Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

destino

  • [Vento]

    [Vento]

    Talvez o vento exista
    Pra dizer no teu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    E fazer no teu umbigo
    Uma parada extendida

    E então provar tua mordida,
    Anunciar a próxima rima
    E desenhar teu destino. 

    Talvez o vento exista
    Pra trazer a segunda-feira
    De mansinho, pelos cabelos
    Disfarçada de carinho
    Doce-de-leite no pão de centeio

    E então te alimentar,
    Adoçar teus pedidos
    E avisar o mundo…

    Que você já chegou
    Com os olhos sorrindo
    Tão confuso, tão menino
    Tão gigante, tão perdido
    Você chegou tão lindo

    E então me pediu que eu te levasse
    Daquele lugar tão tenso
    Seria você o vento?

    Ou um barquinho de papel?
    Esperando um impulso novo
    Um abraço apertado
    Uma segunda-feira alheia
    Uma brincadeira

    Pra então você navegar
    Sair zarpando desse cercado
    Dessa cidade invisível 
    De concreto armado
    E recitar no meu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    Uma promessa tão linda
    Que te desdobre no tempo
    Te transforme no meu vento
    Pra então você me levar
    E me bastar
    Me ganhar
    E me flutuar


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Série de ilustrações chamada de Trazo do artista mexicano com base no Rio de Janeiro Christopher Guzman Hernandez que, inspirado pelas belezas da cidade maravilhosa, resolveu dar um toque pessoal à paisagens clássicas do Rio de Janeiro desenhando cenas surreais sobre algumas fotografias.

    **

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  • [De graça, nada]

    [De graça, nada]

    Nada vem de graça. 

    Nossa vida é uma constante transformação, momentos de paz e equilíbrio nos invadem, a segunda-feira vem toda a semana fazendo alarde.

    De repente parece que a rotina não tem graça e um choque de realidade, de pura maldade ou falta de maturidade nos confronta. Então tudo contrasta.

    Quando isso acontece, a acidez nos abraça e o instinto toma conta. Daí a visão se livra da neblina que nos afronta e o aconchego nos abandona.

    Mas é bom. Ignorance is a bliss. Conhecimento dói. Saudade corrói. Palavras ditas docemente criam promessas e desejos inconsequentes. E tudo se despedaça.

    É uma pena que você faça pirraça. É uma pena que nossos assuntos pendentes fujam do presente e se evaporem na vidraça dos nossos sonhos, feito fumaça…

    De ofegante, teu beijo virou tratante. Parecia passeio na praça. Ou na praia, numa agenda falsa. Virou desgraça. Passa ou repassa? Nada vem de graça.

    Mesmo que eu culpe aquela maquiagem frustrada ou a noite lotada de olhares tensos e desencontros intensos.

    Mesmo que uma simples fotografia seja motivo de agonia pelo brilho combinado entre o gole trocado e o pecado anunciado.

    Ou que o recado deixado fira feito adaga atirada nas costas que doem, machucadas. Se a noite é uma criança, que dizer da madrugada?

    Talvez a roupa amassada ou a toalha jogada sejam cartas marcadas. Ou só mais uma rodada, uma aposta inebriada. Uma ameaça atravessada por um oceano de trapaças.

    Do que você acha graça? Você pensa que um “bom dia, gata” disfarça? Você pensa que o teu cheiro grudado no meu travesseiro ainda te aguarda?

    Prepare o vinho que eu levo a taça. Ofereço um brinde à escolha nefasta. If it was a tinder, you better whatch out. #Simplesassim: nada vem de graça.

    Mas ainda há graça nas mancadas do destino. Não economize sorrisos nem esconda essa mágoa isolada sob uma capa mágica. É bom soltar as lágrimas. Tudo passa.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

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  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Photo by Débora F. da Cunha

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  • [Fadiga]

    [Fadiga]

    Que espécie de carinho é esse
    Que me irrita e ao mesmo tempo me intriga…
    E me convida a te provar

    Que agonia louca é essa
    Que aparece e some
    E me consome
    Em espasmos insondáveis

    Nem caminho, nem destino

    Esse seu olhar sozinho
    Me enerva
    Me irradia
    E me fadiga em sua companhia

    Esse seu andar mansinho
    Me apressa
    Me tropeça
    E me fadiga antes do raiar do dia

    E eu me canso
    E lanço um sorriso invertido
    Pra confundir esse seu querer dividido

    Então eu danço
    De olhos fechados, sem sentido
    De braços abertos e passos aflitos

