Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

domingo

  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Photo by Débora F. da Cunha

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  • [Domingos]

    [Domingos]

    Há gente que leva a vida no piloto automático.
    Há gente que decide viver várias vidas e conhece o Domingos.
    E aprende que o gosto de vida real é muito mais legal que o melhor comercial.
    Que nos intervalos acontecem muito mais coisas que na rotina.
    Que o desequilíbrio pode ser motivador e interessante.
    Que ser chamado de Domingos é viver um eterno fim de semana.
    E que a felicidade está no coração de quem abre a cortina da vida.
    E espia e interage e questiona e sorri e dança e canta e muda e gira.

    Falar sobre o pânico da segunda-feira, a renovação que o dia representa e a oportunidade que a gente tem de replanejar, tomar uma nova atitude, assumir uma nova postura e cumprir aquela promessa tardia me levou ao Rio de Janeiro. Vem cá, se a segunda-feira é um réveillon semanal, Janeiro é a segunda-feira do ano, tá certo?

    Cheguei no domingo no “Rio de Segunda-Feira” e fui recepcionada pelo Domingos, motorista da TV Globo há oito anos e, como ele mesmo diz, “se é pra fazer trabalho de confiança, ir em casa de artista, levar dinheiro ou documentos, ouvir conversas capciosas, sou eu que eles chamam”.

    De um bom humor espetacular – como todos com os quais interagi no Projac, diga-se de passagem -, Domingos logo perguntou sobre o que eu falaria no dia seguinte, no Encontro com Fátima Bernardes. “Sobre segunda-feira! Não é irônico falar sobre a segunda, numa segunda, e ainda ser levada pelo Domingos?” Risos.

    Neste momento lembrei que o motorista que levou minha última mudança chamava-se Segundo. Já mudei de cidade muitas vezes e cada conflito, cada escolha, cada plano frustrado, cada nova oportunidade, cada amigo novo, cada passo marcado provocava uma vertigem diferente, um sorriso descompassado e uma vontade urgente.

    Conhecer a nós mesmos é um processo sem volta. Escolher um ensejo é viver a vida envolta em sorrisos e muitas fagulhas de luz. Num segundo, tudo vira prosa.

    No dia 7 dei outros passos, conheci outros pés e outros dedos, outros sorrisos e outros desejos. E por 7 segundos vi um novo mundo descortinado suas asas sobre meus olhos. Domingos me buscou no hotel e chegamos ao Projac em menos de 7 minutos. Outros 7 bastaram para o credenciamento e menos que o dobro disso para a maquiagem perfeita. Para o momento perfeito. Sabe que o Domingos se parece com o prefeito? “O pessoal do ‘Caldeirão’ é quem tira mais onda disso”, diz. Bem feito.

    Domingos tem 7 irmãos. E há pouco mais de 7 anos ele é motorista na Rede Globo de Produção. Estudei Jornalismo pra ficar nos bastidores. Quase que nem o Domingos. Mas de repente me vejo em frente às câmeras, falando sobre o que eu mais gosto de fazer: brincar com palavras. Inventar e me refazer quase sempre. Propor um ano novo toda semana. Deixar gente contente. Descobrir o diferente.

    Talvez eu ame a segunda-feira porque vivo, como o Domingos, num eterno fim de semana. Talvez seja porque os conflitos da minha alma encontram neste ciclo um novo vício. Talvez porque a vida real é bem mais sensacional que um bom comercial. Talvez porque eu entenda que felicidade não é consequência de uma vida normal. Já que de perto, ninguém é mesmo normal, não é, Caetano? Ou porque o meu plano seja reinventar o cotidiano, ouvir histórias, compartilhar memórias e criar poemas que contam dramas que contorcem a barriga, que confundem a cantiga e que dão sabor à vida.

    E você? Já parou pra pensar que Segunda-feira é dia de amar um novo começo? Domingos nasceu num domingo; Segundo nasceu logo após seu irmão gêmeo, chamado Primogênito. Já passei muitos sábados desencaixotando peças de mudança. Já fui mais magra, mais gorda, mais chata, mais fofa. Já tive cabelos curtinhos, compridos, loiros, lisos, cacheados, roxos… Já quis jogar tudo pro alto, já queimei os pés no asfalto. Se eu for como todo mundo, quem será como eu? Não entre em pânico! Ame a Segunda-feira, encante-se à sua maneira. “Olha o bom: na Segunda você já viu o Domingo!”, brinca o motorista. E não apenas um. Vários. Domingos. Sejam bem-vindos.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Restos]

    [Restos]

    Restos de domingo assombram a segunda-feira
    Dia sem fim, noite sem beira
    Prefiro um pedaço de caqui

    Choveu e eu nem vi
    A luz dos postes brilha na rua molhada
    Mas o piso da sacada continua quente
    Silêncios que só eu ouvi

    Nos pés descalços gruda o cheiro gorduroso
    Que vem pelo ar sem avisar
    Algum vizinho fez festa, será?
    Orvalho misturado com pedaços de almoço

    Criei minha própria tempestade
    Numa taça de cristal tão frágil, tão limpa
    Trincada por raios e trovões, sobrevivi

    Nem me dei conta que meus pés não estavam no chão
    Boiei em bolhas de champagne
    E esperei o arco-íris surgir


    by Tina Teresa

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