Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

encanto

  • [Encanto]

    [Encanto]

    Não me cronometre
    Ou o tempo vai amaldiçoar o amor
    Toda palavra compromete
    Toda carência se repete
    Toda segunda-feira deve
    Amenizar a dor

    Toda tolerância arde
    Até que o grito abafe
    E a angústia afague
    O ataque do arpoador 

    Todo controle fere
    O ciúme fede
    O espinho está no caule
    Não há culpa no botão da flor 

    E o Carnaval
    Que já acabou faz tempo
    Esquece que tem um rival
    Chamado ressentimento 

    Por isso essa máscara  
    Na tua cara
    Me desforra
    Em dissabor 

    Teu cronômetro me tolda
    Enquanto o mundo dá uma volta
    O tempo parece que para
    Meu coração dispara
    Em prantos
    Para meu espanto
    E aí a segunda-feira
    Por besteira
    Perde o todo o seu encanto

    Poem by Tina Teresa 


    ilustração deste poema: photo by Thalita Schuh.   

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  • [Tapete roxo]

    [Tapete roxo]

    Vinho do porto
    Tapete roxo
    Sorriso torto
    Tropeço um pouco
    Bailarina

    Se no chão cai vinho, nem noto
    Tudo bem, só mais um gole
    Escreva seu nome, distorça o foco
    Se perco o tom, desboto
    Tonteria de morfina

    Lenço de papel ou guardanapo?
    Um bilhete atrasado
    Perdido, quase esquecido, surrado
    Era um poema ou um recado?
    Segredo de menina

    O papel faz cortes invisíveis
    Que vertem e ardem saudade
    Você trocaria momentos incríveis
    Por palavras travestidas de verdade
    O mundo muda numa esquina

    No papel eu escrevo
    Só um pouco de bobagem
    Segunda-feira bêbada de medos
    Tapete no vinho é brinquedo
    A mancha agora é inquilina

    Se meu coração de tinta
    Transborda palavras derretidas
    Junte os trapos e apenas sinta
    Forme uma frase descontraída
    E guarde numa mordida

    Cada um lê com os olhos que tem
    Cada gole que toca o peito
    É uma gota que não cai no tapete
    Palavra rasgada; pedaço de bilhete
    Segunda-feira fluída, tão fina

    Vamos dançar?
    Mais uma taça, pra embalar
    Não importa que tudo derrame
    Se der, ame; não reclame
    Cristal, cristalina, Cristina


    by Tina Teresa

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  • [Prazo de validade]

    [Prazo de validade]

    Será que tudo tem prazo de validade? Se sim, será que é o grau de intensidade o que determina esse prazo? Don’t panic! A segunda-feira está quase no fim e a música que embala minha preguiça conversa comigo. Aliás, é comum músicas conversarem comigo.

    Ah, se essa e outras canções tivessem o poder de transformar comportamentos. E então daí as atitudes teriam prazos de validade. Teria valia? Quanto vale uma nota musical? Uma nota, certamente. E um adágio? Um pedágio?

    Outro dia me disseram que o sentido da vida depende da relação que estabelecemos com as pessoas. Enquanto cantamos sentimentos debaixo do chuveiro ou detrás do volante do carro, percebemos que cada relação depende da admiração que temos por essa ou por aquela pessoa.

    Talvez por isso as relações tenham prazos de validade. Será que só admiramos até onde a vista alcança? Se ‘ad mirar’ é ter próximo aos olhos, que dizer das canções que choram amores ou provocam sabores sem nada mostrar mas tudo revelar?

    As roupas que escolhi não vestir vão se amontoando do lado de fora do armário, criando um mundo à parte, solitário, que só eu vejo enquanto bocejo. Enquanto canto embalada e sinto sua presença velada disfarçada de lua cheia que invade minha sacada pedindo para ser admirada.

    Teria a luz que reflete a lua validade prorrogada já que o escuro toma conta quando fecho os olhos? Qual o futuro do infinito se o que percebo são defeitos sem efeito, sem reflexo, sem pó de pirilimpimpim? Cabe a lua no meu jardim? Ou prefere ela adormecer um sonho bonito?

    Cabe este canto no canto do seu encanto? Quanto tempo ainda tenho nesse tenso embalo intenso? Be yourself. E quem sabe eu te admire mesmo de olhos fechados. Mesmo que o prazo de validade expire. Mesmo que eu pire. E que aquele mundo à parte gire.


    by Tina Teresa

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