[Ela | Ele]

Se há momentos em que tudo cansa,
aquele era um deles:
tudo tão mecânico e previsível
que o pensamento abandona o corpo.
Não entendia o alcance das palavras
que diziam cuidar de mim.
Do canto do quarto,
a cena era angustiante e lastimável.
Parecia um filme leviano
já assistido uma dúzia de vezes;
um filme com final incerto
guiado por uma aterrorizante monotonia.
Os corações pulsavam juntos,
mas em direções e talvez
por motivos diferentes.
Por horas.
Horas que aguardavam
apenas só mais um pulsar de ponteiros
para a decisão aterradora.
Segunda-feira avassaladora.
Penso que os homens
que deitaram sobre o meu corpo
não sabiam qual era realmente
o valor do meu pudor.
Seus desejos ocupavam os espaços
entre os ponteiros que pulsavam.
A gentileza é necessária,
como o carinho, o adorno, o afago.
Tanto quanto o abraço, o esforço,
o esmero, o suporte, o estofo.
Gentileza é um sopro, um toque,
um espasmo, um grito.
E paz.
Assim como o fogo.
E a guerra.
Estar vivo é estar em conflito permanente,
produzindo dúvidas e certezas questionáveis.
A gente aplaude quando gosta,
questiona quando se sente atordoado
e lamenta quando as expectativas não são atingidas.
No dia-a-dia a gente enxerga tendências,
capta informações únicas
e vivencia momentos puros.
Mas o difícil e atraente é captar a essência,
o dinamismo e o significado de cada gesto,
compostos por diversas sintonias e linguagens.
A gente sofre querendo e buscando,
e também corre o risco
de sofrer ainda mais com o resultado.
Seja ele positivo ou negativo.
Quando queremos obstinadamente alguma coisa
parece que ela está sempre distante,
de um jeito ou de outro.
Entretanto, o desejo ardente evoca fantasmas:
insegurança, medo, fraquezas, responsabilidade.
É preciso estar preparado para o fim de uma história,
ou, para o começo de outra.
Afinal, o que fazer com o resultado?
A questão é que experiências ruins existem,
fazem parte da nossa existência, sim.
Só assim aprendemos a fazer boas escolhas,
ganhamos esperteza e destreza
perante as coisas da vida: vivendo.
Mudamos de idéia, nos surpreendemos às vezes,
nos decepcionamos outras.
E ninguém deve ser responsabilizado
pelas nossas más escolhas.
É graças a experiências ruins
que nos deleitamos com
(e valorizamos) as boas.
Elas não devem e não podem
ser evitadas.
Todo mundo é a favor de mudar e inovar,
mas pouca gente está disposta
a afastar-se da zona de conforto
e assumir os riscos.
E daí diariamente a gente afunda,
sem se dar conta,
no traiçoeiro terreno movediço da irrelevância.
Segunda-feira tansa.
É uma fuga, sim.
Do destino, do presente, da angústia, do impensável.
Enquanto isso, os ponteiros pulsam.
–
by @DiaboliqViolet
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