Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

gato

  • [Poesia quebrada]

    [Poesia quebrada]

    A Poesia caiu da janela
    Poesia quebrada
    Uma vida inteira machucada
    Coração apertado
    Tão apertado que até para
    Foi um anjo que chorou por ela?
    Quando me debrucei e chorei na janela,
    Não imaginei que a poesia pudesse escorregar
    Nas minhas lágrimas de desespero
    Ah, como eu queria que a calçada
    Fosse feita de algodão
    Um anjo chorou na janela
    E todas as penas de suas asas caíram na calçada
    E a Poesia caiu da sacada
    Despedaçada
    Tão frágil
    Tão amada
    Tão bela
    Tão mansa
    Por que agora ela não dança?
    Por que seus olhos de criança bailam no ar?
    Porque a Poesia, na lembrança, pensou que podia voar
    Mas escorregou na janela e tentou flutuar
    Sim, eu fico muda
    Poesia esparramada em queda livre
    Sonhou ter as asas do anjo caído
    Que chorou na janela, distraído
    Fé em prantos
    Planta que perde encanto
    Nada do que a gente manda faz sentido
    Passa direto pelos ouvidos
    Quem diria
    Lágrima escorregada
    Tanta vida num único dia
    Tantos planos pra um voo plano
    Intervalo de uma dança surda
    Uma pernada curta
    Murcha
    Hoje é domingo, vem comigo
    Na segunda tudo muda


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Cão e gato]

    [Cão e gato]

    Eu construí o que eu queria que você fosse e me frustrei porque enxergo o que você realmente é. Não que isso seja de todo ruim, só que não é o que eu quero pra mim.

    E se você insistir que não tem culpa, eu até vou entender, mas vou buscar desculpas pra divergir e te mostrar que sua gramática é pragmática e o que eu sentia era só um querer de brinquedo perfeito numa busca nada sistemática.

    É… na verdade eu sei que você não tem culpa. Porque quando a gente sonha o sonho alheio, a gente cede em devaneio e nem percebe que a alma padece. Então de repente eu não mais queria. E eu sabia que aquela sua ironia me diria que tudo o que existia acabaria um dia. Na periferia.

    Porque eu sou gata e você é cachorro. Quando eu acordo, eu me estico, me torço, ronrono… Eu aprendo rápido, eu desconfio, eu me recolho… E sua carência me tira a paciência porque gato conhece astrofísica e tem plano de contingência. Gato tem habilidade segura e cão… Ah, o cão é pura patetice, que amargura.

    Gato tem apelo intrigante e ensaio dissonante… Cão tem trotoar sem sintonia enquanto o gato é pura melodia. Cachorro mendiga e ainda faz festa. Gato vê tédio no paradigma que lhe resta porque crê num companheirismo distanciado. E cão quer grude, suor e babados.

    Palavras velhas ganham novos significados. Novas palavras são inventadas, sem significado algum… Palavras soltas num discurso etéreo pairam no mistério de lugar nenhum…
    Um passo dado pra frente é um espaço que fica pra trás… Foi uma nova segunda-feira que chegou e tudo mudou. Há um abismo semântico entre nós: você faz au. Eu digo miau. E nada mais.

    Você erra sem querer e fica sem perdão. Eu espaireço na contramão. Porque o entendimento foi em vão e a aliança de papel ficou na memória do mesmo jeito que essa história de cão e gato lado a lado.
    Mesmo que o cartão seja uma pétala que não murcha, o atropelo, o afobo, o engodo… tudo isso suga a energia do que poderia um dia ser magia. Latidos viram nostalgia. E miados seguem esmagados. Na padaria.

    É sempre no final que as histórias começam. Entre o agredir o agradar, melhor partir, pra não latir. E recomeçar um novo miar.


    by Tina Teresa

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  • [Gatos pardos]

    [Gatos pardos]

    Meia-noite.
    Os gatos pardos se esgueiram
    pelas esquinas catando frestas.
    E eu não me rendo. 

    Quem seria o grande culpado
    desse meu andar tremelicado?
    Penso que o meu destino
    seja querer sempre mais. 

    But, don’t panic!
    Traço rendas, sinto fome.
    Qual é o seu nome?
    Venha me contar o que fiz
    para merecer esse andar.
    E esse olhar.

    Ou melhor: esse seu observar de soslaio.
    Que me notifica mas me nega.
    Que me prega peças sem costurar. 
    A segunda-feira já vai começar.

    Os momentos efêmeros que te roubei
    justificam seus pulos inseguros
    do chão ao muro?
    Fico (mais) tonta.
    Gatos não são inseguros. 

    Estou pronta.
    Sua cauda escaldada
    me deixa desaTINAda.
    Deslavada. Destravada.
    Enquanto travo rimas de ninar. 

    Melhor abstrair sem sondar.
    E existir sem pensar.
    Agora tanto faz.
    Afinal, como ensina o poeta Chacal:
    é proibido pisar na grama;
    o jeito é deitar e rolar. 

    Anything is better than nothing.
    E sempre pode piorar.

     –
    by @DiaboliqViolet

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