Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Sílabas tortas]

Unhas descascadas,
cutículas machucadas.
Não, uma sílaba não é nada simples:
pode levar do céu ao inferno.
Ou o inverso. 

Nem toda revolta
gera uma revolução.
Mas uma evolução
pode nascer de pouco menos
de cinquenta tons
de uma única frustração. 

E sem nenhum verso pra contar história.
Lembranças fazem cócegas,
sorrisos são vírgulas
que aguardam palavras. 

Uma sílaba pode ser uma palavra inteira.
Inteira, repleta, cheia…
cheia de nada no meio do nada.
No meio.
Meio, metade, quase tudo, quase nada.
Algodão. 

É na segunda-feira que a semana começa?
Qual a melhor música
para inundar dias repletos de nada? 

Qual mescla de letras transparece
a melhor mescla de uma tentação? 

Penso. Denso. Tenso. Imenso. Propenso.
Cheiro da chuva de ontem de noite.
Cheiro da grama recém cortada
de ante-ontem.
Cheiro de segunda-feira

Músicas, muitas músicas, músicas sem fim.
Sílabas em espiral. Tortas. Quase mortas. 

Teriam as canções o poder de transformar
meus comportamentos (e o dos outros)
com a mesma eloquência e drama
com que saem da minha boca? 

Enquanto a boca canta,
o estômago espreme as sílabas
da sutil idiotice de existir. 

Porque o porvir nada pede.
Mas se algo está por vir,
de que vale soletrar
se a preguiça vai irritar
a sílaba gritada,
a sílaba quebrada? 

O momento da decisão
rasgou a unha num V. 

Uma letra cravada no meio
que atrapalha a minha pegada.
Por quê? 

O que virá? Quem viver, verá.
Mais um verso.
Reverso. Repenso. Convenço.
Posso usar esse seu lenço? 

Canto aqui no meu canto
breves canções em contra-senso
enquanto encanto,
num pânico condescendente,
mais uma segunda-feira sem silêncio.


Tina Teresa

  • Artwork by Merna’s Artwork

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