Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

dúvida

  • [Memórias]

    [Memórias]

    Tropecei na escada rolante das minhas memórias

    Era um trânsito de vontades que se esbarravam

    E não respeitavam o ir e vir das discórdias

    Diálogos de quereres em dias de glória
     
    Luta de antagonias que nos apoia em prosa

    E nos diverge em versos 

    Ventania passageira, ilusão rebordosa

    Tonteria em estágios diversos

    Era o mesmo filme passando

    A mesma cena entrando em colapso

    O mesmo tempo perdido que voltava chorando

    Memória em compasso 

    Filme de vida,
    lembrança tardia,
    desci o degrau em lapso 

    Transe transitório,
    tontos passos 
    segunda-feira ardida

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Sobre chegadas e partidas]

    [Sobre chegadas e partidas]

    Flua, ele disse

    Na hora pensei em derreter

    Na hora pensei em desistir

    Na hora, na verdade, nem pensei 

    — Rua! — Foi o que ouvi, em riste

    Demorei a responder

    Agora não tem vez

    Lá fora a lua chora, eu sei 

    Tire o sapato ao entrar, por favor

    Ocarina sopra tempo, ardor

    Coração de chuva dança tango, meu amor

    Flua, ele disse

    Mas da caixa-de-música só vertia mel

    Segunda-feira em fúria, vendaval cruel  

    Doce guardado no guardanapo de papel

    Não vejo lua, não vejo céu 

    Derreti ao meio-dia

    Do dia que não veio

    Fluí em devaneio

    Porém, ainda receio

    Que a chuva no meu seio

    Seja o choro da lua

    Dançando feito bailarina nua

    No dia que me partiu ao meio 



    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: pintura especialmente criada por Fernando José Karl para este texto.

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  • [Suspiro]

    [Suspiro]

    Duelo desconcertante
    Rosto amendoado
    Segunda-feira errante
    Olhos abafados

    Cabelos de algodão
    Atalho machucado
    Sorriso inebriante
    Sol gelado

    Melodia exclusiva
    Trovoadas e raios
    Nostalgia lasciva
    Amanheço e desmaio

    Dilema equivocado
    Berço de flores negras
    Lágrima inflama
    Desejo boceja

    A vida me chama
    Me abriga, me beija
    Me tortura, relampeja
    Duvido do teu enredo

    Mas não tenho medo
    Teu drama na minha cama
    Me consome, me reclama
    Me pede, me ama

    Me impede, me demora
    Me acorda em soluços
    Acorde lusco-fusco fora de hora
    Reflexo, refluxo, agora

    Te meço, te busco
    Te duvido, me perturbo
    Caio no sono
    Te amo no susto

    Seria monótono
    Se não fosse brusco
    Haveria dúvida
    Se não tivesse pulso

    Minha saliva, tua música
    Palavra pausada na rua
    Ainda resta a dúvida
    Saudade amarrotada

    Seria justo?
    Te quero absurdo
    Assim doce, assim puro
    Um pouco torto, um pouco surdo

    Se ainda te duvido
    É porque te amo, te juro
    Te espero, te curo
    Te quero, me embrulho

    E tudo o que eu não te digo
    Paira no abismo… (*suspiro*)
    Onde pulei contigo
    Até o fundo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Hug by passavodiquipercaso

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  • [Não sei lidar]

    [Não sei lidar]

    Com seus medos

    E seus desejos

    Com seus bom-dias

    E suas nostalgias

    Com suas palavras

    E suas almofadas

    Com sua fome

    E como soletra meu nome

    Com seu cheiro

    Importa quem chegou primeiro?

