[bambolê]

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lembro bem dos bilhetinhos trocados
por debaixo dos cadernos calados
entre folhas tortas
e refrões do Axl
cheios de sorrisos tímidos
e histórias próprias
lembro bem das legendas
deixadas nas agendas
na hora da recreio
no meio da segunda-feira lenta
como se fosse lenda ou sonho
merenda ou forro
de cetim
moletom com jeans
elástico no cabelo
um pedaço do mundo inteiro
lembro das aulas
das voltas
das falas
das portas
das faltas
das falhas
das notas
e do deleite de rir
antes do motivo
num idioma próprio
que escrevia cicatrizes
em letra cursiva
desenhando sábados infinitos
domingos de pijama
e segundas de uniforme
disformes
fazendo do improviso
um enfeite para o paraíso
lembro bem do seu jeitinho
de escolher a caneta certa
para escrever o nome inteiro
e dos planos mirabolantes
para um futuro distante
lembro das pulseiras coloridas
do bambolê na cintura
dos cadarços desamarrados
das músicas divididas
das tardes compridas
dos telefones ocupados
das conversas pela metade
e das aventuras sem censura
dos combinados impossíveis
que quase sempre davam certo
do chiclete no teto
do poema incompleto
do afeto indiscreto
do segredo direto
do futuro inquieto
das segundas irrisíveis
que sempre ensinavam a recomeçar
a levantar
e a olhar pro céu
com o coração aberto
lembro de rir até doer
chorar até curar
voltar antes de escurecer
e correr sem perceber
de perder a hora
e ganhar o dia inteiro
esperar o tempo passar
e não deixar nada passar com o tempo
apenas passar por dentro
sem documento
sem recreio
sem roteiro
sem receio
lembro de você
da mochila pesada
da blusa amarrada
da fita desbotada
da calça rasgada
da unha pintada
da gargalhada
no meio escada
feito conversa atravessada
lembro tanto
lembro sim
lembro bem
o bambolê ainda girava
o mundo girava também e,
ainda assim, você partiu de mim
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❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday
★ ilustração deste poema: isamu noguchi‘s unrealized playgrounds hand painted animations.
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[durma até sonhar, viva até acordar…]



