Tão bola
Tão neve
Não demora
Não vá embora
Me leve
De leve
Na memória
Segunda-feira agora
–
![[Bola de neve]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/02/tumblr_mhehxgtD1j1r0ddb6o1_500-1.jpg)
Tão bola
Tão neve
Não demora
Não vá embora
Me leve
De leve
Na memória
Segunda-feira agora
–
![[Pronto. E ponto.]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/02/tumblr_mifxy2lHod1rjsev1o1_640-1.jpg)
Se me apronto, é ponto?
Se demoro, comemoro?
Contra-ponto em prantos.
Não, não choro, mas imploro…
… por uma laçada, um alinhavo,
um ponto.
Inacabado, é claro.
Porque nada nunca está pronto.
Porque agora eu me declaro…
… amante de retalhos emendados.
Ponto a ponto. Delicado.
De cada lado encontro
…
caracóis de linhas…
… costurando amores temporários
em corações imaginários.
É tão tonto esse sonho
que padeço pouco a pouco.
Ponto a ponto. Quase pronto.
De pronto.
Segunda-feira eu conto.
Não me ame sem pesponto,
não me abrace sem moldes,
não me costure sem abraços apertados.
Só lamento, não aguento.
É um tormento, falei, pronto.
Agora chega?
Teu dedo me dá choque
e teu toque me dá medo,
teu pelo me acorda
e tua boca me dá corda.
Não, não to morta.
Não me morda.
Pouco importa.
Giro a chave, fecho a porta
e logo adormeço.
É só o começo.
Tô toda torta, mas nem ligo.
Sei que apronto, volte logo
que prometo mais um ponto.
Ou uma massagem.
Teu leito comigo.
Eu consigo.
Teu acordo,
meu abrigo.
–
![[Das coisas mortas pelo caminho…]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/02/tumblr_mi9ptgMtik1rjsev1o1_1280-1.jpg)
Da borboleta tenho dó:
o desfrute das asas coloridas
chega de repente, resplandecente.
Vê-la caída no chão reflete
a fatia de tempo cortada
pelo rasante final.
Da ratazana, que dizer?
Pelos amassados, olhos esbugalhados.
Fim trágico de uma corrida mal sucedida.
Da barata passo perto por mero descuido.
O que realmente quero
é que seu último suspiro fique longe
ou sou capaz de plantar bananeira no muro.
Das formigas que pisoteio,
melhor deixar de escanteio o pensamento
antes que venha um morcego.
Do passarinho, exclamo: “Oh!”
e fico imaginando
se foi acidente de percurso ou atropelo.
Da aranha, que drama.
A cidade invade e muita coisa nela mais não cabe.
A segunda-feira chama e tudo se reparte.
Be part. Not apart.
–
![[Violeta]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/02/tumblr_mhq7ojXG9e1rjsev1o1_640-1.jpg)
Enquanto chove, floresço.
Enquanto enquadro, anoiteço.
Enquanto trago, violeta.
Enquanto você não chega, percebo
segunda-feira ainda é cedo
e cada paisagem que invento, borboleta.
–
![[Amarelinha]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/01/tumblr_mhjmmioP7A1rjsev1o1_1280-1.jpg)
Depois você me diz
se é mesmo verdade
essa sua mania
de pular amarelinha
em toda calçada quadrada
encontrada no seu caminho,
seja na segunda-feira ou
no meio da madrugada.
Se fosse você,
eu desenhava com giz
e tornava real
essa brincadeira banal.
Eu pintava o céu e o inferno
com fagulhas de cristal
e esperava brilhar
tua poesia no meu carnaval.
–
by Tina Teresa
![[White tulip]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/01/tumblr_mh1rc0vbKy1rjsev1o1_1280-1.jpg)
Cada segunda-feira que chega
é um novo começo.
Um reset de tempo,
uma tulipa branca.
Um universo paralelo
repleto de possibilidades.
Uma página nova
para sonhar,
planejar,
pestanejar,
relembrar
que uma história
só tem dono
quando é carimbada
no coração.
Panela de pressão.
Coisas que vêm e vão.
Coisas que aparecem
de onde eu chego
e nem por isso
o dia amanhece mais cedo.
Morcego.
Pé gelado no verão.
Vigilância solitária
de um tempo
que não foi meu.
