Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

saudade

  • [Até agora]

    [Até agora]

    Desde que você partiu o céu não para de chorar
    Da última vez que você sorriu pra mim até agora o tempo passou a passar devagar
    E eu passei a pacificar o passo pra não descompassar

    Tua ausência é meu tormento
    Ao mesmo tempo, tenho tempo pra sonhar quietinha
    Tenho tempo pra contar os passos sem pressa, na minha

    Enquanto o céu chora
    Enquanto o sonho se demora
    Sepia-toned, sem memória
    Cor de café, cor de história
    E a segunda-feira chega sem ter hora
    No meio do dia, agora

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    @coffeetopia – also know as Ghidaq al-Nizar – began as a latte artist, but has taken his craft to another level by deconstructing frothy brews and utilizing their most basic component – coffee – his medium of choice. Al-Nizar takes the steamy, soothing drink out of the cup and artistically applies it to an equally unconventional canvas – leaves and other odd objects. The result is a series of sepia-toned scenes featuring a beautiful blend of nature and the pigmented, earthy, grainy remnants of a cup of coffee.

    **

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  • [Inércia]

    [Inércia]

    Vamos parar o tempo
    No template do meu prato
    No tempero do teu vento
    No pedaço do nosso cansaço

    Vamos parar o tempo
    Na cadência do compasso
    Na ternura do momento
    No aconchego de um abraço

    Vamos parar o tempo
    Na batida do teu ato
    No frame do meu jeito
    No sorriso de um pensamento

    Vamos parar o tempo
    Na neblina da estrada
    Na pressa do efêmero
    Num sincero lamento

    Vamos parar o tempo
    Na aspereza de um beijo lento
    No mergulho de um fundo raro
    No suor de um passatempo

    Vamos parar o tempo
    Na maciez do amanhecer na praia
    Na palidez do outono pleno
    Na escassez da saudade

    Vamos parar o tempo
    Porque a vida pede um tempo
    Porque o tempo pede um tempo
    Porque esse é o nosso momento

    Vamos parar o tempo

    Na poesia das coisas todas

    No tic-tac das bodas

    Na inércia dessa segunda-feira tonta

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Ao redor]

    [Ao redor]

    Sigo petiscando saudade
    Ao final de cada estação
    Na vibe entre o sim e o não

    Se o instante feliz vira desejo
    Choro diante do espelho
    (Ao redor) do meu sossego

    Lembro do timing que nos aproxima
    Tento enxergar a saudade na colina
    São seus braços misturados à neblina?

    O que temos em comum
    é o que nos diferencia
    (Ao redor) da luz do mesmo dia

    Deixo que as lágrimas levem
    Todo o traço, todo o cheiro
    Cicatriz de apego derradeiro

    Tão longe, tão perto
    Desalinha o meu deserto
    (Ao redor) do meu avesso

    Do outro lado da linha,
    a mesma lua, o mesmo teto
    O mesmo tempo incerto

    A nossa valsa, o nosso samba
    Na corda bamba a gente dança
    (Ao redor) da volta-e-meia da ciranda

    Cedo demais ou depois de horas?
    Andar pra trás te traz de volta?
    Atrás da porta eu guardo a bossa

    Essa demora faz bagunça
    Lambuza as noites, esfria os dias
    (Ao redor) das asas da alegria

    Cozinho o sono num banho morno
    Afogo a fome numa nuvem de espuma
    Atraso o sonho no edredom de outono

    Haja fôlego pra essa espera instável
    Até a segunda-feira pula a cerca
    (Ao redor) da mesma dúvida inefável

    Então a ressaca da resposta azeda,
    abandona na esquina da lembrança
    a vontade esmagada feito folha seca

    Quero cores, amores e beijos sem fim
    Vê se não esquece de ligar pra mim
    (Ao redor) do aroma do meu chá de jasmim

    Senão a saudade vira aperitivo, vira estopim
    Porque você escolheu meu jardim
    pra plantar suas flores de cetim

    Eternal sunshine, confunde a mente
    Difunde o brilho do sol ao ventre
    (Ao redor) da vida, bem na sua frente

    Onde será que guardei a memória
    Do nosso passo colorido na calçada
    Foi nessa spotless mind iluminada?

