Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

encontro

  • [Encontro]

    [Encontro]

    Toda vez que a gente se encontra
    tem sido assim
    Você sóbrio na sombra
    E eu perdida dentro de mim 

    Toda vez que a gente se encontra
    meus cabelos dançam revoltos
    tentando esconder, em ondas
    um largo sorriso no meu rosto

    Toda vez que a gente se encontra
    os aromas do meu corpo
    sobrevoam a segunda-feira
    enquanto você me desmonta

    Parece que você sabe
    meu lado avesso derrete
    quando nada mais me cabe

    Parece que você se diverte
    minha risada se espalha
    quando teu verso se repete

    A ordem não importa
    A noite não tem volta
    nem as voltas
    que você dá em mim
    quando eu volto e te olho assim
    toda vez que a gente se encontra
    segunda-feira sem fim


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema: beautiful juxtaposition on a seashell by Erzsebet Nagy Saar, un talent curieux qui se livre à des expérimentations de matière et de composition.

    Ces quatre collages de la série Nautilus en sont un bon exemple. Les petites créatures lovées dans la nacre sont comme des petites sirènes dont la beauté mystérieuse nous captive…

    **

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  • [Rendezvous]

    [Rendezvous]

    Aprendi uma palavra nova em francês
    Uma palavra forte que me fez sonhar
    E acordar perdida, na sorte, pouco depois das 3h

    Penso que preciso ouvir uma música boa antes de dormir
    Uma música boa que me faça pensar em você com calma
    É isso que me salva dessa selva densa, segunda-feira intensa
    que me afaga e tenta me fazer sonhar

    Tudo azul, mon amour, rendezvous

    Aprendi uma palavra nova em francês
    Uma palavra que me levou ao teu encontro
    Se era real ou se era um sonho eu não sei

    Aprendi uma palavra que significa [encontro]
    Você chegou à Paris no Outono
    E me beijou bem no meio do meu sonho

    You’re my soul, mon amour, rendezvous

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    Fair at the Jardin de Tuilleries, Paris, France by Timo Elliott.

    **

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  • [Domingos]

    [Domingos]

    Há gente que leva a vida no piloto automático.
    Há gente que decide viver várias vidas e conhece o Domingos.
    E aprende que o gosto de vida real é muito mais legal que o melhor comercial.
    Que nos intervalos acontecem muito mais coisas que na rotina.
    Que o desequilíbrio pode ser motivador e interessante.
    Que ser chamado de Domingos é viver um eterno fim de semana.
    E que a felicidade está no coração de quem abre a cortina da vida.
    E espia e interage e questiona e sorri e dança e canta e muda e gira.

    Falar sobre o pânico da segunda-feira, a renovação que o dia representa e a oportunidade que a gente tem de replanejar, tomar uma nova atitude, assumir uma nova postura e cumprir aquela promessa tardia me levou ao Rio de Janeiro. Vem cá, se a segunda-feira é um réveillon semanal, Janeiro é a segunda-feira do ano, tá certo?

    Cheguei no domingo no “Rio de Segunda-Feira” e fui recepcionada pelo Domingos, motorista da TV Globo há oito anos e, como ele mesmo diz, “se é pra fazer trabalho de confiança, ir em casa de artista, levar dinheiro ou documentos, ouvir conversas capciosas, sou eu que eles chamam”.

    De um bom humor espetacular – como todos com os quais interagi no Projac, diga-se de passagem -, Domingos logo perguntou sobre o que eu falaria no dia seguinte, no Encontro com Fátima Bernardes. “Sobre segunda-feira! Não é irônico falar sobre a segunda, numa segunda, e ainda ser levada pelo Domingos?” Risos.

    Neste momento lembrei que o motorista que levou minha última mudança chamava-se Segundo. Já mudei de cidade muitas vezes e cada conflito, cada escolha, cada plano frustrado, cada nova oportunidade, cada amigo novo, cada passo marcado provocava uma vertigem diferente, um sorriso descompassado e uma vontade urgente.

    Conhecer a nós mesmos é um processo sem volta. Escolher um ensejo é viver a vida envolta em sorrisos e muitas fagulhas de luz. Num segundo, tudo vira prosa.

    No dia 7 dei outros passos, conheci outros pés e outros dedos, outros sorrisos e outros desejos. E por 7 segundos vi um novo mundo descortinado suas asas sobre meus olhos. Domingos me buscou no hotel e chegamos ao Projac em menos de 7 minutos. Outros 7 bastaram para o credenciamento e menos que o dobro disso para a maquiagem perfeita. Para o momento perfeito. Sabe que o Domingos se parece com o prefeito? “O pessoal do ‘Caldeirão’ é quem tira mais onda disso”, diz. Bem feito.