    Dispenso os galanteios
    Evito a despedida
    Segunda-feira maldita
    Viro a cara pra monotonia
    Mas me perco na fadiga
    Do seu carinho ácido
    Que me irrita
    Que me intriga
    Que me agonia
    Que me convida
    E me consome
    Que me enerva
    E me irradia
    Que me apressa
    E me tropeça
    Que me cansa
    E me abocanha
    Que me inverte
    E me divide
    Que me pede
    E me decide
    Que me abriga
    E me fadiga


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Enquanto você não vem…]

    [Enquanto você não vem…]

    O tempo passa tanto.
    Tanto tempo num enquanto.
    Tanta espera, tanto pranto.
    Por que tanto portanto?
    Enquanto canto em cada canto,
    o tempo canta na varanda
    do meu peito.
    Não tem jeito.
    Ou eu espero ou apenas quero
    que esse tempo que eu não tenho
    simplesmente apareça
    e me vire de ponta cabeça.
    Seria o destino me olhando de canto?
    Ou um menino de tamanco
    sapateando dores,
    furtando amores,
    trocando sorrisos
    por pequenos sabores… 

    Enquanto a segunda não vem. 

     –
    by Tina Teresa

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  • [Miss. Sunshine in the rain…]

    [Miss. Sunshine in the rain…]

    – Posso mesmo ir com vocês? Cabe mais um?

    – Claro que cabe, prima, é uma kombi!
    (Hmmm… to me sentindo a Miss. Sunshine…)

    – A porta tem todo um esquema para abrir e fechar…

    – Tá ali, aquela branca, ali…

    – É a única kombi da rua, podia ser pink, amarela…
    (Miss. Sunshine…)

    – Deixa que eu cuido da porta. Entrem.

    – Quem ficou com o vô?

    – Onde?

    – Vô?

    – Poxa, ninguém ficou com o vô.

    – Eu estou bem, eu estou bem.

    – Como ninguém ficou com o vô? Eu to aqui no meio da rua com os braços abertos para nenhum carro passar por cima dele!

    – Que chuva, logo agora!

    – Choveu quando eu vim também, tive que vir saltando de marquise em marquise, mas mesmo assim me molhei bastante.

    – Se fosse segunda-feira, seria uma crise.
    – Você veio a pé?

    – Claro, é tão pertinho, imagina… mas pra voltar carregando essa máquina… esse negócio tá ficando pesado…

    – Mas você se molhou, viu?

    – Vai ficar gripada.

    – Não se preocupe.

    – Vou prender o cabelo.

    – Seu cabelo tá molhado da chuva?

    – Sim.

    – Se eu soubesse que você viria de carona conosco, prima, teria deixado a máquina no carro ao invés de carregá-la no aniversário.

    – Pois é, e o que você vai fazer com essa máquina de escrever?

    – Decorar a minha casa; eu sou apaixonada por máquina de escrever.

    – A mãe vai na frente com o pai. As crianças já entraram?

    – Também tenho uma máquina de costura antiga que era da outra tia, irmã da nona.

    – Eu já entrei.

    – Eu também.

    – Você já tinha visto a máquina lá em casa, da outra vez?

    – Sua vez, vó.

    – Já tinha inclusive feito uma foto dela.

    – O vô já conseguiu atravessar a rua?

    – Entre você agora, prima, que eu levo a máquina no colo.

    – Peraí, vó, deixa eu arrumar a colcha aqui no banco pra você sentar.

    – Eu deixei aí pra forrar.

    – Eu aprendi a datilografar em máquina de escrever, antes do computador.

    – Por isso que você quis ser jornalista?

    – É. Não. Sei lá…

    – Cada louco com sua mania.

    – Será que ainda funciona? Quero contar essa historia nela…

    – Como você vai carregá-la no avião?
    (Miss. Sunshine in…)

    – Tá todo mundo aí dentro?

    – Ah, eu dou um jeito.

    – Prima, segura esses docinhos pra eu poder fechar a porta.

    – Tava ótimo o aniversário, não tava?

    – Pera, deixa eu acomodar a máquina no meu colo.

    – Puxa a colcha…

    – Tava sim, nossa, adorei rever toda a família e conhecer os que eu ainda não conhecia.

    – Agora devolve os meus docinhos.

    – Pena que sua tia não foi.

    – Você não pegou nenhum cupcake de lembrança?

    – Com a bolsa numa mão e a máquina na outra, não tinha como.

    – Você vai escrever com ela?

    – Eu vou tentar.

    – Acho que você vai ter que trocar a fita…

    – Na segunda-feira, quando eu voltar, vou procurar onde comprar uma nova, vô. Mas obrigada, ela era sua, né? Adorei…

    – Presente de Natal.

    – Você vai lá pra casa?

