Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

intriga

  • [Intriga]

    [Intriga]

    É legal escrever teu nome no vento
    E rebolar entre o ir e o não ir
    É legal pensar em você de madrugada
    Sonhando acordada
    Com as paisagens que te prometi

    Só não é legal esperar
    A segunda-feira marcada
    Debruçada na sacada
    Com a camisola amassada
    Até você se decidir

    Quero compartilhar momentos
    E te trazer pra minha vida
    Mas você só fica se escondendo
    Revidando minhas investidas
    E dando mãos ou até beijos
    Só quando não tem ninguém vendo
    Será que você não tá nem aí?
    Tá esperando o circo cair?
    Ou será que tem vergonha de mim?

    Por que você não me convida
    Pra passear, viajar,
    Ficar de pernas pro ar?
    Por que você não me abriga
    Nos teus abraços descalços
    Divididos entre a terra e o mar
    Entre o trabalho e o sonho
    Entre o orvalho e nossos demônios?
    Por que você não me atira
    De cabeça, mesmo sem destreza
    Pra dentro da tua vida?
    Chega de me chamar só de amiga
    Já passou do tempo da gente se amar

    Toda a segunda-feira a mesma intriga
    Será que você vai me ligar?
    Quando será que vai chegar o dia
    Daquele frio na barriga
    Fazer a gente voar?
    O passado quer repousar
    O futuro bate na porta todo dia
    Você me fascina
    Mas sempre insiste em me deixar
    Sozinha na esquina
    Sem sina
    Esperando
    A segunda-feira acabar

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema: Art by Rita Renoir

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  • [Cão e gato]

    [Cão e gato]

    Eu construí o que eu queria que você fosse e me frustrei porque enxergo o que você realmente é. Não que isso seja de todo ruim, só que não é o que eu quero pra mim.

    E se você insistir que não tem culpa, eu até vou entender, mas vou buscar desculpas pra divergir e te mostrar que sua gramática é pragmática e o que eu sentia era só um querer de brinquedo perfeito numa busca nada sistemática.

    É… na verdade eu sei que você não tem culpa. Porque quando a gente sonha o sonho alheio, a gente cede em devaneio e nem percebe que a alma padece. Então de repente eu não mais queria. E eu sabia que aquela sua ironia me diria que tudo o que existia acabaria um dia. Na periferia.

    Porque eu sou gata e você é cachorro. Quando eu acordo, eu me estico, me torço, ronrono… Eu aprendo rápido, eu desconfio, eu me recolho… E sua carência me tira a paciência porque gato conhece astrofísica e tem plano de contingência. Gato tem habilidade segura e cão… Ah, o cão é pura patetice, que amargura.

    Gato tem apelo intrigante e ensaio dissonante… Cão tem trotoar sem sintonia enquanto o gato é pura melodia. Cachorro mendiga e ainda faz festa. Gato vê tédio no paradigma que lhe resta porque crê num companheirismo distanciado. E cão quer grude, suor e babados.

    Palavras velhas ganham novos significados. Novas palavras são inventadas, sem significado algum… Palavras soltas num discurso etéreo pairam no mistério de lugar nenhum…
    Um passo dado pra frente é um espaço que fica pra trás… Foi uma nova segunda-feira que chegou e tudo mudou. Há um abismo semântico entre nós: você faz au. Eu digo miau. E nada mais.

    Você erra sem querer e fica sem perdão. Eu espaireço na contramão. Porque o entendimento foi em vão e a aliança de papel ficou na memória do mesmo jeito que essa história de cão e gato lado a lado.
    Mesmo que o cartão seja uma pétala que não murcha, o atropelo, o afobo, o engodo… tudo isso suga a energia do que poderia um dia ser magia. Latidos viram nostalgia. E miados seguem esmagados. Na padaria.

    É sempre no final que as histórias começam. Entre o agredir o agradar, melhor partir, pra não latir. E recomeçar um novo miar.


    by Tina Teresa

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