Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

poem

  • [Chovia]

    [Chovia]

    a segunda amanheceu fria

    e o mundo parecia andar de lado

    sempre que chovia você não ia

    e eu aprendia a medir distâncias

    pelo som das goteiras

    escondendo os sonhos

    com um travesseiro mofado

     

    não tem desculpas, já não chove mais

    o céu abriu, mas deixou marcas no chão,

    no teto, no reto, no torto, no absorto,

    no meu choro abafado

     

    hoje entendo a tristeza que a segunda-feira traz:

    ela carrega o eco do que faltou,

    e a coragem tímida de seguir, apesar

    _

     

    📸 @fluzbrenda

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  • [Passo a passo]

    [Passo a passo]

    Os pés presos
    Em ponta
    Paralisados
    Para o próximo passo 

    Os pés lesos
    Calcados
    Descalços
    Disfarçando o cansaço 

    Os pés relapsos
    Desalmados
    Pesados
    Segunda-feira eu passo 

    Perdidos no espaço
    Buscando laços
    Escassos
    Passo a passo

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: artwork by Justin Michael Zielke.  

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  • [Véspera mortal]

    [Véspera mortal]

    Todo salto é mortal
    Se a segunda-feira for imortal
    Se a ladeira for imoral
    Se o compasso for fatal
    Num passo a passo surreal 

    Todo vasto é sepulcral
    Se o asfalto for nefasto
    Enquanto a segunda-feira se afasta
    De um passado ornamental
    E se aproxima do Natal 

    Toda desforra é sem sal
    Se o alvo não for salvo
    Da segunda-feira letal 

    Todo dia vira nostalgia
    Quando a penúltima segunda-feira do ano
    Cai justamente na véspera de Natal

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    artwork by @nicolerifkin in @theartidote.  

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  • [Gritos aflitos]

    [Gritos aflitos]

    Não aguento os teus gritos
    Ecoando até o infinito
    Do fundo dos meus ouvidos 

    E me ensurdecendo
    Até o fim dos tempos
    De quando eu me lembro 

    Não suporto
    O ódio nos teus olhos
    Fuzilando o paradoxo 

    Não consigo
    Ser livre ou brisa
    Enquanto tua voz me briga
    Me trucida
    Me invalida 

    Não é a segunda-feira
    Nem a ribanceira
    Que se abre na tua frente
    Ou as pessoas
    Que te desafiam incansavelmente 

    É o conflito que te orbita
    Enquanto você mastiga
    Palavras abafadas
    Num submundo submerso
    Repleto de desafetos
    Que você persegue
    Desenfreadamente
    Estupidamente
    Egoisticamente
    Incessantemente
    A procura de dor
    Pra afogar o desamor
    Que você sente 

    É a fadiga
    Que mora no teu ventre 

    É a vida
    Que te surpreende
    Sempre de repente
    Insistentemente
    Enquanto você mente
    Pra si mesmo
    Se escondendo
    Atrás dos gritos aflitos
    Perdidos no abismo
    Do teu próprio labirinto

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: Silentium /2018 /retake by

    Adam Martinakis

    with Foteini Ploumpi.  

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  • [40 outonos]

    [40 outonos]

    Minha definição
    De inferno astral
    Acabou de alcançar 
    Um novo patamar 

    40 outonos 
    Sobre meus ombros 
    Segunda-feira
    Não tenho dono 

    Chegou a hora
    De construir meu próprio trono 
    Chegou a hora 
    De arregaçar o quimono 
    E esquecer o sono 
    Chegou a hora
    De alongar as costas 
    Recolher a mesa posta 
    E me libertar 

    Depois de 40 outonos
    Me sinto livre para me livrar 
    Das falsas crenças 
    De um fracasso crasso 
    De um falso passo fraco 
    De um franco flanco escasso 

    40 outonos 
    Sobre meus ombros 
    Cada vez mais eu me apaixono 
    Pelas segundas-feiras faceiras 
    Que nunca me abandonam 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    Anna Kincaide’s piece ‘Have You Got Somewhere Better to Be’.  