    – Não, eu fico aqui na casa do meu primo. É nessa mesma rua, só que mais pra trás.

    – Tenho que dar a volta na quadra, então?

    – Isso mesmo, tio, eu contei umas quatro quadras quando eu vim, a pé. Mas tava chovendo, melhor entrar mais pra frente.

    – Você está atravessando o sinal vermelho, marido!

    – Numa ladeira como esta, se eu parar a kombi, a gente desaba.

    – Esse bairro é cheio de morros…

    – Bem que meu amigo falou que quem mora aqui tem a barriga da perna durinha…

    – Tá tão abafado aqui dentro…

    – Esse verão vai ser forte…

    – Os vidros estão todos embaçados, mano.

    – Da outra vez que eu vim, quando fiquei na casa da sua madrinha, o aniversariante estava dentro da barriga ainda…

    – Nossa, já faz quatro anos!

    – Só mais uma quadra e penso que já podemos virar.

    – Eu só contei três até agora.

    – Abre um pouco mais essa sua janela, mãe.

    – Então vou dobrar na próxima esquina.

    – Titio, você pegou quantos docinhos?

    – É à direita, né?

    – Peguei vários docinhos, pra nossa sobremesa de amanhã.

    – Isso, á direita, mas eu não me lembro do prédio do meu primo ser numa subida, acho que é numa descida.

    – Penso que ou entramos uma rua antes da quadra dele ou uma rua depois.

    – Vamos mais pra frente.

    – Qual o número daquele prédio ali?

    – Hein?

    – Por que você está rindo?

    – Aquele prédio ali?

    – Alguém consegue enxergar o número? Sou míope e estou sem óculos…

    – Ele está rindo do seu sotaque do sul.

    – 1400.

    – Ix, passamos, temos que voltar mais uma quadra pra trás.

    – Contornar a quadra novamente?

    – Meu sotaque?

    – Isso, e dobrar à direita mais adiante.

    – Nessa?

    – Não. Quer dizer, sim. Nessa agora e seguimos em frente e então dobramos de novo.

    – Agora?

    – É isso aí, filhão, olha só quantos docinhos!

    – Sim, pode dobrar.

    – Tem certeza?

    – Quem mora ali?
    (Definitivamente Miss. Sunshine…)

    – Não quer ir lá pra casa mesmo?

    – Obrigada, foi muito bom estar com todos vocês.

    – Encosto onde?

    – Ali, ali, marido.

    – É garagem, mas pode encostar ali, pra não ficar no meio da rua.

    – Meu primo mora aqui.

    – Vai ficar no meio da rua mesmo.

    – Ok, eu desço rapidinho.

    – Mas eu também sou seu primo? Ou não sou?

    – Claro que você é primo dela, pois se você é meu irmão, tem que ser primo dela também.

    – Dê um abraço na sua mãe quando você voltar e encontrar com ela.

    – Eu darei.

    – Fico feliz que conseguimos nos ver, vamos tentar combinar algo amanhã?

    – Aqui mora outro primo meu.

    – Toma, leva esse cupcake pra você.

    – Darei o abraço nela, lógico, vamos tentar combinar amanhã, sim.

    – Você vai na Bienal de Artes?

    – Que bacana conhecer seus pais, seu irmão, o filhinho dele é um fofo! E sua filha, prima, cada vez mais linda!

    – Ela vai.

    – Tchau, vô, vó…

    – Leva o cupcake…

    – Não precisa, pode ficar.

    – Pô, prima, eu to te dando!

    – Volte sempre, querida, fique lá em casa da próxima vez.

    – Ok, obrigada, vou comer no café da manhã.

    – Cuidado com essa porta, se não segurar ela vai bateeeeeer… olha o braço, mãe.

    – Desculpa, eu não consegui segurar.

    – Eu to bem.

    – Nossa, eu vi a porta esmagando o braço da mãe, agora.

    – Meu, que susto.

    – Tchau, crianças.

    – Tchau, prima, pegou o cachecol?

    – Você trouxe o cachecol que ela esqueceu lá em casa da outra vez?

    – Eu trouxe.

    – Calma aí que me engatei na barra da colcha.

    – Não tá vindo nenhum carro?

    – Aprendi a fazer crochê com a nonna, ainda criança, mas nunca fiz uma colcha deste tamanho…

    – Seu primo está em casa?

    – Eu estou com a chave da porta dos fundos.

    – Tchau tia, obrigada, tio.

    – Tchau, tchau.

    – Cuide-se, deixa que eu fecho a porta.

    – O carro que espere, agora.

    – E ainda chove.

    (Miss. Sunshine in the rain… Happy wet feet…)

    _

    by Tina Teresa

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  • [Ferida, família ou saudade?]

