Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

aventura

  • [Assim, pendurada]

    [Assim, pendurada]

    Eu quero que você me leve
    Assim, pendurada
    Dentro desse teu oceano de histórias

    Quero contemplar cada aventura breve
    Sem que o tempo me enerve
    Ou me transcenda
    Enquanto a memória escapa
    Basicamente quase sem nexo
    Tentadamente do avesso
    Tudo começa com um beijo
    Até a (des)razão
    Ou as angúrias do coração

    Se tenho coragem na ponta da agulha
    Leve-me a lugares que me mudem
    Assim, pendurada
    Pra eu perfurar a mais sutil fagulha
    E para que teu oceano me inunde

    E se fatos diferem de escolhas
    Carregue-me antes que eu morra
    Assim, pendurada
    Desenhe-me nas suas bolhas
    …de sabão
    Eu juro que não
    Não te abandonarei jamais
    Mesmo que as alças do destino
    Fiquem pesadas demais
    Mesmo que esse teu desatino
    Te faça andar pra trás

    Talvez a segunda-feira sirva
    Pra te encantar
    E para que a poesia te siga
    E que teu oceano
    Que tanto me intriga
    Desague tudo o que te abriga
    E me carregue
    Assim, pendurada
    Mesmo que você negue
    O frio que te dou na barriga

    Segunda-feira, seja bem -vinda


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The Ocean of Story – Tote bag – by Ilovedoodle.

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  • [ कल ]Kala: presente, passado e futuro na Índia

    [ कल ]Kala: presente, passado e futuro na Índia

    Ainda não inventaram máquinas do tempo, mas garanto a vocês que visitar a Índia é como voltar ao passado. Tenho uma prima que se mudou pra lá há 5 anos e, depois de vários convites para uma visita, resolvi me organizar pra conhecer um pedaço do outro lado do mundo, afinal de contas, esse seria o último ano dela lá como “cidadã indiana” – sim, ela tem longos cabelos escuros, pele amorenada e olhos amendoados e passa fácil, fácil por nativa. Inclusive, em alguns dos lugares que visitamos, ela pagou preço local – eles cobram mais caro dos turistas, sabia?

    A mudança dela para o país aconteceu por conta de uma proposta de trabalho que o marido recebeu: fazer parte da equipe de implantação da fábrica da Volkswagen na Índia. No começo, tudo era místico e novo. Tudo parecia desafiador e colorido. A empatia pela história, pelas dificuldades que as pessoas enfrentavam do outro lado do mundo e pela busca por um entendimento de vida mais holístico ganhava proporções universais. E a vontade de falar sem parar preenchia a alma dela e as histórias que ela contava preenchiam a alma da gente.

    Depois de 5 anos, os hábitos de não dizer não, o pouco caso com a higiene, a confusão de idiomas entre castas que não se entendem, a pimenta em exagero em todas as receitas, a falta de compromisso com clientes, processos, pessoas, vontades, desvontades, crenças, diferenças… a convivência com pulgas que saltam até na areia da praia – já que eles não matam nenhum animal, nem os parasitas –, com os corvos que pousam nas mesas dos bares em busca de restos de comida, com as fezes de pombos nas calçadas, os lixos pelos cantos, e, principalmente, com o endeusamento do hipotético e o abandono da realidade, começam a incomodar. Muito. Não adiantava falar. Melhor calar.

    Embarquei numa segunda-feira e eu nem estava em pânico, muito pelo contrário: eu estava preparada para muita coisa e tinha muita vontade de sentir toda essa realidade. Eu queria me calar e deixar o mundo falar. Não imaginei, no entanto, que efetivamente viver essa realidade me faria acordar ao som de bicadas de corvo na janela do quarto. Nem tampouco usar aqueles lenços lindos ao redor do rosto não apenas pra me proteger do calor escaldante e constante de 30ºC, mas pra limpar as mãos depois de comer lanches de nomes impronunciáveis e, ainda, pra cobrir o nariz e não sentir o cheiro forte de temperos misturados com carne podre, saliva e restos de comida pelas ruas. Complicado respirar. Impossível falar. Melhor mesmo calar.

    Quando você admira uma foto, você não ouve o que ela conta. Quando você tem a chance de fazer parte de uma foto, ela ganha cheiro, som, cor, textura, sabor, e aquela história passa a fazer parte de você. E então você percebe que a foto fala. E eu faria tudo de novo; exceto a parte de andar de elefante e observar o rapaz batendo com um bastão de ferro entre as orelhas do animal para ‘dizer’ se ele devia virar à esquerda ou à direita; sentir a saliva do bicho molhar-lhe o ventre a procura de refresco – será que ninguém lhe dera água? – e, ainda, perceber que seu cativeiro era um anel de ferro com garras internas que lhe feriam as patas. Eles não ouvem o que os elefantes falam? Ou se calam diante do que só acham que não os atinge?

