Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Acho]

Sua vida não é um caso raro, muito pelo contrário.

Você não quer incomodar, não quer interromper meu sono, não quer tomar meu tempo.

Porém, só o que você faz são trapalhadas: vem quando não deveria, diz algumas bobagens, fica um pouco nervoso…

Você diz que sou linda, agradece a acolhida, e então, no seu ímpeto de pensar demais, de viver uma utopia, de tentar apressar o dia-a-dia, você espera não ter me decepcionado “de alguma forma”.

Espera equivocada, pois você decepcionou sim. Não foi a aparência, tampouco a insistência ou a falta de eloquência.

Foi por pensar demais. Por não se deixar levar. Por não ser pontual, por não ser honesto, por achar que meu discurso era só resto de uma história que você não ouviu.

Então você resolve fazer um relato. Mesmo já avisando que o acha irrelevante, desnecessário e indiferente.

Tão indiferente quanto sua visita atrapalhada, sua presença atrapalhada, meu abraço frouxo.

Sim, você errou em tentar explicar o inexplicável e apontar o invisível a alguém que sabe que está lá mas finge não existir nem em si corrompido pelo conforto de uma suposta permissão encontrada na passividade para analisar, subjugar, ignorar.

Então você se lembrou da sua história, do mundo, do sistema, do marketing, da teoria da evolução, do ateísmo, do cristianismo, da hipocrisia, da mentira, da verdade, da realidade.

Você se lembrou que não deve fazer isso novamente, e a razão é simples… você também analisa, subjuga, ignora.

E por tudo isso é que eu acho que você é poeta numa segunda-feira discreta.

Acho que você vê o mundo (e as pessoas) de uma maneira única e até um pouco doentia.

Acho que você pensa demais. Sim, eu já disse isso, e continuo achando. E inclusive acho que é isso que te cega.

Acho que você perde tempo demais tentando julgar, tentando entender, tentando justificar, tentando encontrar motivos que lhe abram os olhos ou os caminhos ou os sorrisos ou os braços para que o abraço seja apertado e não frouxo.

Acho que você tem razão em tudo justamente por apenas pensar e na verdade não saber de nada.

Acho que você vive em busca ao invés de ser. Ao invés de existir. Ao invés de acontecer.

E eu também acho que você me inspira com sua incrível filosofia engatada. Com seu discurso “eu não devia” mas tentando. E ainda assim buscando. E não sendo.

E eu acho que você mais diz do que faz.

E também acho que seu relato não existe.

No seu discurso há desabafo, sim. Há peso. E até há alma. Mas não há vida.

Acho, ainda, que você treme enquanto pensa.

E que você se sente obrigado a sorrir porque se você tem vencido todos os obstáculos que surgem em seu caminho, você deveria ser feliz, mas não é.

Eu acho que é isso que você acha. Mas eu não sei. Eu apenas acho. Só acho.

E também acho que você está mais preocupado em mostrar quem você é (ou quem você pensa que é, ou quem você gostaria de ser) e imaginar quem eu sou (ou quem você gostaria que eu fosse) a me perguntar quem eu imagino ser, quem eu quero ser, me ouvir, me conhecer.

Você me dá informação demais, escolhas demais, opções demais, definições demais, conclusões demais, lamentações demais, decisões demais, trapalhadas demais.

E eu também acho que você se precipita. Ok, eu só acho. Porém se eu só acho, você definitivamente não sabe de nada.


❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

**
Art: Hug me by Chuck-tan.

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[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

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