Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[Quase]

Nunca a frase de Saint-Exupéry fez tanto sentido
Vi a eternidade desbotar diante dos teus olhos tremidos

Meu amor, não foi tua intenção me cativar
Que será de mim agora se tua voz
É só uma lembrança sussurrando no meu ouvido?

Gosto de espelho, banheiro, edredom, chuveiro
Do teu sorriso safado, inteligente, criativo, aventureiro

No teu abraço apertado há demônios e outros amores
Será que se deixar cativar por alguém é isso?
É querer algo que não cabe nem na linguagem, nem no infinito?

Quase o improvável substituiu a distância
Quase nossas incoerências dissolveram a tolerância

Nossos nós e nossos defeitos derreteram nossos sonhos
Nossa incompetência escapou da filosofia careta
Entre sua atmosfera interior e o resto do planeta

O cotidiano superou a surpresa
Teu gosto solúvel avistou meu amor de duquesa

E as promessas veladas… Ah, as promessas veladas
Estacionadas no quase imponderável
Vencidas pela fugaz percepção inefável

Até quem olhava de fora percebia
Ancorada em nossos laços pairava a sintonia

Onde foi parar a eterna responsabilidade?
Aquele querer respirar junto e cativar a liberdade?
Onde foi parar o futuro? Foi quase…

Nós e nossos imperdoáveis medos
Nós e nossos quases perdidos no tempo

Tudo remetia ao caminhar conjugado
Toda a matemática, a literatura, a ciência dos ventos trocados
Tudo era quase, menos o imponderável

Você e seu talento pra chegar atrasado
A nós, resta assistir a tudo calados

Até quando vamos alimentar essa companhia solitária?
A quase união foi interrompida pelo abandono
Os quase momentos viraram desertos sem sono

Como posso lamentar o que não nos coube?
Até cheguei a provar-lhe as lágrimas, o que houve?

Não dá pra ser quase feliz, quase pronto, quase quase
Nossos tempos incompatíveis, nossos afazeres aqui e ali
Quase é um advérbio de tempo que não sobrevive ao “vem dormir”

Nada fácil viver no quase sem fresta
Nada fácil deixar a porta entreaberta

É uma irresponsabilidade extraordinária
Cativar alguém e partir pra indiferença
Cativar alguém e só agradecer a presença

Não, o quase não é só isso
Companhia sem compromisso

Ou você acha que quase amar
Permite fugir e se descontrolar
Separar primeiro para depois se encontrar?

Não é o acaso que nos prende na tempestade
São nossas escolhas, nossas verdades e nossas amizades

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
Não dissolva a eternidade no quase, minha vida
Não permita que teu vazio abafe a despedida

Tenho preguiça do teu vacilo que me definha agora
Não faço mágica nem nada pra tirar sorriso da cartola toda a hora

Vivo no quase esperando o depois
Não me esqueço do antes, não esqueço nós dois
Se houver vontade, a gente grita gol

Já é quase segunda-feira e eu não decidi ainda
Se adormeço ou se a dor meço enquanto a noite finda


❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

**

Art by Jarek Puczel, who approaches his work with the idea that life is a movie or a game of illusion and the world is a playground where different realities play with one another. Quase como um quase.

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[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

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