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  • [Eco]

    [Eco]

    Você se
    perde no meu eco
    Segunda-feira em aberto 
    No
    segundo em que desperto 
    Profundo
    e sem nexo 
    No
    profano do meu sexo  

    Cada vez
    mais perto 
    É só o
    que peço 

    Segunda-feira eu fecho 
    Meu
    abraço convexo 
    No teu
    ponto cego

    Segunda-feira eu descarrego 
    Meu
    pranto intrépido 
    No seu
    colo 
    Enquanto
    te devoro 
    E te
    demoro 
    No meu
    eco rarefeito 
    No meu
    léxico imperfeito 
    Teu
    mérito 
    Meu
    leito  

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet

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    ilustração deste poema: “Labyrinth”, 30×30 Oil on canvas underwater painting from the

    the extremely talented Mark Heine art “Siren” series.  

    **

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  • [De repente]

    [De repente]

    De
    repente 
    Tive uma
    ideia saliente 
    Foi o ano
    novo
    Que
    chegou supostamente  

    De
    repente
    A segunda-feira
    se fez presente 
    Toda
    contundente
    No meu
    beijo independente  

    E então
    de repente 
    Prometi
    amar incondicionalmente 
    E
    viver paulatinamente 
    Prometi
    agradecer veementemente 
    E ouvir
    cada repente  

    Segunda-feira a gente sente
    Que o
    réveillon é convalescente 
    E que
    assim do nada, de repente
    Já é ano
    novo novamente 
    E já é
    hora de cumprir promessas 
    E digerir
    todas as pressas 
    Todas as
    arestas 
    Todas as
    festas  

    Se a segunda-feira
    é eloquente 
    Quero
    padecer paulatinamente 
    No teu
    colo confidente 
    Quero
    descobrir teu ascendente 
    E deitar
    paradoxalmente 
    No teu
    leito entorpecente  

    Tudo
    assim, simplesmente de repente…

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet

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    ilustração deste poema: photographer Elspeth Diederix captures everyday objects and moments in a surreal light.

    **

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  • [Sintonia]

    [Sintonia]

    Você
    trouxe uma sintonia 
    No meio
    da noite 
    No meio
    do dia
    Uma
    sintonia fina 
    Disfarçada
    de rotina  

    Você
    trouxe uma ironia 
    Pra minha
    segunda-feira vazia 
    Sem cerimônia 
    Sem
    nostalgia 
    Somente
    com um bom-dia  

    Se foi
    desejo ou simpatia 
    Destino
    ou sincronia 
    Acaso ou
    analogia 
    Agora
    minha segunda-feira fria 
    Carrega a
    sua sina 
    Na rima
    dos meus dias  

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet 

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    ilustração deste poema:

    Hong Kong NAP’s URI LED Light Bulbs.

    **

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  • [Incompletude]

    [Incompletude]

    De
    repente a gente lembra
    De tantas
    lendas 
    Tantos
    momentos 
    Perdidos
    no tempo 

    De
    repente faz sentido 
    Mudar o
    destino contigo 
    Repetir
    histórias 
    Pra criar
    outras memórias 

    De
    repente a segunda-feira 
    Chega de
    bobeira 
    Trazendo
    um pouco de frio 
    Pra gente
    fugir do vazio 

    De
    repente eu quero 
    Apenas um
    sonho sincero 
    Trançando
    nossas pernas 
    Debaixo
    das cobertas 

    Simplesmente
    de repente 
    A gente
    se conhece desde sempre 
    E a segunda-feira
    é um presente 
    Perdida
    Num tempo
    displicente 
    Que
    abriga 
    Esse frio
    na barriga
    Por vezes
    áspero
    Impávido  
    Por vezes
    apenas inocente 
    Numa
    incompletude independente

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet

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    ilustração deste poema: This was as far as

    glenn_arthur_art

    got during his live painting at @moderneden

    **

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  • [Ainda lembro]

