Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

escolhas

  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Ponto a ponto]

    [Ponto a ponto]

    Muda o timbre
    Muda o tom
    Muda o som
    Muda o frame
    De repente, a gente treme
    Segunda-feira a gente sente
    Todo o tempo
    Muda o leme
    Crème de la crème
    Foi tão bom
    E tão perene
    Agora o ventre
    Tem nova flame
    Que chama
    Inflama
    E abocanha
    Toda distância
    Toda direção
    Toda escolha
    Coração
    Grito na boca
    Novo rumo
    Nova vida
    A despedida ficou no passado
    A nova acolhida
    Brindou o trabalho
    O destino brincou com a premissa
    E a promessa tilintou na barriga
    Só uma frase
    Nova fase

    Oh, I love mondays…
    A new begining
    A new bikini
    A new life
    A new job
    A new love
    If you make me happy
    I’ll love you so
    Let’s work and play
    And drink chardonnay
    Se eu fugir sem plano
    Você me busca
    De trem, asa delta ou aeroplano
    Se eu perder o ponto
    Você me acha
    E a gente faz um encontro
    Se você me abraça
    A gente conta um conto
    Ponto a ponto


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Registro do festival Burning Man – evento de contra-cultura dedicado à vida em comunidade, arte, auto-expressão, auto-suficiência, meditação e qualquer outra coisa que rompa a barreira da moral e do medo do ridículo – feito pelo fotógrafo Victor Habchy, que viaja o mundo com mochila nas costas, olhar curioso e máquina sempre pronta para encontrar o disparo perfeito. Ele comprou sua passagem com a ajuda de uma campanha de crowdfunding mesmo sem saber como chegar ao evento, que acontece anualmente em Nevada (EUA) no meio do deserto.

    **

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  • [De graça, nada]

    [De graça, nada]

    Nada vem de graça. 

    Nossa vida é uma constante transformação, momentos de paz e equilíbrio nos invadem, a segunda-feira vem toda a semana fazendo alarde.

    De repente parece que a rotina não tem graça e um choque de realidade, de pura maldade ou falta de maturidade nos confronta. Então tudo contrasta.

    Quando isso acontece, a acidez nos abraça e o instinto toma conta. Daí a visão se livra da neblina que nos afronta e o aconchego nos abandona.

    Mas é bom. Ignorance is a bliss. Conhecimento dói. Saudade corrói. Palavras ditas docemente criam promessas e desejos inconsequentes. E tudo se despedaça.

    É uma pena que você faça pirraça. É uma pena que nossos assuntos pendentes fujam do presente e se evaporem na vidraça dos nossos sonhos, feito fumaça…

    De ofegante, teu beijo virou tratante. Parecia passeio na praça. Ou na praia, numa agenda falsa. Virou desgraça. Passa ou repassa? Nada vem de graça.

    Mesmo que eu culpe aquela maquiagem frustrada ou a noite lotada de olhares tensos e desencontros intensos.

    Mesmo que uma simples fotografia seja motivo de agonia pelo brilho combinado entre o gole trocado e o pecado anunciado.

    Ou que o recado deixado fira feito adaga atirada nas costas que doem, machucadas. Se a noite é uma criança, que dizer da madrugada?

    Talvez a roupa amassada ou a toalha jogada sejam cartas marcadas. Ou só mais uma rodada, uma aposta inebriada. Uma ameaça atravessada por um oceano de trapaças.

    Do que você acha graça? Você pensa que um “bom dia, gata” disfarça? Você pensa que o teu cheiro grudado no meu travesseiro ainda te aguarda?

    Prepare o vinho que eu levo a taça. Ofereço um brinde à escolha nefasta. If it was a tinder, you better whatch out. #Simplesassim: nada vem de graça.

    Mas ainda há graça nas mancadas do destino. Não economize sorrisos nem esconda essa mágoa isolada sob uma capa mágica. É bom soltar as lágrimas. Tudo passa.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

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  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by Tina Teresa

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  • [Preguiça]

    [Preguiça]

    Gosto de você, mas

    O que posso fazer?

    Suas escolhas o definem

    E reprimem

    Seu desejo de ter-me

    E parece um crime ver-me

    Poderia ser bom

    E divertido

    Estaria você perdido?

    Ou iludido?

    Ou apenas decidido a não pular?

    Será que o tempo vai trazer

    Seu beijo pro meu colo?

    Ou sua vida pro meu mundo

    Profundo

    Sutilmente

    Lentamente

    Num salto latente

    Segunda-feira, de repente

    Sem sono nem medo

    Com seu gosto morno

    Pedindo aconchego

    E sorrindo

    Curtindo

    O que seus olhos nublados

    Prometeram um dia

    Sem pensar?

    Acho que você até sonhou magia

    Mas a deixou de lado

    Dominada

    Por uma preguiça arredia

    Pura melancolia

    Que me fere

    Sem ao menos contar-me

    Ou sequer lembrar-me

    Que você também queria

    Brincar de fazer poesia

    Com meus cabelos de jasmim 


    by @DiaboliqViolet

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  • [Sobre nós]

    [Sobre nós]

    Levo horas
    desatando os nós
    dos meus cabelos,
    diariamente. 

    Lavo horas.Tantos nós.
    Nós diários. Nós na mente.
    Pensamentos, pensa mente.
    Enozadamente. 

    Enozada mente. 
    Segunda-feira latente.

    Nós que travam dedos.
    Entre nós. 

    Se tenho segredos,
    os guardo entre nós.
    Porque se dali os solto,
    é pela minha pele
    que eles deslizam. 

    Entre cachos.
    Sobre nós.
    Sobre a chuva morna
    que bagunça
    esses fios cor de mel.
    Chuva sem céu. 

    Ah, esses nós!
    Que lavam mágoas
    e levam histórias árduas
    por entre águas
    que escorrem entre nós. 

    Banhe-se comigo
    e sinta os dentes do pente
    desatando os nós
    dos meus cabelos
    que bailam feito serpentes
    sem destino.
    Breve desatino. 

    Quantos nós
    unem essa dança? 

    Seriam feiticeiras
    minhas madeixas? 

    Quais dentes as soltam?
    Meu pente?
    Ou sua boca caliente
    mordiscando segredos
    debaixo do chuveiro? 


    by @DiaboliqViolet

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