Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

poesia

  • [Mais um dia a menos]

    [Mais um dia a menos]

    Segunda-feira acordou vazia
    Sem presença, sem sentença
    Mas cheia de memórias
    Cheia de bom-dias

    Ontem foi um dia a mais
    Hoje é mais um dia a menos
    Quando menos é mais
    Um pouco mais nunca é de menos
    Um pouco de história nunca é demais
    E um futuro incerto nunca é de menos

    Será que passa o tempo mais rápido
    Se eu esquecer de acordar?
    Será que um lance de uma noite
    Vai nos levar a algum lugar?

    Só mais um pouco
    Soluço rouco
    Falta muito?
    É coisa de louco

    Sim, um pouco mais
    Um dia a mais, uma vida a mais
    Dia menos dia
    É pura fantasia

    Logo menos, nunca mais
    Logo, logo, muito mais
    Seremos nós daqui pra frente?
    Logo mais nunca é demais
    Deixa ser surpreendente
    Deixa ser muito mais

    Quanto mais dias a menos
    Mais dias pra muito mais
    Mais boas-noites pra novos dias
    Mais bom-dias pra outras noites a mais


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “Huger White” by Fernando Filho .

    **

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  • [Fragmentos]

    [Fragmentos]

    Pode o coração mudar de lugar?
    Depois do sol, depois da chuva,
    do primeiro olhar, do primeiro beijo… 
    Pode o coração mudar de lugar?
    Eu sei, não era pra divagar
    sobre apertos no peito,
    mas seu olhar cor de champagne
    todos os dias pela manhã
    todas às segundas… devagar
    segunda-feira a divagar
    você joga a pergunta no ar:
    pode o coração mudar de lugar? 

    Depois de um carinho altruísta,
    depois de uma rasteira egoísta,
    depois de o outono chegar… 

    Não me diga que é mentira,
    essa tua fala vazia
    esconde uma melodia. 

    E as asas prateadas
    camufladas no sótão
    daquela casa abandonada?
    Eu vi.
    Teu olhar arrefecido e vermelho
    Teu olhar seguiu meu rasante
    e tuas asas brilharam.
    E meu coração mudou de lugar. 
    Passou a bater descompassado, 
    queria fugir, virar faísca, 
    nunca mais vislumbrar. 

    Isso sim parece mentira.
    Mas se eu acredito no faz-de-conta,
    do not panic, it’s organic!
    Não chore, foi apenas um pesadelo. 

    Pode uma mesma casa
    reunir tantas entradas?
    Enquanto uma passagem serve de lar
    seu olhar cor de champagne
    no degrau da escada a descansar,
    outra paisagem esquece
    as correspondências no chão
    por dias
    e as folhas das revistas
    que alguém um dia assinou
    entortam-se e colecionam serenos. 

    Não me destile teu veneno
    porque eu passei e você não me seguiu.
    Nem meu cheiro você sentiu. 

    Mas a faísca…
    Ah, a faísca você viu.
    Só que você não vai me encontrar…

    Porque meu coração mudou de lugar.
    Ele está onde você menos imagina,
    não o procure na esquina
    dos meus sonhos…
    Lá, sabe o que você pode achar?

    Fragmentos de paisagem.

    Liberdade.

    Decolagem.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: foto de arquivo pessoal.

    **

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  • [catavento]

    [catavento]

    _

    Cata
    Só por um momento
    Penso
    Em quase nada
    Enquanto cato tempo
    E ganho tempo
    Pra uma nova segunda-feira
    Que me cata
    E descarta
    Tampa o tempo
    Tanto tempo
    Vem por tanto
    Vento tanto
    Tento tanto
    Por tanto tempo

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Memórias]

    [Memórias]

    Tropecei na escada rolante das minhas memórias

    Era um trânsito de vontades que se esbarravam

    E não respeitavam o ir e vir das discórdias

    Diálogos de quereres em dias de glória
     
    Luta de antagonias que nos apoia em prosa

    E nos diverge em versos 

    Ventania passageira, ilusão rebordosa

    Tonteria em estágios diversos

    Era o mesmo filme passando

    A mesma cena entrando em colapso

    O mesmo tempo perdido que voltava chorando

    Memória em compasso 

    Filme de vida,
    lembrança tardia,
    desci o degrau em lapso 

    Transe transitório,
    tontos passos 
    segunda-feira ardida

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Caos]

    [Caos]

    Se tua ordem

    Me chama

    É porque o caos

    Me derrama

    Em prantos

    Em cantos

    Enquanto

    Um universo inteiro

    Ganha morada

    Segunda-feira guardada

    Em meu canteiro

    De obras

    De sobras

    Desordem

    Estrelas explodem

    Decifra-me

    E me convida

    Pra ser sua rua

    Sua pele nua

    Sua namorada 

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Contentamento descontente]

    [Contentamento descontente]

    Contentamento descontente

    Cheiro de lua, cama nua

    Segunda-feira, pasta de dente 
    Serpente no canto da rua 

    Cabe mais um?

