Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

infância

  • [Pulo]

    [Pulo]

    Cuidado onde pisa, menina
    Prudência verbal é essencial
    Cuidado com a esquina…

    Um abraço de sossego
    Cultiva o silêncio
    Entre o se esconder e o se achar

    Um pulo de desapego
    Do alto da ponte pênsil
    Se eu correr, você vem me encontrar?

    Mais um ano de vida, menina
    Mais uma segunda-feira pra conta
    Mais um pulo, mais uma afronta

    Cuidado onde atira, menina
    Segunda casa, segunda quadra
    Segunda-feira quadrada

    Da ponta do pé até a orelha
    Sem plano, sem telha
    Menina, você incendeia

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    work of @saket_streetart in Tehran, Iran

    **

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  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by Tina Teresa

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  • [Eu já…]

    [Eu já…]

    Eu engatinhei de costas,
    caí do balanço e soltei pipa,

    apanhei na bunda com pá de mexer fubá,
    corri e cansei um bocado,
    chamei professora de tia,
    menti para não apanhar 
    esperei a segunda-feira chegar
    e já fiz bico e birra. 

    Já caí do salto, já rasguei a meia
    e pisei no vestido,
    já meti a cara no vidro
    e me esborrachei na gangorra do parquinho,

    já me vesti de noiva, já morri de vergonha,
    já assoei nariz em fronha,

    perdi o rumo e enxerguei o fundo
    sem cerimônia. 

    E eu já decepcionei 
    e já me frustrei também.
    Já fiz pessoas sofrerem por minha causa,
    já sofri por outras pessoas,

    planejei me nivelar a alguém
    e percebi que estava apenas permitindo
    que continuassem a me magoar,
    em plena segunda-feira eu tava mentindo. 

    Já tive vontade de sumir,
    já estive no palco como uma atriz,

    já tomei porre, já fiz dieta e ginástica,
    já surtei geral,
    já chorei de tanto rir,
    e deixei a segunda-feira fluir
    já abracei pra proteger,
    mas também já ri
    quando não deveria
    e falei mais do que podia (ou devia). 

    Fiz amigos eternos
    que quase nunca vejo,

    mas nem por isso os desprezo,
    muito pelo contrário.

    Já amei e fui amada,
    todavia já fui também rejeitada,

    já fui amada e não amei
    segunda-feira sem lei 

    Já perdi amizades e as recuperei,
    já beijei por beijar,

    e também já virei noites
    ora na internet, ora nas baladas,

    já chorei sentada no chão do banheiro
    e
    já amanheci pensando
    em alguém que não valia nada
    segunda-feira extasiada. 

    Já passei noite em claro,
    Já passei o dia dormindo,
    escrevi
    poemas, contos e crônicas,
    tive amores platônicos.

    Já gritei e pulei de tanta felicidade,
    quebrei a
    cara muitas vezes
    esperei a segunda chance 
    e até já fingi que era verdade! 

    Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
    já liguei só para escutar uma voz,

    me apaixonei ora por um sorriso,
    ora por um olhar, sem pensar…

    Já acreditei que fosse morrer de tanta saudade
    e tive medo
    de perder alguém especial
    (e acabei perdendo)
    por pura falta de sanidade. 

    Mas também já festejei datas,
    retomei lutas, abandonei sonhos,

    vi o sol nascer na estrada
    com amigos de verdade.

    Já comi polenta com leite,
    já colei em prova de história,
     tirei dez em matemática
    e até ganhei gincana de análise sintática. 

    Já tomei banho de cachoeira e de rio,
    já vivi de amor,
    mas também
    já me decepcionei com um grande amor.

    Já disse “eu te amo” sinceramente,
    já me disseram
    “eu te amo”,
    mas eu não sei se era pra valer… 
    ou se era apenas entusiasmo
    segunda-feira repelente.

    Já fui promovida,
    já fui demitida sumariamente,

    já troquei de emprego,
    já inventei trabalho.

    Já mudei a rotina, joguei serpentina
    e comi banana com mel. 
    Pintei o cabelo de roxo, almocei miojo
    e fiz careta pro Papai Noel. 

    Já acreditei demais, já desconfiei demais,
    me dediquei de menos.

    Já me deslumbrei, já persisti num erro,
    já aprendi com vários erros,

    tomei sorvete no frio e sopa no calor,
    já inventei lendas,

    me escondi em tendas
    e já comi pão-de-ló com gosto de isopor. 

    …e você???

     


    by Tina Teresa

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