Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

poema

  • [Contentamento descontente]

    [Contentamento descontente]

    Contentamento descontente

    Cheiro de lua, cama nua

    Segunda-feira, pasta de dente 
    Serpente no canto da rua 

    Cabe mais um?

    Tempo quente, sorridente
    Talvez um gole de rum

    Aguardente, momento eloquente

    Filme, almofada, vigília estrelada
    Chove chuva transparente
    Tv, sofá, perna atravessada
    Incerteza dentro da gente 

    Doce tempero, café da manhã

    Calor decadente, frio caliente
    Da umidade, uma gota de maçã

    Enxergo sem ver o que paira na frente 

    Fatia no prato, vento no asfalto
    Velocidade apática, caminho lentamente
    Mais um pedaço de doce e fico no anonimato 
    Aqueça-me friamente 

    Só mais um beijo, um pão de queijo 
    Enquanto a textura esfola intimamente 
    Se temperatura fosse desejo 
    Amaríamos eternamente 

     –

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Dezembro]

    [Dezembro]

    Dezembro. A sexta-feira do ano

    Um mês em combustão lenta que não termina: incandesce

    Mesmo por debaixo dos panos

    É quando as promessas ficam com cheiro de papel novo

    E as pendências querem estacionar no calendário antigo

    De novo?

    Dezembro é festa e balanço

    É febre de fechamento

    ,é luz piscando antes do corte,

    é a pressa tentando parecer descanso

    Tudo quer acabar,

    mas nada aceita sair ileso

    Entre o que foi dito

    e o que ficou atravessado,

    o mês arde

    E a gente também

    Dezembro passa

    Deixa marcas

    E uma lucidez curiosa:

    o ano muda,

    mas a segunda-feira sempre reaprende a chegar

    Na próxima semana tem mais uma

    Você vai fugir ou vai ficar?

    _

    Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    artwork by David Bowers.   

    **

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  • [Sob a tela da janela]

    [Sob a tela da janela]

    Sob a tela da janela

    A viagem segue lenta

    A paisagem acalenta

    O céu esquenta o coração

     

    O tempo dobra os quilômetros

    Costura nuvens e estradas

    Cada olhar encontra pouso

    Cada pausa vira mirada

     

    Na imensidão

     

    Sob a tela eu ensaio

    Um passo enfadonho

    Talvez um sonho

    Um recomeço, um pouco

     

    De uma sina

    Nunca antes aceita

    Nem seguida

    Nem na segunda-feira esquecida

     

    Feito pegada suja no chão

     

    Sob a tela da janela

    Revejo meus nãos

    _

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  • [Passos roxos]

    [Passos roxos]

    segunda-feira

    é um território de partida

    onde o café ainda não sabe o próprio nome

    e a rua respira antes de acordar

     

    é o dia em que a semana prova o sapato

    e decide se caminha, se dança

    ou se inventa um jeito torto de seguir

     

    há quem tema as segundas

    eu as coleciono

    feito bilhetes deixados por versões minhas

    que ainda não descobriram o que vão ser

    mas já começaram a ser algo

     

    segunda é vento pelas bordas

    rearranjo do mapa

    ensaio de recomeço que não pede plateia

     

    porque recomeçar é um verbo cansado

    que fica lindo no papel

    então abrace o pânico

    trace um novo plano

    and be monday

    be yourself

    siga dançando no caos

    no seu ventre, no seu âmago

    como quem descobre, no meio da rotina,

    um caminho que só existe quando você pisa

    _

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  • [Tomara que caia]

    [Tomara que caia]

    Chegou hoje

    Meu vestido de poá

    Tomara que caia

    Tomara que saia

    Que vaia, que seja

    Tomara que derreta

    Pelas calçadas pálidas

    Da cidade nublada

    Pelos bueiros rarefeitos

    Pelas valas flácidas

    Pelas vagas vagas

    Das ruas ácidas

    Das segundas cálidas

    Das feiras plácidas

    Tomara

    _

    Photo: The Red Shoes by Rachel Domleo

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  • [Poderia]

    [Poderia]

    Eu não sabia que o Gessinger fez uma música sobre a segunda-feira

    Remete a um baião

    É gostosa, tem refrão

    Faz sentido

    Nos meus ouvidos

    No meu coração de poeta

    Que acredita

    Na segunda muda

    No domingo etéreo

    Nas contas que acumulam

    Nos fogos que fogem do horizonte

    Na luz que se apaga

    Pra nova semana que começa

    Pro sono que chega

    Antes da hora

    Pra conversa que não vinga

    Antes do sol raiar

    Você conhecia?

    Chama-se ‘a noite inteira’

    E fala das coisas que a gente poderia

    fazer, falar, sonhar, sorrir, dormir, trocar,

    conversar, desprender, pagar, brincar

    pecar, fluir, voar…

    Tem tanta coisa que a gente poderia

    se a gente não se prendesse

    na fobia da nostalgia

    na agonia da mordida

    da segunda-feira bandida

    _

     

    Artwork by Engenheiros do Hawaii

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  • [Previsão]

    [Previsão]

    Vinicius já previa…

    tudo morre, tudo esfria,

    mesmo o job, mesmo a parceria

    no fundo, todo mundo já sabia,

    que nada dura, só a nostalgia

    true story, pura melancolia

    mas se ardeu, foi alegria,

    se marcou, virou poesia

    foi inteiro, sem economia

    sem contrato, só química e energia

    não precisa eternidade,

    basta a sintonia

    não precisa a segunda-feira,

    basta a rebeldia

    _

     