    Tempo quente, sorridente
    Talvez um gole de rum

    Aguardente, momento eloquente

    Filme, almofada, vigília estrelada
    Chove chuva transparente
    Tv, sofá, perna atravessada
    Incerteza dentro da gente 

    Doce tempero, café da manhã

    Calor decadente, frio caliente
    Da umidade, uma gota de maçã

    Enxergo sem ver o que paira na frente 

    Fatia no prato, vento no asfalto
    Velocidade apática, caminho lentamente
    Mais um pedaço de doce e fico no anonimato 
    Aqueça-me friamente 

    Só mais um beijo, um pão de queijo 
    Enquanto a textura esfola intimamente 
    Se temperatura fosse desejo 
    Amaríamos eternamente 

     –

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Dezembro]

    [Dezembro]

    Dezembro. A sexta-feira do ano

    Um mês em combustão lenta que não termina: incandesce

    Mesmo por debaixo dos panos

    É quando as promessas ficam com cheiro de papel novo

    E as pendências querem estacionar no calendário antigo

    De novo?

    Dezembro é festa e balanço

    É febre de fechamento

    ,é luz piscando antes do corte,

    é a pressa tentando parecer descanso

    Tudo quer acabar,

    mas nada aceita sair ileso

    Entre o que foi dito

    e o que ficou atravessado,

    o mês arde

    E a gente também

    Dezembro passa

    Deixa marcas

    E uma lucidez curiosa:

    o ano muda,

    mas a segunda-feira sempre reaprende a chegar

    Na próxima semana tem mais uma

    Você vai fugir ou vai ficar?

    _

    Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    artwork by David Bowers.   

    **

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  • [Sob a tela da janela]

    [Sob a tela da janela]

    Sob a tela da janela

    A viagem segue lenta

    A paisagem acalenta

    O céu esquenta o coração

     

    O tempo dobra os quilômetros

    Costura nuvens e estradas

    Cada olhar encontra pouso

    Cada pausa vira mirada

     

    Na imensidão

     

    Sob a tela eu ensaio

    Um passo enfadonho

    Talvez um sonho

    Um recomeço, um pouco

     

    De uma sina

    Nunca antes aceita

    Nem seguida

    Nem na segunda-feira esquecida

     

    Feito pegada suja no chão

     

    Sob a tela da janela

    Revejo meus nãos

    _

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  • [Passos roxos]

    [Passos roxos]

    segunda-feira

    é um território de partida

    onde o café ainda não sabe o próprio nome

    e a rua respira antes de acordar

     

    é o dia em que a semana prova o sapato

    e decide se caminha, se dança

    ou se inventa um jeito torto de seguir

     

    há quem tema as segundas

    eu as coleciono

    feito bilhetes deixados por versões minhas

    que ainda não descobriram o que vão ser

    mas já começaram a ser algo

     

    segunda é vento pelas bordas

    rearranjo do mapa

    ensaio de recomeço que não pede plateia

     

    porque recomeçar é um verbo cansado

    que fica lindo no papel

    então abrace o pânico

    trace um novo plano

    and be monday

    be yourself

    siga dançando no caos

    no seu ventre, no seu âmago

    como quem descobre, no meio da rotina,

    um caminho que só existe quando você pisa

    _

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  • [Tomara que caia]

    [Tomara que caia]

    Chegou hoje

    Meu vestido de poá

    Tomara que caia

    Tomara que saia

    Que vaia, que seja

    Tomara que derreta

    Pelas calçadas pálidas

    Da cidade nublada

    Pelos bueiros rarefeitos

    Pelas valas flácidas

    Pelas vagas vagas

    Das ruas ácidas

    Das segundas cálidas

    Das feiras plácidas

    Tomara

    _

    Photo: The Red Shoes by Rachel Domleo

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  • [Dança]

    [Dança]

    Cada vez que você dança

    eu também danço,

    mas quando você tropeça

    sou eu quem cai

    Cada raio de sol que te alcança

    me atravessa,

    e a sombra que sobra

    se enrosca em mim

    Ora na beira você se demora

    Que fazer com a escuridão que sobra?

    No espelho não me reconheço

    Seria um fim

    ou um novo começo?

    Talvez na próxima segunda-feira

    eu tenha certeza

    mesmo que a dúvida me espere na soleira

    da beira

    do mar

    da areia

    da ceia

    do espaço de ninar

    ___

    Artwork by @marcosalvarado La Danza De La Esperanza (Blue Roof), 2025, Acrylic on canvas

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