    [Ferida, família ou saudade?]

    _

    Não sei se é fome ou é saudade
    Se é desapego ou liberdade
    Toda essa vontade
    de correr, pular e sorrir sem qualquer dificuldade

    Dezembro chegou e me pegou acordada
    Meia-noite virou e eu ali, toda atravessada
    Trovando verbos, trocando versos, trotando passos dispersos
    Amassando a almofada sem dó nem piedade

    Cheguei chegando
    Com os olhos brilhando
    Sem sono, sem dor, sem ninguém me esperando
    E com todo mundo se abraçando

    Tão bom esse cheiro de aconchego
    De tanto tempo, tanta vida, tanto desespero
    Tanta cor, tanto amor, tanta história sem memória
    Que alimenta esse bocejo de vitória

    Outro momento assim não se repete
    Talvez no céu ou num gole de grapette
    A lembrança de um fim de tarde
    Volte forte mas sem alarde e com gosto de sorvete

    Ferida que arde feito corte de papel
    Não sai sangue nem aparece na pele
    Só faz lembrar que eu também estive lá
    Naquele carrossel de gerações, de ciclos, de pequenas bombonières

    Família é tudo isso e nada disso
    Mistura de arte com feitiço
    Cada uma com sua parte e não se fala mais nisso
    Coceira de bem querer, vem, vamos comer

    Segunda-feira, quem diria, nem te vi
    Mundo sem fundo, caiu uma fagulha aqui
    Se era Verão ou Outono, não tenho dono
    Se foi só mais um sonho, não quero mais dormir

    _

    by Tina Teresa

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  • [Gatos pardos]

    [Gatos pardos]

    Meia-noite.
    Os gatos pardos se esgueiram
    pelas esquinas catando frestas.
    E eu não me rendo. 

    Quem seria o grande culpado
    desse meu andar tremelicado?
    Penso que o meu destino
    seja querer sempre mais. 

    But, don’t panic!
    Traço rendas, sinto fome.
    Qual é o seu nome?
    Venha me contar o que fiz
    para merecer esse andar.
    E esse olhar.

    Ou melhor: esse seu observar de soslaio.
    Que me notifica mas me nega.
    Que me prega peças sem costurar. 
    A segunda-feira já vai começar.

    Os momentos efêmeros que te roubei
    justificam seus pulos inseguros
    do chão ao muro?
    Fico (mais) tonta.
    Gatos não são inseguros. 

    Estou pronta.
    Sua cauda escaldada
    me deixa desaTINAda.
    Deslavada. Destravada.
    Enquanto travo rimas de ninar. 

    Melhor abstrair sem sondar.
    E existir sem pensar.
    Agora tanto faz.
    Afinal, como ensina o poeta Chacal:
    é proibido pisar na grama;
    o jeito é deitar e rolar. 

    Anything is better than nothing.
    E sempre pode piorar.

     –
    by @DiaboliqViolet

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  • [Leviandade]

    [Leviandade]

    É, eu sei que sou séria quando quero, o problema é conseguir ser séria em momento lúdico, em que o perfume que ele usava, para que todos sentissem, não estava sendo sentido por outra pessoa naquele momento a não ser por mim.

    Leviandade? Pode ser. Mas… Se a gente nunca se esquece de andar de bicicleta, por que parar de sentir assim tão forte, de se apaixonar e de se permitir à sorte? Se nossas memórias são armazenadas de forma difusa, trancadas num padrão de conexões entre diversos neurônios, por que não podemos ter amantes que nos provoquem sensações inesquecíveis; feromônios?

    Afinal de contas, a recuperação espontânea das nossas memórias perdidas não pode ser ignorada… E então eu deixo de pensar e flutuo, mais leve que o ar, no aroma onírico dos meus sonhos e no brilho profundo daquele olhar que alcança minha alma e me embala… E então eu me entrego e me pergunto se estou errada, mas só consigo pedir para ser mais beijada.

    Leviandade? Talvez. Mas fazer o quê se as memórias insistem em vir à tona? E olha que isso é cientificamente provado: a recuperação espontânea não é apenas possível, mas inevitável. A gente nunca se esquece de se apaixonar. Segundas-quentes, terças-confidentes, quartas-feiras, quintas-incandescentes, sextas-dormentes, sábados, domingos latentes.

    Aliás, isso deve acontecer porque ninguém consegue preservar qualquer forma de prazer nos mesmos níveis por muito tempo. A intensidade da dor ou do prazer ao longo da exposição de um mesmo estímulo tende a diminuir com o tempo; um fenômeno inconsciente chamado de psicoadaptação. Isso quer dizer que por mais que a gente queira emoções cada vez mais fortes, logo, logo a gente se acostuma. E daí a gente quer mais uma, mais uma e mais uma.

