Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Grama]

Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

Porquê me traz memórias da infância
quando a nonna ajeitava o jardim de casa
com todo o carinho do mundo?

Ou seria porquê uma aranha
me mordeu no joelho
enquanto eu brincava de camuflagem
na lateral da garagem?
Ou porquê minha gata sapeca
se faz de esperta
e mordisca a folhagem,
salta e corre, faz caras e bocas
e fica de molecagem
na grama crescida escondida?

De repente talvez porquê
os intervalos da aula, no primário,
eram regados a piqueniques
entre flores e cores,
entre livros e dores?
Entre medos e desejos
e cheiros e temperos
a grama permeia minha existência.
Teve aquela vez que corri na lama
e abri os braços aos céus,
recebendo a chuva no rosto
e sorrindo, torcendo o pescoço,
fazendo no chão um esboço
de um futuro gostoso.

E teve aquele outro momento
que corri feito louca,
quase em choque,
entrei na cozinha e me deparei
com um prato de quentinho nhoque,
cheiroso, saboroso…

Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
aquela que eu chamava de “two”,
não só por ser bisa,
mas por me mostrar os brotos de xuxu
que ela plantava dentro das lâmpadas
e que cresciam tímidos mas fortes
como uma densa brisa.

Hoje cedo caminhando,
me deparei com um gramado sendo reciclado.
E o aroma tomou conta
e minha alma abriu um sorriso largo.
Então as memórias iniciaram sua trajetória,
e cada paisagem me levava
a uma diferente viagem.

Que sempre exista grama,
que sempre chovam sonhos,
que cada segunda-feira venha
repleta de novas sutilezas,
que cada lua guie novos passos,
que cada dia ensolarado
floresça conquistas e amizades,
liberdades e coragens.
Que nossa bagagem permaneça.
Que venham outros jardins,
outros cheiros,
outras raízes, outros amores.
Que amanheça a presença
de uma música alta
e que nunca grama nenhuma faça falta.

 –
by @DiaboliqViolet

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[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

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