Pra que esforço
ou alvoroço
se o que sobra
é apenas sobra.
Manobra.
Saudade que nem dói,
mas corrói.
Saudade de um novo dia
que não tarda,
que não chega,
que não falha,
que não pensa,
que não nega
nem tolera
essa cega
parcela de nós.
–
by Tina Teresa
![[Enquanto você não vem…]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/01/tumblr_mh04seGXhQ1rjsev1o1_500-1.jpg)
O tempo passa tanto.
Tanto tempo num enquanto.
Tanta espera, tanto pranto.
Por que tanto portanto?
Enquanto canto em cada canto,
o tempo canta na varanda
do meu peito.
Não tem jeito.
Ou eu espero ou apenas quero
que esse tempo que eu não tenho
simplesmente apareça
e me vire de ponta cabeça.
Seria o destino me olhando de canto?
Ou um menino de tamanco
sapateando dores,
furtando amores,
trocando sorrisos
por pequenos sabores…
Enquanto a segunda não vem.
–
by Tina Teresa
![[Etapas]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/01/tumblr_mgcwqjKF8a1rjsev1o1_640-1.jpg)
Os olhos se abrem novamente.
Mais um dia. Mais uma etapa.
Adoro etapas, ciclos, fases, vidas.
Tudo muda o tempo todo,
o minuto seguinte já passou,
de passo em passo,
de salto em salto,
amarelinha, céu e inferno,
paradoxos que se encontram,
se invertem, divertem, convertem.
Dormir em etapas é tão bom:
refresca a cabeça,
reorganiza as ideias,
entorpece e esclarece.
Porque o mundo é efêmero.
A vida é efêmera.
A cor é efêmera,
basta olhar para o céu.
Tem gente que muda de humor
de acordo com o céu.
Tem gente que de tanto mau humor
nem olha o céu.
Se bem que caminhar
com a cabeça nas nuvens
pode te fazer tropeçar.
No entanto um tropeço
pode ser um belo começo.
Tem gente que sorri à toa,
tem gente que sorri com os olhos,
tem gente que cerra os lábios em dor
para depois verter em lágrimas de amor.
Todos os dias são dias comuns,
até que alguma coisa acontece.
Até que uma nova etapa ganha forma
Até que a segunda-feira fica torta
e toma conta. E faz de conta…
–
by Tina Teresa
![[Ano novo]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2012/12/tumblr_mfb2a3DvT31rjsev1o1_500h.jpg)
_
Quero cabelo sedoso,
um corpitcho novo,
a pele mais macia,
rugas de telepatia
e um cochilo ao meio-dia.
Quero aconchego
embrulhado pra presente,
daqueles que pra abrir,
é preciso usar os dentes.
Quero um bocado
de calda de caramelo,
daquelas que formam fios
e lambuzam as mãos,
o rosto, a boca, o prato,
o bolo, que rolo!
Quando acaba um ano,
o que será a sobremesa
dessa ceia toda,
ora saboreada com gosto e pressa,
ora travada na garganta
feito uma travessa
de pimenta
ou um gole de soda cáustica?
Essas palavras ácidas
definem quem eu sou
ou quem você permite que eu seja?
Esse falso humor barato
diz mais sobre quem quer que seja você
do que você pensa que é.
Ou quer ser.
Ou aparenta ser.
Ou já foi.
Foi tarde.
E ainda boceja.
Esvaiu-se com o ano
que insiste em acabar
e acaba exercendo
uma pressão psicológica na gente
maior que qualquer
mousse de chocolate de liquidificador.
Porque pequenos segredos
ou pequenas desventuras
não tornam ninguém mais forte.
Tampouco grandes projetos emprestados
defendidos com voz melosa e espalhados
com panos bêbados de desinfetante.
Mentiras cotidianas não se calam,
ofensas veladas escondem-se
em frestas de ventilação,
farpas geladas rasgam carnes quentes
em predicados latentes
porque a sinceridade não tem
cadeira pra sentar,
apenas um leito pra deitar
e esperar a morte chegar,
ou o ano findar
sem deixar sequer poeira,
já que uma simples besteira
falou mais alto que a respiração.
Coração nenhum bate de bobeira.
Nem em plena segunda-feira.
Não afine a voz, não.