    Augusto Jorge Cury* explica que a energia emocional não é estática, mas dinâmica. Ela se organiza, se desorganiza e se reorganiza num fluxo vital contínuo e ininterrupto; assim, nossa capacidade de permanecer em estado de êxtase é limitada. Então, por conta disso, a sensação de felicidade é condicional e sem estabilidade. Mas daí ele aparece, a saudade pulsa, a boca estremece, os olhos cativam e beijo acontece. Uma amizade pode sim ser colorida e a vida, mais divertida.

    Leviandade? E por que não? Quando ele vem de mansinho e me segura com firmeza e carinho, me devolve depois ainda mais viva… Por mais que exista uma tentativa frustrante de deslocar os pensamentos inoportunos, pelo menos aqueles que queriam antever os próximos acontecimentos soturnos, eu me entrego, não nego. A lógica é consistente, apesar de parecer inexplicável. Se eu estou certa ou não; eu não sei. Se paixão é sinônimo de isenção… Será que não?

    As frustrações, as dores da existência, as preocupações cotidianas sufocam os lampejos de felicidade que possuímos. Assim… Por que ficar sempre consciente se a gente pode extrapolar e estratificar o sentimento ao menos por um breve momento? É claro que isso depende da definição de felicidade que a gente resolve adotar… Mas, o que os olhos não vêem o coração não sente, e… Às vezes, a gente fica carente. E daí a gente sente um cheiro diferente…

    Leviandade? Talvez… A biologia justifica, a sociedade abomina. De quem é a vez?

    Os olhos até mostram uma traição, mas aquele que acredita na sua própria verdade (ou mentira) não se trai com o olhar nem com a tensão. Amigos, inimigos, conhecidos, amores… A língua não se importa com o que sente o coração. E o coração não se importa com o que pensa o cérebro. Tudo é concentração. Tudo é atmosférico. Leviandade? Pode até parecer um paradoxo, mas não aposte nela sem ponderação nem sem cuidado periférico.

    Neste planeta tudo é lindo e horrível na mesma amplitude. Enquanto isso, carrego em minha bagagem muita atitude, muitos olhares ora sinceros ora injuriados, e também muitas palavras falsas. Palavras ditas, escritas, pensadas, guardadas… E, assim como Fábio de Lima**, vejo o defeito da existência pendurado na língua. Nada é perfeito sempre e é comum se perder pela língua… Ambígua… Ah… Se a gente falasse menos… Mesmo sem guardar as provas, a memória fica. E daí já é suficiente, não precisa dizer nem guardar nada; só sentir, só pensar, só lembrar… Embriagada.

    Leviandade? Qual é o problema? Se a adrenalina rejuvenesce e a rotina entedia, por que não se permitir amar a rebeldia, provocar a nostalgia e apimentar o dia-a-dia? E, se toda experiência é válida, eu vou me jogar; vem me pegar, me abraçar, me amar e se deliciar.

    Depois a gente retoma nosso cotidiano, mas sempre escapando de vez em quando e curtindo, fugindo, porque senão a gente enjoa e a vida é muito curta pra ser levada à toa. Hoje cedo li um texto da Denise Tavares*** e me surpreendi. Depois de assistir Babel sozinha, ela sente-se frustrada por não ter com quem trocar ideias sobre o filme. Na volta pra casa, o céu recém aberto depois das muitas chuvas de janeiro não revela nem estrelas, nem o cometa McNaught****, mas traz a lembrança de um amigo que de lá, do céu, talvez estivesse sorrindo de sua tristeza. E então ela conclui, com delicadeza: estar vivo é cumprir uma travessia com algum sentido e depois partir, deixando saudade para ensinar que o presente deve ser vivido com toda intensidade.


    * Tina Teresa

    • Artwork by US traditional artist Caia Koopman


    *Augusto Jorge Cury > Psiquiatra, cientista, escritor e fundador da Academia de Inteligência, um instituto que promove o treinamento de psicólogos, educadores e profissionais de recursos humanos.
    **Fábio de Lima > Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET (www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO.
    ***Denise Tavares > Jornalista, professora e diretora da Faculdade de Jornalismo da PUC – Campinas.
    ****McNaught > O cometa McNaught é atualmente o objeto celeste mais brilhante depois do Sol e da Lua e, em quarenta anos, é o cometa mais brilhante já visto no Brasil. Ficou visível a partir das 20h30 abaixo da linha do Equador durante meados de Janeiro/2007.

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