Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

música

  • [Rock me]

    [Rock me]

    Pisei no rabo da gata
    E levei uma dentada
    Dedilhei sua guitarra
    De madrugada

    Rock me now, it’s Monday
    Prolongue o fim de semana
    Around the clock
    Come back to Sunday

    Encoste seus lábios no meu ouvido
    Mas não grite, nem sibile
    Suas sílabas amargas me enjoam
    Suas promessas povoam
    Minhas entranhas
    E eu duvido

    A trilha escolhida
    Despedida
    Rock me now
    Festival
    Desdobre-me em cifras
    En-cante-me
    Mas não cante
    Senão eu cedo
    Sua voz é meu placebo
    Entre o bem e o mal

    Foi tão cedo
    Foi tão lento
    E intenso
    Na velocidade do pensamento
    Que tormento
    Música muda
    Tudo muda
    Quando a noite surta

    E por mais que eu sonhe
    What did rock me there
    Will never rock me again
    Tudo o que foi dito
    Foi apenas uma música surda
    Que entrou por um ouvido
    E saiu por uma curva torta
    E eu duvido
    De cada estribilho
    Do brilho do meu brinco
    Que caiu mal criado
    Criado mudo, suor lavado
    Rock me then
    Again and again
    Segunda-feira, vem!
    Mesmo que eu peça
    Outra semana começa
    E não há nada que impeça
    Refrão mordido
    É, eu duvido


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Música Miúda]

    [Música Miúda]

    Tudo o que a gente precisa
    Cabe no tempo de uma música
    To miúda
    To moída

    De pernas pra cima
    De cabeça úmida
    Encolhida
    Numa canção única

    Entro em mim
    E planto
    Em prantos
    Um jardim

    Foram tantos
    Vinte e tantos
    Que a Segunda
    É sem fim

    To moída
    To miúda
    Doida, doída
    To Neruda

    Nem te conto
    To desnuda
    To precisa
    To no ponto

    Tenho música
    Tenho teto
    Papo reto
    Fino trato

    Gato preto
    No concreto
    Tão discreto
    Tão quieto

    To miúda
    To moída
    Tenho música
    Na barriga

    Gato mia
    Freguesia
    Sou melodia
    Minha companhia

    Pois tudo o que eu queria
    Cabia numa cantiga
    Numa música perdida
    Engolida


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Banho de Chuva]

    [Banho de Chuva]

    Quase nem te reconheci
    Debaixo daquele guardachuva
    Quase
    Quase esqueci
    De todas as chuvas que brincamos juntos
    Quase
    I’m a mess I confess
    I’m a little bit stressed
    Chove uma música arredia
    Nessa rua vazia
    Passos insanos me perseguem
    E a cortina d’água silencia meu drama
    Enquanto na poça derrama a chama
    E tua voz me chama
    E inflama
    A angústia de uma tarde que clama

    Na chuva tua voz reclama
    Na chuva meus cabelos escondem
    Quase toda a trama
    Da Segunda-feira tardia

    Era tarde e era dia
    Tinha chuva e eu ardia
    Era quente a calçada
    Mas a água era fria
    Era quase e você não vinha
    Marquise na esquina não tinha
    Banho de chuva quase nua
    Nua de alma
    Na rua calma
    Sob o som da quase palma
    Da voz que abafa
    Era chuva ou era aplauso?
    Era música ou descaso?
    Era quase ou era um passo?
    Era você ou só o acaso?


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

    Photo by Tina Teresa

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  • [Marionete]

    [Marionete]

    Retalhos vividos, memórias tímidas

    Fale baixo, aqui no meu ouvido

    Embale minha poesia única

    Fale uma letra de música colorida 

    Cada cor que meu cérebro promete

    Traz dó, traz dor, traz pó

    Do pó ao poema, ao dilema

    À carta que você me escreve 

    Qualquer que seja o pranto

    Teu nome em minhas costas

    Assombra o entretanto

    Faz sombra, faz cócegas 

    E o peso de um amor cantado
    Espera uma última obra

    Um desenho torto, borrado

    Uma migalha sem tinta que sobra 

    Marionete nos teus braços

    Danço um passo

    Retalho no retrato

    Segunda-feira eu faço
    Um risco?
    Um traço?

    Será que arrisco um suspiro?

