Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Cão e gato]

Eu construí o que eu queria que você fosse e me frustrei porque enxergo o que você realmente é. Não que isso seja de todo ruim, só que não é o que eu quero pra mim.

E se você insistir que não tem culpa, eu até vou entender, mas vou buscar desculpas pra divergir e te mostrar que sua gramática é pragmática e o que eu sentia era só um querer de brinquedo perfeito numa busca nada sistemática.

É… na verdade eu sei que você não tem culpa. Porque quando a gente sonha o sonho alheio, a gente cede em devaneio e nem percebe que a alma padece. Então de repente eu não mais queria. E eu sabia que aquela sua ironia me diria que tudo o que existia acabaria um dia. Na periferia.

Porque eu sou gata e você é cachorro. Quando eu acordo, eu me estico, me torço, ronrono… Eu aprendo rápido, eu desconfio, eu me recolho… E sua carência me tira a paciência porque gato conhece astrofísica e tem plano de contingência. Gato tem habilidade segura e cão… Ah, o cão é pura patetice, que amargura.

Gato tem apelo intrigante e ensaio dissonante… Cão tem trotoar sem sintonia enquanto o gato é pura melodia. Cachorro mendiga e ainda faz festa. Gato vê tédio no paradigma que lhe resta porque crê num companheirismo distanciado. E cão quer grude, suor e babados.

Palavras velhas ganham novos significados. Novas palavras são inventadas, sem significado algum… Palavras soltas num discurso etéreo pairam no mistério de lugar nenhum…
Um passo dado pra frente é um espaço que fica pra trás… Foi uma nova segunda-feira que chegou e tudo mudou. Há um abismo semântico entre nós: você faz au. Eu digo miau. E nada mais.

Você erra sem querer e fica sem perdão. Eu espaireço na contramão. Porque o entendimento foi em vão e a aliança de papel ficou na memória do mesmo jeito que essa história de cão e gato lado a lado.
Mesmo que o cartão seja uma pétala que não murcha, o atropelo, o afobo, o engodo… tudo isso suga a energia do que poderia um dia ser magia. Latidos viram nostalgia. E miados seguem esmagados. Na padaria.

É sempre no final que as histórias começam. Entre o agredir o agradar, melhor partir, pra não latir. E recomeçar um novo miar.


by @DiaboliqViolet

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[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

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