    Ganesh – uma das mais conhecidas e veneradas representações de Deus no Hinduísmo, com corpo humano e cabeça de elefante, e considerado o mestre do intelecto e da sabedoria – é o “padrinho” da cidade de Pune, onde minha prima morou e onde fiquei por 15 dias. O povo endeusa o animal e o reproduz em tudo: no ímã de geladeira, na pequena estátua colada ao painel do carro, na bolsa, na almofada, nos saris, nas cortinas, nos chaveiros… Pedem proteção, fazem orações… Mas o bicho mesmo, o bicho vivo, o bicho que tem sede e fome, o bicho que sangra… Esse eles não cuidam. Apenas se calam.

    Ganesh é conhecido também como o destruidor da vaidade, egoísmo e orgulho. Ele representa o perfeito equilíbrio entre força e bondade, poder e beleza. Também simboliza as capacidades discriminativas que proveem a habilidade de distinguir entre verdade e ilusão, o real e o irreal. Não, pera… Como assim? Deixa eu falar…

    Sim, temos muitos valores divergentes aqui no Brasil, assim como em todos os demais países do mundo. Cada cultura tem suas peculiaridades, mas há inversões que fogem do senso comum, seja lá o que isso seja num país que deixa suas crianças dormirem ao sol e permite que estuprem suas mulheres. Não sei quem fala, não sei quem cala. Tampouco quem entende.

    Entretanto, quando falo que viajar à Índia é voltar ao passado, nem disso a que me refiro. Na praia de Candolim, no estado de Goa, onde passamos alguns dias, encontrei pessoas falando português. O estado, menor dos indianos em território e quarto menor em população – porém o mais rico em PIB per capita da Índia –, esteve sob o domínio de Portugal por mais de 400 anos e suas igrejas e conventos são até classificadas como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Toda a arquitetura da região lembra o Brasil-colônia que vemos em livros de história, em novelas de época ou em documentários. Parece que o estado ficou parado no tempo até porque as paredes não recebem novas pinturas há anos e as instalações elétricas decadentes – que um dia pegaram fogo – pretejam as esquinas e decoram os arredores – pois as pessoas não se importam em instalar seu comércio ali mesmo, no que sobrou depois que o fogo apagou. Não sei quem fala, não sei quem cala.

    Na praia, o solo estupidamente arenoso não convida ao banho de mar: uma onda mais forte pode cavar a areia debaixo dos teus pés e te levar embora Mar da Arábia afora. E não se sabe quem fala ou quem cala. Foi lá que vi pulgas saltando na areia, que praga.

    Na Índia bebi água das torneiras, entrei num abatedouro de porcos e cordeiros, vi gatos com olhos furados atacados por corvos e gaviões, búfalos com chifres pintados de vermelho, porcos sem uma das orelhas, cachorros mofados, automóveis abandonados, idosos cochilando em cima da sua bancada de verduras no mercado público, abraçados a cabritos, depois de almoçar e orar, paredes marcadas por cusparadas de tabaco. Falar ou calar: não importa. O som tem cheiro na Índia, basta observar.

    Cheiro que repele mas que também alimenta. Lá, comi flor de lótus temperada, admirei mangueiras seculares, bebi o suco da manga mais alaranjada e doce que já existiu, comi frutas com sal e provei uma sensação sem igual, vi olhos brilhantes e sorrisos contagiantes, barganhei descontos nos artesanatos mais cativantes e carreguei comigo uma experiência incomparável. Eu queria falar, mas só conseguia calar.

    Em hindi, a língua oficial da Índia, existe uma única palavra para dizer tanto ontem quanto amanhã: “kala” (कल). Num país que não tem conceito de passado ou futuro, a máquina do tempo é o presente aqui e agora, e tudo acontece ao mesmo tempo: a vida, a morte, a chegada, a partida, o encontro, a despedida, as buzinas no trânsito, a desorganização, a limpeza, a troca, o trabalho, a família, o progresso, o acaso, a magia, o apego, a nostalgia. Lá, tudo fala. Enquanto o mundo kala.



    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: foto de um cartaz em frente a uma loja de instrumentos musicais em Pune, na Índia.

    Mais fotos? Clique aqui e não deixe de ler todas as legendas.