    Artwork by mathiole

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  • [Sueli]

    [Sueli]

    Com você, tanto aprendi
    Minha pequena grande Sueli
    Aprendi que a vida é breve
    E repleta de histórias e lendas
    Que a gente inventa e cria e emenda
    E compartilha
    E canta
    E dança
    E desenha
    E faz oferenda
    Como se fosse um croqui

    Com você cresci
    Num imaginário etéreo
    Feito um poema eterno

    Por você decidi
    Caminhar pra frente
    Me surpreendendo com o mundo
    Da leitura, da escrita e do contudo
    Da segunda-feira ao absurdo  

    E entendi
    Que ensinar e aprender
    É muito mais do que querer
    Ou amar
    Ou poder
    Ou sorrir
    Ou repreender
    Ou chorar
    Ou dividir
    Ou somar
    Ou passar
    Ou pular
    Ou teorizar
    E escrever uma tese
    E comprovar que a vida é breve

    Porque o tempo para de repente
    E voa tão rápido que a gente nem vê

    E a beleza é breve
    A dor é breve
    A sua voz é leve
    E ecoa
    No coração da gente
    Que bate com febre
    Na porta do tempo
    Pedindo pra ele voltar
    Pra gente redesenhar
    Só mais um encontro
    Uma valsa
    Um fado
    Um ponto
    Um passeio tonto
    Um segredo que tenho
    Mas tenho medo agora…
    Quem sabe no céu eu te conto

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: acervo pessoal Sueli Anacleto, com efeito.  

    Amiga e mentora: voe em paz… ♥

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  • [Melodia]

    [Melodia]

    Teu
    sorriso me motiva 
    A
    respirar e a abraçar o mundo 
    Feito uma
    planta 
    Com
    raízes vivas 
    Buscando
    o fundo 
    E
    alcançando o céu 

    Teus
    olhos me guiam 
    Me
    inspiram 
    Me
    ensinam 
    Me dizem
    tudo 
    Sem falar
    nada 
    E
    traduzem os surtos 
    Dos
    imbecis 
    Que
    insistem 
    Em nos
    importunar 

    Teu
    abraço me protege 
    Das
    mazelas e das querelas 
    Do vento
    e da chuva forte 
    Dos anos
    e dos falhos planos 
    Da segunda-feira
    insana 
    E de toda
    a falta de sorte 

    Teu
    coração me abraça
    Todas as
    noites e todos os dias 
    Em todas
    as canções 
    E
    orações 
    Pois teu amor
    de mãe 
    Não tem
    preço nem estadia
    Ele
    apenas irradia 
    Feito
    melodia 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: fotografia de arquivo pessoal.  

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  • [Efêmero]

    [Efêmero]

    Feito o vento
    Voo com meus pensamentos
    Longe do centro
    Do meu coração sedento

    Feito um fiapo
    De flor que nasce
    E morre ao relento

    Feito mar
    Que vem e vai
    Pra cá e pra lá
    Fazendo corrente
    Serpente

    A segunda-feira passa
    E quantas vezes
    A gente nem sente

    – Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: ephemeral – Miura Gallery
    “the territory of the girl girls” at the exhibition “Spring
    whistle” by hirano hirano.  

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  • [Gritos]

    [Gritos]

    meus ouvidos doem
    enquanto suas palavras
    sem sentido
    moem meu choro
    meu umbigo
    seus gritos
    negritos
    desarmam meus mitos
    e espalham
    meus frangalhos
    pelo chão que você pisa
    e cospe
    e evita
    e grita
    de novo
    enquanto eu morro
    e esqueço
    que te amo
    enquanto peço
    que asegunda-feira leve embora
    tua saliva venenosa
    lasciva
    rancorosa
    doída
    que te leve embora
    daqui do peito
    do leito
    da minha cabeceira
    _

    Artwork by @anne_bengard_art

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  • [Peito aberto]

    [Peito aberto]

    Não quero mais pensar 
    No passado que nos mordeu 
    Por mais que ainda doam 
    As feridas que você nos deu 
    De graça 
    Sem graça 
    Como pontas de facas 
    Em nossos peitos abertos 

    Dizem que é preciso 
    Morrer um pouco para viver 
    E que mesmo escondidos 
    Nossos sorrisos 
    Hão de prevalecer 
    Na raça 
    Sem farsa 
    Com força e com garra 
    Buscando sentido 
    Em cada amanhecer 

    Porque a segunda-feira 
    Chega para todos 
    E a tua cadeia 
    Está guardada no sufoco 
    Das nossas gargantas 

    Porque o que é nosso 
    Volta ao nosso colo 
    Sejam sonhos roubados 
    Dados lançados 
    Ou caminhos sequestrados 

    Nosso peito continua aberto 
    Mas só entram os convidados 
    De alma pura 
    E horário marcado 
    Só entram os convidados 
    Sem culpa 
    Sem intenções duplas 
    Aperto de mão de verdade 
    E coração repleto de honestidade 

    A segunda-feira ensina 
    Que toda volta por cima 
    Começa de baixo 
    Pra ganhar impulso 
    Com sangue nos olhos 
    E força nos pulsos 

    A segunda-feira nos vira 
    De cabeça pra baixo 
    Pra mostrar que a sina 
    É a gente quem cria 
    Tropeçando em falso 
    Esbarrando em gente falsa 
    Ralando no asfalto 
    Entrando em fria 
    E saindo escaldado 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: “The Key Demon” by Jared Krichevsky.  

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