    Por isso deixo o dia à luz da noite
    Hipnotizo a liberdade absorta
    (Ao redor) de cada pétala solta

    Sobrevivo, sobrevoo, sinto, pouso
    Deixo todo meu destino envolto
    Pelo brilho do sorriso no seu rosto

    A mesma lua, o mesmo teto
    Petisco saudade até acabar o inverno
    (Ao redor) da lembrança deste brilho eterno


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Photo by @leodorio_

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  • [Não sei fazer conta]

    [Não sei fazer conta]

    Carrossel dividido
    Chuva de setes
    Quanto custa
    um olhar arrependido?

    Meu cálculo se repete
    Por que você foi embora?
    Na matemática do seu retorno
    É onde eu conto as horas

    Conto, conto e o tempo não passa
    Ou será que o tempo para
    Segunda-feira fica pronto
    Segunda-feira me dispara 

    Conto, conto e faço de conta
    Que eu não sei fazer conta
    Só pra ver se você volta
    Enquanto o vento se demora


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte de Sônia Menna Barreto chamada Enxuta e feita em glicée, palavra francesa usada nos EUA para nomear o processo de microjato de tinta, a uma determinada pressão, usado na impressão desta nova geração de gravuras. É feita na máquina “Giclée Printer”, que jateia aproximadamente 4 milhões de microscópicos pingos de tinta por segundo, em papel (100% algodão, 220 g) ou tela. Podem ser usadas até 16 milhões de cores numa só giclée.
    *

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  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by Tina Teresa

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  • [White tulip]

    [White tulip]

    Cada segunda-feira que chega
    é um novo começo.
    Um reset de tempo,
    uma tulipa branca.
    Um universo paralelo
    repleto de possibilidades.
    Uma página nova
    para sonhar,
    planejar,
    pestanejar,
    relembrar
    que uma história
    só tem dono
    quando é carimbada
    no coração.
    Panela de pressão.
    Coisas que vêm e vão.
    Coisas que aparecem
    de onde eu chego
    e nem por isso
    o dia amanhece mais cedo.
    Morcego.
    Pé gelado no verão.
    Vigilância solitária
    de um tempo
    que não foi meu.
    Pra que esforço
    ou alvoroço
    se o que sobra
    é apenas sobra.
    Manobra.
    Saudade que nem dói,
    mas corrói.
    Saudade de um novo dia
    que não tarda,
    que não chega,
    que não falha,
    que não pensa,
    que não nega
    nem tolera
    essa cega
    parcela de nós.

    by Tina Teresa

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  • [Ferida, família ou saudade?]

    [Ferida, família ou saudade?]

    _

    Não sei se é fome ou é saudade
    Se é desapego ou liberdade
    Toda essa vontade
    de correr, pular e sorrir sem qualquer dificuldade

    Dezembro chegou e me pegou acordada
    Meia-noite virou e eu ali, toda atravessada
    Trovando verbos, trocando versos, trotando passos dispersos
    Amassando a almofada sem dó nem piedade

    Cheguei chegando
    Com os olhos brilhando
    Sem sono, sem dor, sem ninguém me esperando
    E com todo mundo se abraçando

    Tão bom esse cheiro de aconchego
    De tanto tempo, tanta vida, tanto desespero
    Tanta cor, tanto amor, tanta história sem memória
    Que alimenta esse bocejo de vitória

    Outro momento assim não se repete
    Talvez no céu ou num gole de grapette
    A lembrança de um fim de tarde
    Volte forte mas sem alarde e com gosto de sorvete

    Ferida que arde feito corte de papel
    Não sai sangue nem aparece na pele
    Só faz lembrar que eu também estive lá
    Naquele carrossel de gerações, de ciclos, de pequenas bombonières

    Família é tudo isso e nada disso
    Mistura de arte com feitiço
    Cada uma com sua parte e não se fala mais nisso
    Coceira de bem querer, vem, vamos comer

    Segunda-feira, quem diria, nem te vi
    Mundo sem fundo, caiu uma fagulha aqui
    Se era Verão ou Outono, não tenho dono
    Se foi só mais um sonho, não quero mais dormir

    _

    by Tina Teresa

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