Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

empatia

  • [Samba no céu]

    [Samba no céu]


    Eu não sei onde, nem quando e
    nem como nos perdemos

    Sei que não foi quando
    eu me senti injustiçado e quis trocar de escola
    Também não foi quando
    me levou pra tirar foto no rebocador
    Também não foi quando
    eu cismei de fazer natação com Lelinho

    Não foi na Copa de 82
    Não foi

    Não foi quando saímos
    juntos no Bloco do Beco da Dona Gilda (de pijama e na chuva)
    Nem quando saímos
    juntos no Cartola de Prata (com uma fantasia arranjada em cima da hora)
    E tampouco nos blocos
    de sujo na rua da rodoferroviária

    Não foi quando me
    levou pra ver os jogos no CAP
    No Seleto
    E na Estradinha

    Também não foi quando
    me deu uma chuteira nova
    E ficou gritando no
    alambrado do Rio Branco
    Pra eu não subir e
    guardar posição pro ponta esquerda não ficar “nas costas”

    Não foi quando fui
    estudar em Curitiba
    Nem quando fui fazer
    Engenharia em Ponta Grossa
    E tampouco quando
    voltei pra Curitiba pra cursar Direito
     

    Não foi nos bailes de
    carnaval no Seleto
    (Quando ele cuidava de
    mim e dos meus amigos p
    ra gente não entrar
    em confusão)

    Também não foi quando
    fui morar em Guaratuba
    E nem quando mudei pra
    São Paulo
    Certamente não foi

    Não foi quando ele me
    disse que era São Cristóvão
    (que gostava do Bangu)
    E que futebol era um
    negócio “fácil de falar” e “difícil de explicar”

    Não foi nas viagens de
    carro pra Guaraqueçaba
    Nas férias em
    Balneário, Blumenau ou Shangri-lá
    E nem nos fins de
    semanas no Santa Mônica

    Não foi nas madrugadas
    no porto
    Nem nos eventos com a
    mamãe nos fins de semanas
    Não foi não

    Não foi nos
    aniversários na casa da tia Ivone (único lugar onde eu o via comendo algum
    doce)
    Nem nas festas na
    Varanda do Zacal (onde brincava, cantava e dançava)
    Certamente não foi

    Não foi a doença
    Não foi a distância

    Não foi falta de amor,
    carinho e afeto
    Não foi falta de
    sorrisos e nem de abraços
    Não foi 

    No fundo
    Nós dois sabemos que
    nunca nos perdemos
    Que somos mais
    parecidos que diferentes
    E que um dia
    (Um dia)
    A gente vai se
    encontrar de novo

    Talvez isso aconteça numa segunda-feira
    Talvez numa fronteira entre o aqui e o ali
    Talvez navegando num barquinho de papel…
    Ou numa roda de samba, falando besteiras…
    Fazendo batuque no céu…


    Aspas by Carlos Henrique, colocando na ponta do dedo a
    saudade de seu pai; complemento meu, por conhecer, desde a infância, alguns dos
    caminhos descritos.

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet

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    ilustração deste poema: artwork by Gilles Perez de la Vega.

     

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  • [Quem me dera]

    [Quem me dera]

    Quem me dera
    Repousar teu olhar 
    Na minha janela

    Pois se existe
    Algum lugar mais lindo
    É onde te vejo sorrindo
    De mansinho 
    Só pra mim

    Visita singela
    Vou pendurar uma arandela
    Aqui no alto
    Da minha janela 

    Só pra ver se teu olhar
    Vem me visitar

    Ah, quem me dera
    Se você ficasse quietinho
    E ouvisse o sussurro
    Do meu coração
    Que chora apertado
    Bem baixinho
    Que chora disfarçado
    Pelas penas que você perde pelo caminho
    Pelas cenas dos próximos capítulos 
    Pelas primeiras
    Pelas segundas-feiras 
    Pela delícias ligeiras
    E pelas carícias derradeiras

    Quem me dera
    Te amar sem medo
    Fazer do teu olhar
    Meu exclusivo luar
    Minha canção de ninar

    Quem me dera
    Teu ouvido na minha janela
    Confundindo pouso de mosquito
    Com pudim de canela

    Sei que não sou a mais bela
    Pra você ser minha fera
    Vociferando conclusões
    De sonhos esparsos 
    Falando ao relento
    Sobre o tempo e o espaço
    Falando sem parar
    Do futuro ao passado 
    Entre o dormir e o acordar
    Sem sequer esperar
    Meu coração descansar

    Ah, quem me dera
    Mas nem dormindo
    Você fica quietinho

    Irá você um dia
    Traçar um mapa de empatia
    Do meu talvez ao teu bom dia?

    Quem me dera
    Tua rebeldia
    Na minha janela
    Tua utopia
    Na tela pintada
    Na parede da sala
    No desenho que eu fiz
    Pra gente ser feliz

    Quem me dera
    Teu nariz
    No faro do meu triz


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: UK-based artist Robin Wight uses stainless steel wire to form stunning, dramatic sculptures of winged fairies dancing in the wind.

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