[ कल ]Kala: presente, passado e futuro na Índia

Ainda não inventaram máquinas do tempo, mas garanto a vocês que visitar a Índia é como voltar ao passado. Tenho uma prima que se mudou pra lá há 5 anos e, depois de vários convites para uma visita, resolvi me organizar pra conhecer um pedaço do outro lado do mundo, afinal de contas, esse seria o último ano dela lá como “cidadã indiana” – sim, ela tem longos cabelos escuros, pele amorenada e olhos amendoados e passa fácil, fácil por nativa. Inclusive, em alguns dos lugares que visitamos, ela pagou preço local – eles cobram mais caro dos turistas, sabia?
A mudança dela para o país aconteceu por conta de uma proposta de trabalho que o marido recebeu: fazer parte da equipe de implantação da fábrica da Volkswagen na Índia. No começo, tudo era místico e novo. Tudo parecia desafiador e colorido. A empatia pela história, pelas dificuldades que as pessoas enfrentavam do outro lado do mundo e pela busca por um entendimento de vida mais holístico ganhava proporções universais. E a vontade de falar sem parar preenchia a alma dela e as histórias que ela contava preenchiam a alma da gente.
Depois de 5 anos, os hábitos de não dizer não, o pouco caso com a higiene, a confusão de idiomas entre castas que não se entendem, a pimenta em exagero em todas as receitas, a falta de compromisso com clientes, processos, pessoas, vontades, desvontades, crenças, diferenças… a convivência com pulgas que saltam até na areia da praia – já que eles não matam nenhum animal, nem os parasitas –, com os corvos que pousam nas mesas dos bares em busca de restos de comida, com as fezes de pombos nas calçadas, os lixos pelos cantos, e, principalmente, com o endeusamento do hipotético e o abandono da realidade, começam a incomodar. Muito. Não adiantava falar. Melhor calar.
Embarquei numa segunda-feira e eu nem estava em pânico, muito pelo contrário: eu estava preparada para muita coisa e tinha muita vontade de sentir toda essa realidade. Eu queria me calar e deixar o mundo falar. Não imaginei, no entanto, que efetivamente viver essa realidade me faria acordar ao som de bicadas de corvo na janela do quarto. Nem tampouco usar aqueles lenços lindos ao redor do rosto não apenas pra me proteger do calor escaldante e constante de 30ºC, mas pra limpar as mãos depois de comer lanches de nomes impronunciáveis e, ainda, pra cobrir o nariz e não sentir o cheiro forte de temperos misturados com carne podre, saliva e restos de comida pelas ruas. Complicado respirar. Impossível falar. Melhor mesmo calar.
Quando você admira uma foto, você não ouve o que ela conta. Quando você tem a chance de fazer parte de uma foto, ela ganha cheiro, som, cor, textura, sabor, e aquela história passa a fazer parte de você. E então você percebe que a foto fala. E eu faria tudo de novo; exceto a parte de andar de elefante e observar o rapaz batendo com um bastão de ferro entre as orelhas do animal para ‘dizer’ se ele devia virar à esquerda ou à direita; sentir a saliva do bicho molhar-lhe o ventre a procura de refresco – será que ninguém lhe dera água? – e, ainda, perceber que seu cativeiro era um anel de ferro com garras internas que lhe feriam as patas. Eles não ouvem o que os elefantes falam? Ou se calam diante do que só acham que não os atinge?
Ganesh – uma das mais conhecidas e veneradas representações de Deus no Hinduísmo, com corpo humano e cabeça de elefante, e considerado o mestre do intelecto e da sabedoria – é o “padrinho” da cidade de Pune, onde minha prima morou e onde fiquei por 15 dias. O povo endeusa o animal e o reproduz em tudo: no ímã de geladeira, na pequena estátua colada ao painel do carro, na bolsa, na almofada, nos saris, nas cortinas, nos chaveiros… Pedem proteção, fazem orações… Mas o bicho mesmo, o bicho vivo, o bicho que tem sede e fome, o bicho que sangra… Esse eles não cuidam. Apenas se calam.
Ganesh é conhecido também como o destruidor da vaidade, egoísmo e orgulho. Ele representa o perfeito equilíbrio entre força e bondade, poder e beleza. Também simboliza as capacidades discriminativas que proveem a habilidade de distinguir entre verdade e ilusão, o real e o irreal. Não, pera… Como assim? Deixa eu falar…
Sim, temos muitos valores divergentes aqui no Brasil, assim como em todos os demais países do mundo. Cada cultura tem suas peculiaridades, mas há inversões que fogem do senso comum, seja lá o que isso seja num país que deixa suas crianças dormirem ao sol e permite que estuprem suas mulheres. Não sei quem fala, não sei quem cala. Tampouco quem entende.
Entretanto, quando falo que viajar à Índia é voltar ao passado, nem disso a que me refiro. Na praia de Candolim, no estado de Goa, onde passamos alguns dias, encontrei pessoas falando português. O estado, menor dos indianos em território e quarto menor em população – porém o mais rico em PIB per capita da Índia –, esteve sob o domínio de Portugal por mais de 400 anos e suas igrejas e conventos são até classificadas como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Toda a arquitetura da região lembra o Brasil-colônia que vemos em livros de história, em novelas de época ou em documentários. Parece que o estado ficou parado no tempo até porque as paredes não recebem novas pinturas há anos e as instalações elétricas decadentes – que um dia pegaram fogo – pretejam as esquinas e decoram os arredores – pois as pessoas não se importam em instalar seu comércio ali mesmo, no que sobrou depois que o fogo apagou. Não sei quem fala, não sei quem cala.
Na praia, o solo estupidamente arenoso não convida ao banho de mar: uma onda mais forte pode cavar a areia debaixo dos teus pés e te levar embora Mar da Arábia afora. E não se sabe quem fala ou quem cala. Foi lá que vi pulgas saltando na areia, que praga.
Na Índia bebi água das torneiras, entrei num abatedouro de porcos e cordeiros, vi gatos com olhos furados atacados por corvos e gaviões, búfalos com chifres pintados de vermelho, porcos sem uma das orelhas, cachorros mofados, automóveis abandonados, idosos cochilando em cima da sua bancada de verduras no mercado público, abraçados a cabritos, depois de almoçar e orar, paredes marcadas por cusparadas de tabaco. Falar ou calar: não importa. O som tem cheiro na Índia, basta observar.
Cheiro que repele mas que também alimenta. Lá, comi flor de lótus temperada, admirei mangueiras seculares, bebi o suco da manga mais alaranjada e doce que já existiu, comi frutas com sal e provei uma sensação sem igual, vi olhos brilhantes e sorrisos contagiantes, barganhei descontos nos artesanatos mais cativantes e carreguei comigo uma experiência incomparável. Eu queria falar, mas só conseguia calar.
Em hindi, a língua oficial da Índia, existe uma única palavra para dizer tanto ontem quanto amanhã: “kala” (कल). Num país que não tem conceito de passado ou futuro, a máquina do tempo é o presente aqui e agora, e tudo acontece ao mesmo tempo: a vida, a morte, a chegada, a partida, o encontro, a despedida, as buzinas no trânsito, a desorganização, a limpeza, a troca, o trabalho, a família, o progresso, o acaso, a magia, o apego, a nostalgia. Lá, tudo fala. Enquanto o mundo kala.
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by Tina Teresa | @DiaboliqViolet
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ilustração deste poema: foto de um cartaz em frente a uma loja de instrumentos musicais em Pune, na Índia.
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