Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

alice

  • [Ar/mar]

    [Ar/mar]

    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Da janela, o ar parece mar
    Ar/mar, como não amar?
    Décimo primeiro andar
    Desce a sintonia do seu andar
    Desce a melodia
    Do balanço do mar
    Da ternura do ar
    Vem me abraçar
    Amada história
    Não fui eu
    A má da história
    Percebeu?
    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Pestanejar
    Marejar
    Só quero amar
    E quero que o mar
    Inunde o seu olhar
    E cristalize
    E se eu, Cris, estiver Alice
    Que você me carregue
    E me guie
    Sem perder a fantasia
    Mas mostrando que há caminhos
    Adivinhando cada planície
    Mesmo que o mar pedisse
    E cada segredo que você disse
    Simplesmente sumisse
    E cada nova palavra que surgisse
    Cristalizasse
    Enquanto eu, Cris, imaginasse
    Daqui, do décimo primeiro andar
    Uma paisagem
    Assim, de passagem
    Pela trigésima terceira segunda-feira
    Que me teletransportasse
    Para o seu mar
    Para o seu ar
    Ar/mar
    Até cada olho
    Um de cada vez
    Marejar


    by Tina Teresa

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  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by Tina Teresa

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