Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

ansiedade

  • [Sobre aniversário, velas, vento e fogo]

    [Sobre aniversário, velas, vento e fogo]

    Mais uma idade me engole
    À luz da metrópole
    Meus ouvidos dormem
    Numa canção de ninar
    Teu abraço me recolhe
    Antes que eu me apavore
    Quem sabe o dia demore
    Quem sabe a segunda-feira chore
    Tudo vai passar

    Talvez o vento sopre
    E as velas se apaguem
    Antes que eu deseje
    Meu desejo de aniversário
    Talvez eu mesma assopre
    As velas do meu bolo
    Antes de pedir socorro
    Ou de me impedir que falhe
    Talvez eu te fale

    Ou talvez eu grite
    Mesmo que seja involuntário
    A segunda-feira engoliu meu aniversário
    Foi até delicado
    Mas me virou ao contrário
    Seria cômico
    Se não fosse trágico
    No fundo, todo aniversário
    É um pouco solitário

    Meu suspiro é meu assopro
    Nas velas, belas
    No etéreo fogo
    Que se fazem de rédeas
    E iluminam meu bolo
    Calma lá, eu chego logo
    Valorizo o esforço
    E torço
    Pro fogo ser eterno


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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  • [Sílabas tortas]

    [Sílabas tortas]

    Unhas descascadas,
    cutículas machucadas.
    Não, uma sílaba não é nada simples:
    pode levar do céu ao inferno.
    Ou o inverso. 

    Nem toda revolta
    gera uma revolução.
    Mas uma evolução
    pode nascer de pouco menos
    de cinquenta tons
    de uma única frustração. 

    E sem nenhum verso pra contar história.
    Lembranças fazem cócegas,
    sorrisos são vírgulas
    que aguardam palavras. 

    Uma sílaba pode ser uma palavra inteira.
    Inteira, repleta, cheia…
    cheia de nada no meio do nada.
    No meio.
    Meio, metade, quase tudo, quase nada.
    Algodão. 

    É na segunda-feira que a semana começa?
    Qual a melhor música
    para inundar dias repletos de nada? 

    Qual mescla de letras transparece
    a melhor mescla de uma tentação? 

    Penso. Denso. Tenso. Imenso. Propenso.
    Cheiro da chuva de ontem de noite.
    Cheiro da grama recém cortada
    de ante-ontem.
    Cheiro de segunda-feira

    Músicas, muitas músicas, músicas sem fim.
    Sílabas em espiral. Tortas. Quase mortas. 

    Teriam as canções o poder de transformar
    meus comportamentos (e o dos outros)
    com a mesma eloquência e drama
    com que saem da minha boca? 

    Enquanto a boca canta,
    o estômago espreme as sílabas
    da sutil idiotice de existir. 

    Porque o porvir nada pede.
    Mas se algo está por vir,
    de que vale soletrar
    se a preguiça vai irritar
    a sílaba gritada,
    a sílaba quebrada? 

    O momento da decisão
    rasgou a unha num V. 

    Uma letra cravada no meio
    que atrapalha a minha pegada.
    Por quê? 

    O que virá? Quem viver, verá.
    Mais um verso.
    Reverso. Repenso. Convenço.
    Posso usar esse seu lenço? 

    Canto aqui no meu canto
    breves canções em contra-senso
    enquanto encanto,
    num pânico condescendente,
    mais uma segunda-feira sem silêncio.


    Tina Teresa

    • Artwork by Merna’s Artwork

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