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  • [Pulga ninja]

    [Pulga ninja]

    Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

    Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

    Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

    Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

    Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

    Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

    Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

    Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

    Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

    Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

    No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

    Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

    Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

    Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

    Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Photo by Tina Teresa

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  • [Sendo]

    [Sendo]

    Menina sendo moleca
    Pôr-do-sol sendo caminho
    Reflexo sendo menino
    Caminho sendo natureza
    Mar sendo destino
    Coruja sendo surpresa
    Estrada sendo certeza
    Destino sendo jipe
    Menina sendo gata
    Vontade sendo segunda-feira
    Natureza sendo poesia
    Pôr-do-sol sendo trilha
    Bagagem sendo janela
    Surpresa sendo cachorro
    Trilha sendo presente
    Reflexo sendo escolha
    Certeza sendo manha
    Viagem sendo tempo
    Hoje sendo mar
    Escolha sendo acaso
    Devaneio sendo viagem
    Cachoeira sendo abraço
    Manha sendo bobagem
    Companhia sendo paz
    Tatuagem sendo destino
    Panic sendo Monday
    Janela sendo surpresa
    Amigas sendo irmãs
    Acaso sendo destino
    Cenário sendo menino
    Vertigem sendo cachoeira
    Menina sendo princesa
    Segunda-feira sendo feriado
    Passeio sendo carinho
    Beleza sendo devaneio
    Areia sendo cenário
    Bobagem sendo companhia
    Princesa sendo bom-dia
    Ritmo sendo perfeito
    Música sendo coração
    Hoje sendo paisagem
    Tempo sendo vontade
    Carinho sendo pôr-do-sol
    Abraço sendo fé
    Paz sendo música
    Destino sendo beleza
    Cachorro sendo areia
    Paisagem sendo surpresa
    Reflexo sendo menino
    Menina sendo coruja
    Presente sendo música
    Feriado sendo natureza
    Presença sendo vertigem
    Coração sendo hoje
    Escolha sendo presente
    Poesia sendo trilha
    Surpresa sendo bagagem
    Cumplicidade sendo tatuagem


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Arte by @yugi

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  • [Aceito]

    [Aceito]

    Aceito convites pra sair ou pra ficar regados a cavalheirismo, água com gelo, gengibre e hortelã, pedaços de madrugadas e recheio de manhãs.

    Aceito chamego na nuca e na cintura, doçuras e travessuras, gargalhadas desbotadas, cachoeiras de ternura e queijo com goiabada.

    Aceito até o ciúme do vento se for pra te ter de escudo enquanto ganho o mundo, enquanto arranho o fundo e viajo no tempo.

    Aceito sorvete com caramelo assim, de vez em quando, assim enquanto espero você pra mim com um abraço deste tamanho.

    Aceito cetim gelado de madrugada, estrada de areia e terra molhada, cabelo ao vento, orvalho ao relento na praia e gotas de noz moscada.

    Aceito café cremoso com cheiro de chuva, geleia de amora e travesseiros de plumas, e um amor que me invada feito cachoeira em plena segunda-feira.

    Aceito ombro macio, sorriso sincero, massagem forte e mordida leve. Antes que o dia amanheça e o sol me carregue numa brisa breve.

    Numa trilha leve que não se mede, numa vida que a gente escreve do jeito que a gente pede, do jeito que a gente cria na malícia do dia a dia.

    To pronta, me leve. Não espere a noite cair nem a chuva passar, não espere o mar te levar. Sozinha eu não sei remar.

    To tonta, não negue. Apenas me pegue. E deixe que o medo leve embora toda ponta solta. Pra que a bagunça tome conta e que o riso nos entregue.

    Aceito toda a forma, toda a queda, todo peito aberto em paraquedas. Aceito coração transparente. Chocolate quente e beijos calientes.

    Aceito o universo em cascata, de braços abertos e alma lavada. De olhos fechados, sem motivos velados, apenas o mundo inteiro do nosso lado.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Arte: ‘My Love Flows Out Like a Waterfall’ by Tara McPherson available here. 16” x 24” Giclee Print on Canvas.

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  • [Alma calma]

    [Alma calma]

    Nem precisa um turismo por dentro de mim
    pra saber que minha alma não é calma.
    Tranquila, sim; equilibrada, um pouco;
    coerente, certamente;
    desatinada, sempre.

    Mas calma, nunca. 

    Guardo risadas que não dei,
    lágrimas que não derrubei.
    Vou lavar os cabelos e já volto,
    algo que eu comi pesou no estômago,
    vai virar rotina isso agora? 

    Segunda-feira não demora.

    Vou tomar água
    enquanto falo em letra cursiva,
    pra ninguém entender. 

    Tanta gente me quer bem,
    tanta gente que nem vem,
    tanta gente que aparece
    e a festa corre solta,
    vamos brincar de quermesse?
    Vamos saltar nuvens?
    Vamos voar e sair de dentro da gente,
    brincar de para-pente
    e espalhar pasta de dente? 

    – by @DiaboliqViolet

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