    Ou um morango

    Permito-lhe ser vampiro

    Sorvo-lhe o vinho e danço tango

     –
    by Tina Teresa

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  • [Prazo de validade]

    [Prazo de validade]

    Será que tudo tem prazo de validade? Se sim, será que é o grau de intensidade o que determina esse prazo? Don’t panic! A segunda-feira está quase no fim e a música que embala minha preguiça conversa comigo. Aliás, é comum músicas conversarem comigo.

    Ah, se essa e outras canções tivessem o poder de transformar comportamentos. E então daí as atitudes teriam prazos de validade. Teria valia? Quanto vale uma nota musical? Uma nota, certamente. E um adágio? Um pedágio?

    Outro dia me disseram que o sentido da vida depende da relação que estabelecemos com as pessoas. Enquanto cantamos sentimentos debaixo do chuveiro ou detrás do volante do carro, percebemos que cada relação depende da admiração que temos por essa ou por aquela pessoa.

    Talvez por isso as relações tenham prazos de validade. Será que só admiramos até onde a vista alcança? Se ‘ad mirar’ é ter próximo aos olhos, que dizer das canções que choram amores ou provocam sabores sem nada mostrar mas tudo revelar?

    As roupas que escolhi não vestir vão se amontoando do lado de fora do armário, criando um mundo à parte, solitário, que só eu vejo enquanto bocejo. Enquanto canto embalada e sinto sua presença velada disfarçada de lua cheia que invade minha sacada pedindo para ser admirada.

    Teria a luz que reflete a lua validade prorrogada já que o escuro toma conta quando fecho os olhos? Qual o futuro do infinito se o que percebo são defeitos sem efeito, sem reflexo, sem pó de pirilimpimpim? Cabe a lua no meu jardim? Ou prefere ela adormecer um sonho bonito?

    Cabe este canto no canto do seu encanto? Quanto tempo ainda tenho nesse tenso embalo intenso? Be yourself. E quem sabe eu te admire mesmo de olhos fechados. Mesmo que o prazo de validade expire. Mesmo que eu pire. E que aquele mundo à parte gire.


    by Tina Teresa

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  • [Sílabas tortas]

    [Sílabas tortas]

    Unhas descascadas,
    cutículas machucadas.
    Não, uma sílaba não é nada simples:
    pode levar do céu ao inferno.
    Ou o inverso. 

    Nem toda revolta
    gera uma revolução.
    Mas uma evolução
    pode nascer de pouco menos
    de cinquenta tons
    de uma única frustração. 

    E sem nenhum verso pra contar história.
    Lembranças fazem cócegas,
    sorrisos são vírgulas
    que aguardam palavras. 

    Uma sílaba pode ser uma palavra inteira.
    Inteira, repleta, cheia…
    cheia de nada no meio do nada.
    No meio.
    Meio, metade, quase tudo, quase nada.
    Algodão. 

    É na segunda-feira que a semana começa?
    Qual a melhor música
    para inundar dias repletos de nada? 

    Qual mescla de letras transparece
    a melhor mescla de uma tentação? 

    Penso. Denso. Tenso. Imenso. Propenso.
    Cheiro da chuva de ontem de noite.
    Cheiro da grama recém cortada
    de ante-ontem.
    Cheiro de segunda-feira

    Músicas, muitas músicas, músicas sem fim.
    Sílabas em espiral. Tortas. Quase mortas. 

    Teriam as canções o poder de transformar
    meus comportamentos (e o dos outros)
    com a mesma eloquência e drama
    com que saem da minha boca? 

    Enquanto a boca canta,
    o estômago espreme as sílabas
    da sutil idiotice de existir. 

    Porque o porvir nada pede.
    Mas se algo está por vir,
    de que vale soletrar
    se a preguiça vai irritar
    a sílaba gritada,
    a sílaba quebrada? 

    O momento da decisão
    rasgou a unha num V. 

    Uma letra cravada no meio
    que atrapalha a minha pegada.
    Por quê? 

    O que virá? Quem viver, verá.
    Mais um verso.
    Reverso. Repenso. Convenço.
    Posso usar esse seu lenço? 

    Canto aqui no meu canto
    breves canções em contra-senso
    enquanto encanto,
    num pânico condescendente,
    mais uma segunda-feira sem silêncio.


    Tina Teresa

    • Artwork by Merna’s Artwork

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