    [Ainda lembro]

    ainda lembro como se fosse ontem
    música alta, perfume surrado, quase de porre
    ainda lembro cada gargalhada
    come se fôssemos nobres

    lembro de cada palavra trocada
    que trocávamos e tentávamos nos entender
    e de cada passo trançado que trançávamos,
    tentando nos dissolver…

    ainda lembro da gente
    no meio de tanta gente estridente
    lembro como se fosse presente
    lembro de você ser meu presente

    um presente que ganhei
    do universo latente
    um presente sorridente
    que me fez adolescente

    lembro do teu abraço frágil
    e do teu sotaque mágico
    véspera de feriado
    minha mente perdida no espaço
    ou na falta de espaço que havia
    entre o nosso beijo e a nostalgia
    entre a minha promessa e tua despedida
    entre as mentiras frívolas
    e as verdades tardias  
    lembro da noite e do outro dia

    ainda lembro do que não fizemos
    e do que não dissemos
    ainda lembro do porão escuro
    onde guardei meu orgulho
    e deixei o mundo todo me engolir
    de corpo e alma eu mergulho
    na ternura do teu abraço
    na segunda-feira eu disfarço
    e a cada dia mais eu te trago
    pro meu refúgio de amores raros

    já tentei fugir, mas agora eu encaro
    todo transe, todo medo, todo desapego
    toda dúvida, toda dívida, toda vertigem perdida
    eu encaro toda distância adormecida

    ainda lembro como se fosse ontem
    tão leve, tão entregue
    você apareceu como se fosse hoje
    e me amou como se fosse sempre 

    nunca me senti tão protegida
    nunca pensei que fosse só encanto
    nunca pedi que você fosse tudo
    nunca achei que tudo fosse vida

    ainda lembro como se fosse ontem
    comecei a te amar quando te vi
    quando o tempo parou, adormeci
    e no meu sonho eu te sigo
    e te sinto, tão lindo, num lampejo    
    será que você vai me encontrar
    pode vir, não tenha medo
    será que você vai me achar
    aqui pra onde eu vim?


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    Another ballon girl ❤️🎈 Ink and watercolour art by @mister_everybody

    **

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  • [Sonho de Consumo]

    [Sonho de Consumo]

    by Rafael Ogeda

    Inovação, bens, tecnologia
    A matéria me atrai, me ilude
    Desejos incontidos, letargia
    Buscas vazias ou plenitude?

    Quero o que vejo
    Segunda-feira: novos desejos
    Pelejo, rastejo
    Satisfações imediatas, lampejos

    Sonho de consumo mesmo
    É encontrar um verdadeiro amigo
    Dos encontros não combinados, a esmo
    Intenso ou tranquilo, eu não ligo

    Que tenha minhas mesmas loucuras
    Amizade pueril, abraço desequilibrado
    Confiante, confidente, amante de aventuras
    E que possa aparecer sem ser convidado


    Ainda bem que a única constante que existe é a mudança. Para escrever meus poemas sobre os conflitos das segundas-feiras, busco inspirações em histórias de diversas vidas: da minha, de personages de filmes, de amigos, de amores, de atores desse palco incrível que é o cotidiano. E dessa mescla, surgem ainda mais histórias. Nesse cipoal, o poema desta semana não foi escrito por mim, mas poderia ter sido – e digo isso sem ressalvas, tamanha sintonia com a proposta deste blog. Então nesta #panicmonday eu mudei: cedi a autoria do post, pela primeira vez. Porquê de constante nada nos resta. Be Panic. Be yourself. Change. 

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    ilustração deste poema:

    animated soda cans that pop with personality

    illustrated by Lucas Wakamatsu, a designer from brazil who created four ‘sensations’ to subtly indicate the different flavors of the soda inside. Drawn on one, a figure jumps through a multicolored wormhole that leads to an unknown abyss; another sees a hybrid-human surrounded by pink and purple polka dots; a third sees a female figure clouded in a fog of colorful and abstract shapes; and a final male illustration is encircled in planetary-like rings and enveloped by ameba-esque geometries. ‘The colorful forms in each one represent the beverage, pulsing in different vibes, being shaped by different frequencies,’ he describes. A series of animated gifs give life to the static imagery, adding an alternate and dynamic dimension to traditional packaging design projects. 

    **

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  • [Many]

    [Many]

    Many lives
    Many times
    Many bytes I sent to you

    Many tries
    Many lies
    Many flies I spent with you

    Many dimes
    Many rhymes
    Sometimes I wanna find
    Why the distance in your eyes
    Brought an ocean to my life

    Many dives
    Many crimes
    Many spaces to confine

    It’s monday, you are mine

    I am fine 

    – 

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    Escultura Many by  Eleonora Hoshino.

    **

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