    Domingos tem 7 irmãos. E há pouco mais de 7 anos ele é motorista na Rede Globo de Produção. Estudei Jornalismo pra ficar nos bastidores. Quase que nem o Domingos. Mas de repente me vejo em frente às câmeras, falando sobre o que eu mais gosto de fazer: brincar com palavras. Inventar e me refazer quase sempre. Propor um ano novo toda semana. Deixar gente contente. Descobrir o diferente.

    Talvez eu ame a segunda-feira porque vivo, como o Domingos, num eterno fim de semana. Talvez seja porque os conflitos da minha alma encontram neste ciclo um novo vício. Talvez porque a vida real é bem mais sensacional que um bom comercial. Talvez porque eu entenda que felicidade não é consequência de uma vida normal. Já que de perto, ninguém é mesmo normal, não é, Caetano? Ou porque o meu plano seja reinventar o cotidiano, ouvir histórias, compartilhar memórias e criar poemas que contam dramas que contorcem a barriga, que confundem a cantiga e que dão sabor à vida.

    E você? Já parou pra pensar que Segunda-feira é dia de amar um novo começo? Domingos nasceu num domingo; Segundo nasceu logo após seu irmão gêmeo, chamado Primogênito. Já passei muitos sábados desencaixotando peças de mudança. Já fui mais magra, mais gorda, mais chata, mais fofa. Já tive cabelos curtinhos, compridos, loiros, lisos, cacheados, roxos… Já quis jogar tudo pro alto, já queimei os pés no asfalto. Se eu for como todo mundo, quem será como eu? Não entre em pânico! Ame a Segunda-feira, encante-se à sua maneira. “Olha o bom: na Segunda você já viu o Domingo!”, brinca o motorista. E não apenas um. Vários. Domingos. Sejam bem-vindos.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Ciclos]

    [Ciclos]

    Sete erros
    Jogo bobo
    Muda o medo
    Muda o troco
    Não reparei
    Foi por pouco
    Quase errei
    Te deixei louco
    Foi mais um ciclo
    Mais um sufoco
    Chegou num pulo
    E passou fosco
    Cabeça girando
    Coração tosco
    Sete notas
    Sete cores
    Sete erros
    Sete amores
    Sete anos
    Sete fardos
    Vida louca
    Gato pardo
    Sete ciclos
    Sete chakras
    Sete pecados
    Sete vidas
    Machucados
    A sete palmos
    Doce veneno
    Suor amargo
    Tem certeza?
    Te quero livre
    Não grite
    Te quero meu
    Sem deslize
    Eu te espero
    Sorriso aberto
    Sete infernos
    Tava tão perto
    Mudei o rumo
    Pulei o muro
    Troquei a rota
    E roubei a aposta
    Perdi o prumo
    E primei por mim
    Foi mais um ciclo
    Fugi de mim
    Temperatura
    Pela cintura
    Flor de jasmim
    Sete mentiras
    Almocei capim
    Segunda-feira
    Angústia carmim
    Sete feiras
    Sem asneiras
    Sete dias na semana
    Sete passos na lama
    Sete erros
    Joguei ao vento
    Sete marias
    À revelia
    À minha maneira
    Por sete tempos
    Descontento
    Sete magias
    Você viria?


    by Tina Teresa

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  • [Pronto. E ponto.]

    [Pronto. E ponto.]

    Se me apronto, é ponto?
    Se demoro, comemoro?
    Contra-ponto em prantos.
    Não, não choro, mas imploro…

    … por uma laçada, um alinhavo,
    um ponto.
    Inacabado, é claro. 

    Porque nada nunca está pronto.
     Porque agora eu me declaro…

    … amante de retalhos emendados.
    Ponto a ponto. Delicado.
    De cada lado encontro

    caracóis de linhas…

    … costurando amores temporários
    em corações imaginários.

    É tão tonto esse sonho
    que padeço pouco a pouco.
    Ponto a ponto. Quase pronto.
    De pronto.
    Segunda-feira eu conto. 

    Não me ame sem pesponto,
    não me abrace sem moldes,
    não me costure sem abraços apertados. 

    Só lamento, não aguento.
    É um tormento, falei, pronto.
    Agora chega?
    Teu dedo me dá choque
    e teu toque me dá medo,
     teu pelo me acorda
    e tua boca me dá corda.

    Não, não to morta.
    Não me morda.
    Pouco importa.
     Giro a chave, fecho a porta
    e logo adormeço. 

    É só o começo.
    Tô toda torta, mas nem ligo.
    Sei que apronto, volte logo
    que prometo mais um ponto. 

    Ou uma massagem.

    Teu leito comigo.
    Eu consigo.
    Teu acordo,
    meu abrigo.


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