Essa estribeira ainda vai botar
toda essa angústia na linha.
Vem fingir que tá tudo bem, vem.
Tenha medo da chuva, não.
Vem tomar sorvete de creme
com cobertura de gelatina
que escapa e treme na base,
não pare, não tema, não há problema,
apenas tente, coma, lute, não morra,
chova, viva o novo de novo,
depois da chuva,
antes da próxima segunda.
–
by Tina Teresa
![[Eu já…]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2012/12/tumblr_mcmnlwiRNP1rjsev1o1_1280-1.jpg)
Eu engatinhei de costas,
caí do balanço e soltei pipa,
apanhei na bunda com pá de mexer fubá,
corri e cansei um bocado,
chamei professora de tia,
menti para não apanhar
esperei a segunda-feira chegar
e já fiz bico e birra.
Já caí do salto, já rasguei a meia
e pisei no vestido,
já meti a cara no vidro
e me esborrachei na gangorra do parquinho,
já me vesti de noiva, já morri de vergonha,
já assoei nariz em fronha,
perdi o rumo e enxerguei o fundo
sem cerimônia.
E eu já decepcionei
e já me frustrei também.
Já fiz pessoas sofrerem por minha causa,
já sofri por outras pessoas,
planejei me nivelar a alguém
e percebi que estava apenas permitindo
que continuassem a me magoar,
em plena segunda-feira eu tava mentindo.
Já tive vontade de sumir,
já estive no palco como uma atriz,
já tomei porre, já fiz dieta e ginástica,
já surtei geral,
já chorei de tanto rir,
e deixei a segunda-feira fluir
já abracei pra proteger,
mas também já ri
quando não deveria
e falei mais do que podia (ou devia).
Fiz amigos eternos
que quase nunca vejo,
mas nem por isso os desprezo,
muito pelo contrário.
Já amei e fui amada,
todavia já fui também rejeitada,
já fui amada e não amei
segunda-feira sem lei
Já perdi amizades e as recuperei,
já beijei por beijar,
e também já virei noites
ora na internet, ora nas baladas,
já chorei sentada no chão do banheiro
e
já amanheci pensando
em alguém que não valia nada
segunda-feira extasiada.
Já passei noite em claro,
Já passei o dia dormindo,
escrevi
poemas, contos e crônicas,
tive amores platônicos.
Já gritei e pulei de tanta felicidade,
quebrei a
cara muitas vezes
esperei a segunda chance
e até já fingi que era verdade!
Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei ora por um sorriso,
ora por um olhar, sem pensar…
Já acreditei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo
de perder alguém especial
(e acabei perdendo)
por pura falta de sanidade.
Mas também já festejei datas,
retomei lutas, abandonei sonhos,
vi o sol nascer na estrada
com amigos de verdade.
Já comi polenta com leite,
já colei em prova de história,
tirei dez em matemática
e até ganhei gincana de análise sintática.
Já tomei banho de cachoeira e de rio,
já vivi de amor,
mas também
já me decepcionei com um grande amor.
Já disse “eu te amo” sinceramente,
já me disseram
“eu te amo”,
mas eu não sei se era pra valer…
ou se era apenas entusiasmo
segunda-feira repelente.
Já fui promovida,
já fui demitida sumariamente,
já troquei de emprego,
já inventei trabalho.
Já mudei a rotina, joguei serpentina
e comi banana com mel.
Pintei o cabelo de roxo, almocei miojo
e fiz careta pro Papai Noel.
Já acreditei demais, já desconfiei demais,
me dediquei de menos.
Já me deslumbrei, já persisti num erro,
já aprendi com vários erros,
tomei sorvete no frio e sopa no calor,
já inventei lendas,
me escondi em tendas
e já comi pão-de-ló com gosto de isopor.
…e você???
