva o cupcake…
– Não precisa, pode ficar.
– Pô, prima, eu to te dando!
– Volte sempre, querida, fique lá em casa da próxima vez.
– Ok, obrigada, vou comer no café da manhã.
– Cuidado com essa porta, se não segurar ela vai bateeeeeer… olha o braço, mãe.
– Desculpa, eu não consegui segurar.
– Eu to bem.
– Nossa, eu vi a porta esmagando o braço da mãe, agora.
– Meu, que susto.
– Tchau, crianças.
– Tchau, prima, pegou o cachecol?
– Você trouxe o cachecol que ela esqueceu lá em casa da outra vez?
– Eu trouxe.
– Calma aí que me engatei na barra da colcha.
– Não tá vindo nenhum carro?
– Aprendi a fazer crochê com a nonna, ainda criança, mas nunca fiz uma colcha deste tamanho…
– Seu primo está em casa?
– Eu estou com a chave da porta dos fundos.
– Tchau tia, obrigada, tio.
– Tchau, tchau.
– Cuide-se, deixa que eu fecho a porta.
– O carro que espere, agora.
– E ainda chove.
(Miss. Sunshine in the rain… Happy wet feet…)
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by Tina Teresa
[durma até sonhar, viva até acordar…]