    Com sua cama

    E a palavra na sua boca

    Achando que me ama

    Achando que me acha

    Me chamando de louca

    Achando que logo passa

    Não sei lidar com essa sede

    Tampouco com a parede

    Nem com o recado

    Ou o retrato falado

    Já é segunda-feira
    E eu tenho sede

     –
    by Tina Teresa

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  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by Tina Teresa

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  • [No banho]

    [No banho]

    Mais um dia escorre em nós, por nós, fazendo nós nos meus cabelos cor-de-mel. Nem respiro porque seu sorriso fica torto, refratado, molhado, absorto. E cada nó que eu desfaço respinga nos teus lábios e chicoteia teu fôlego. E te afoga. Te afaga. Te faz rir de mim. Quem sou eu senão versões e mais versões do muito que carrego dentro de mim? Vem se perder em meus braços, se emaranhar nos cadarços dos meus passos, se afogar nos meus cabelos, se entregar ao desespero dessa rotina arredia que faz da segunda-feira meu pânico, meu filtro, meu rim. Se sou vermelha ou violeta, se pisco ou busco, se olho ou ofusco é porque não distinguo mais o jasmim do capim, mesmo que o cheiro atravesse paredes e inunde meu banho. Tua visita, meu carmim. Tua paisagem, meu fim. Teu toque, meu plano. Teu abraço, meu desejo insano. Tua primeira, minha segunda-feira.

    by Tina Teresa

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  • [Ela | Ele]

    [Ela | Ele]

    Se há momentos em que tudo cansa,
    aquele era um deles:
    tudo tão mecânico e previsível
    que o pensamento abandona o corpo. 

    Não entendia o alcance das palavras
    que diziam cuidar de mim. 

    Do canto do quarto,
    a cena era angustiante e lastimável.
    Parecia um filme leviano
    já assistido uma dúzia de vezes;
    um filme com final incerto
    guiado por uma aterrorizante monotonia. 

    Os corações pulsavam juntos,
    mas em direções e talvez
    por motivos diferentes.
    Por horas.
    Horas que aguardavam
    apenas só mais um pulsar de ponteiros
    para a decisão aterradora. 

    Segunda-feira avassaladora.

    Penso que os homens
    que deitaram sobre o meu corpo
    não sabiam qual era realmente
    o valor do meu pudor. 

    Seus desejos ocupavam os espaços
    entre os ponteiros que pulsavam. 

    A gentileza é necessária,
    como o carinho, o adorno, o afago. 
    Tanto quanto o abraço, o esforço,
    o esmero, o suporte, o estofo.
    Gentileza é um sopro, um toque,
    um espasmo, um grito.
    E paz.
    Assim como o fogo.
    E a guerra. 

     Estar vivo é estar em conflito permanente,
    produzindo dúvidas e certezas questionáveis. 

    A gente aplaude quando gosta,
    questiona quando se sente atordoado
    e lamenta quando as expectativas não são atingidas. 

    No dia-a-dia a gente enxerga tendências,
    capta informações únicas
    e vivencia momentos puros. 

    Mas o difícil e atraente é captar a essência,
    o dinamismo e o significado de cada gesto,
    compostos por diversas sintonias e linguagens. 

    A gente sofre querendo e buscando,
    e também corre o risco
    de sofrer ainda mais com o resultado.
    Seja ele positivo ou negativo. 

    Quando queremos obstinadamente alguma coisa
    parece que ela está sempre distante,
    de um jeito ou de outro.
    Entretanto, o desejo ardente evoca fantasmas:
    insegurança, medo, fraquezas, responsabilidade. 

    É preciso estar preparado para o fim de uma história,
    ou, para o começo de outra.
    Afinal, o que fazer com o resultado? 

    A questão é que experiências ruins existem,
    fazem parte da nossa existência, sim.
    Só assim aprendemos a fazer boas escolhas,
    ganhamos esperteza e destreza
    perante as coisas da vida: vivendo.
    Mudamos de idéia, nos surpreendemos às vezes,
    nos decepcionamos outras.
    E ninguém deve ser responsabilizado
    pelas nossas más escolhas. 

    É graças a experiências ruins
    que nos deleitamos com
    (e valorizamos) as boas.
    Elas não devem e não podem
    ser evitadas. 

    Todo mundo é a favor de mudar e inovar,
    mas pouca gente está disposta
    a afastar-se da zona de conforto
    e assumir os riscos. 

    E daí diariamente a gente afunda,
    sem se dar conta,
    no traiçoeiro terreno movediço da irrelevância.

    Segunda-feira tansa. 

    É uma fuga, sim.
    Do destino, do presente, da angústia, do impensável.
    Enquanto isso, os ponteiros pulsam. 


    by @DiaboliqViolet

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