–
by Tina Teresa
![[No banho]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2013/01/tumblr_mh25k82Eos1rjsev1o1_640-1.jpg)
Mais um dia escorre em nós, por nós, fazendo nós nos meus cabelos cor-de-mel. Nem respiro porque seu sorriso fica torto, refratado, molhado, absorto. E cada nó que eu desfaço respinga nos teus lábios e chicoteia teu fôlego. E te afoga. Te afaga. Te faz rir de mim. Quem sou eu senão versões e mais versões do muito que carrego dentro de mim? Vem se perder em meus braços, se emaranhar nos cadarços dos meus passos, se afogar nos meus cabelos, se entregar ao desespero dessa rotina arredia que faz da segunda-feira meu pânico, meu filtro, meu rim. Se sou vermelha ou violeta, se pisco ou busco, se olho ou ofusco é porque não distinguo mais o jasmim do capim, mesmo que o cheiro atravesse paredes e inunde meu banho. Tua visita, meu carmim. Tua paisagem, meu fim. Teu toque, meu plano. Teu abraço, meu desejo insano. Tua primeira, minha segunda-feira.
–
by Tina Teresa
![[Miss. Sunshine in the rain…]](https://panicmonday.com.br/wp-content/uploads/2012/12/tumblr_meuhxzHBNL1rjsev1o1_400-1.jpg)
– Posso mesmo ir com vocês? Cabe mais um?
– Claro que cabe, prima, é uma kombi!
(Hmmm… to me sentindo a Miss. Sunshine…)
– A porta tem todo um esquema para abrir e fechar…
– Tá ali, aquela branca, ali…
– É a única kombi da rua, podia ser pink, amarela…
(Miss. Sunshine…)
– Deixa que eu cuido da porta. Entrem.
– Quem ficou com o vô?
– Onde?
– Vô?
– Poxa, ninguém ficou com o vô.
– Eu estou bem, eu estou bem.
– Como ninguém ficou com o vô? Eu to aqui no meio da rua com os braços abertos para nenhum carro passar por cima dele!
– Que chuva, logo agora!
– Choveu quando eu vim também, tive que vir saltando de marquise em marquise, mas mesmo assim me molhei bastante.
– Se fosse segunda-feira, seria uma crise.
– Você veio a pé?
– Claro, é tão pertinho, imagina… mas pra voltar carregando essa máquina… esse negócio tá ficando pesado…
– Mas você se molhou, viu?
– Vai ficar gripada.
– Não se preocupe.
– Vou prender o cabelo.
– Seu cabelo tá molhado da chuva?
– Sim.
– Se eu soubesse que você viria de carona conosco, prima, teria deixado a máquina no carro ao invés de carregá-la no aniversário.
– Pois é, e o que você vai fazer com essa máquina de escrever?
– Decorar a minha casa; eu sou apaixonada por máquina de escrever.
– A mãe vai na frente com o pai. As crianças já entraram?
– Também tenho uma máquina de costura antiga que era da outra tia, irmã da nona.
– Eu já entrei.
– Eu também.
– Você já tinha visto a máquina lá em casa, da outra vez?
– Sua vez, vó.
– Já tinha inclusive feito uma foto dela.
– O vô já conseguiu atravessar a rua?
– Entre você agora, prima, que eu levo a máquina no colo.
– Peraí, vó, deixa eu arrumar a colcha aqui no banco pra você sentar.
– Eu deixei aí pra forrar.
– Eu aprendi a datilografar em máquina de escrever, antes do computador.
– Por isso que você quis ser jornalista?
– É. Não. Sei lá…
– Cada louco com sua mania.
– Será que ainda funciona? Quero contar essa historia nela…
– Como você vai carregá-la no avião?
(Miss. Sunshine in…)
– Tá todo mundo aí dentro?
– Ah, eu dou um jeito.
– Prima, segura esses docinhos pra eu poder fechar a porta.
– Tava ótimo o aniversário, não tava?
– Pera, deixa eu acomodar a máquina no meu colo.
– Puxa a colcha…
– Tava sim, nossa, adorei rever toda a família e conhecer os que eu ainda não conhecia.
– Agora devolve os meus docinhos.
– Pena que sua tia não foi.
– Você não pegou nenhum cupcake de lembrança?
– Com a bolsa numa mão e a máquina na outra, não tinha como.
– Você vai escrever com ela?
– Eu vou tentar.
– Acho que você vai ter que trocar a fita…
– Na segunda-feira, quando eu voltar, vou procurar onde comprar uma nova, vô. Mas obrigada, ela era sua, né? Adorei…
– Presente de Natal.
– Você vai lá pra casa?
– Não, eu fico aqui na casa do meu primo. É nessa mesma rua, só que mais pra trás.
– Tenho que dar a volta na quadra, então?
– Isso mesmo, tio, eu contei umas quatro quadras quando eu vim, a pé. Mas tava chovendo, melhor entrar mais pra frente.
– Você está atravessando o sinal vermelho, marido!
– Numa ladeira como esta, se eu parar a kombi, a gente desaba.
– Esse bairro é cheio de morros…
– Bem que meu amigo falou que quem mora aqui tem a barriga da perna durinha…
– Tá tão abafado aqui dentro…
– Esse verão vai ser forte…
– Os vidros estão todos embaçados, mano.
– Da outra vez que eu vim, quando fiquei na casa da sua madrinha, o aniversariante estava dentro da barriga ainda…
– Nossa, já faz quatro anos!
– Só mais uma quadra e penso que já podemos virar.
– Eu só contei três até agora.
– Abre um pouco mais essa sua janela, mãe.
– Então vou dobrar na próxima esquina.
– Titio, você pegou quantos docinhos?
– É à direita, né?
– Peguei vários docinhos, pra nossa sobremesa de amanhã.
– Isso, á direita, mas eu não me lembro do prédio do meu primo ser numa subida, acho que é numa descida.
– Penso que ou entramos uma rua antes da quadra dele ou uma rua depois.
– Vamos mais pra frente.
– Qual o número daquele prédio ali?
– Hein?
– Por que você está rindo?
– Aquele prédio ali?
– Alguém consegue enxergar o número? Sou míope e estou sem óculos…
– Ele está rindo do seu sotaque do sul.
– 1400.
– Ix, passamos, temos que voltar mais uma quadra pra trás.
– Contornar a quadra novamente?
– Meu sotaque?
– Isso, e dobrar à direita mais adiante.
– Nessa?
– Não. Quer dizer, sim. Nessa agora e seguimos em frente e então dobramos de novo.
– Agora?
– É isso aí, filhão, olha só quantos docinhos!
– Sim, pode dobrar.
– Tem certeza?
– Quem mora ali?
(Definitivamente Miss. Sunshine…)
– Não quer ir lá pra casa mesmo?
– Obrigada, foi muito bom estar com todos vocês.
– Encosto onde?
– Ali, ali, marido.
– É garagem, mas pode encostar ali, pra não ficar no meio da rua.
– Meu primo mora aqui.
– Vai ficar no meio da rua mesmo.
– Ok, eu desço rapidinho.
– Mas eu também sou seu primo? Ou não sou?
– Claro que você é primo dela, pois se você é meu irmão, tem que ser primo dela também.
– Dê um abraço na sua mãe quando você voltar e encontrar com ela.
– Eu darei.
– Fico feliz que conseguimos nos ver, vamos tentar combinar algo amanhã?
– Aqui mora outro primo meu.
– Toma, leva esse cupcake pra você.
– Darei o abraço nela, lógico, vamos tentar combinar amanhã, sim.
– Você vai na Bienal de Artes?
– Que bacana conhecer seus pais, seu irmão, o filhinho dele é um fofo! E sua filha, prima, cada vez mais linda!
– Ela vai.
– Tchau, vô, vó…
– Leva o cupcake…
– Não precisa, pode ficar.
– Pô, prima, eu to te dando!
– Volte sempre, querida, fique lá em casa da próxima vez.
– Ok, obrigada, vou comer no café da manhã.
– Cuidado com essa porta, se não segurar ela vai bateeeeeer… olha o braço, mãe.
– Desculpa, eu não consegui segurar.
– Eu to bem.
– Nossa, eu vi a porta esmagando o braço da mãe, agora.
– Meu, que susto.
– Tchau, crianças.
– Tchau, prima, pegou o cachecol?
– Você trouxe o cachecol que ela esqueceu lá em casa da outra vez?
– Eu trouxe.
– Calma aí que me engatei na barra da colcha.
– Não tá vindo nenhum carro?
– Aprendi a fazer crochê com a nonna, ainda criança, mas nunca fiz uma colcha deste tamanho…
– Seu primo está em casa?
– Eu estou com a chave da porta dos fundos.
– Tchau tia, obrigada, tio.
– Tchau, tchau.
– Cuide-se, deixa que eu fecho a porta.
– O carro que espere, agora.
– E ainda chove.
(Miss. Sunshine in the rain… Happy wet feet…)
_
by Tina Teresa