Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

solidão

  • [Assunto inacabado]

    [Assunto inacabado]

    Agradeço o carinho
    e o aperto de mansinho
    na minha orelha
    com teus dedos leves
    deslizando…
    entre a segunda-feira
    e a nuvem passageira

    Agradeço as flores
    sem pudores
    e os beijos no escuro
    aromatizados
    com chocolate amargo
    segunda-feira eu prometo
    te viro do avesso

    Vem jantar comigo, eu pago
    e depois apago
    todos os recados roubados
    da tua prosa cor-de-rosa
    grafada no muro
    do nosso assunto inacabado
    segunda-feira eu furo
    tua agenda lotada
    com minha agonia suada
    te quero puro
    coração batendo seco
    peito fundo
    abraço inteiro
    quanto tempo cabe
    dentro de um segundo?

    A segunda-feira sabe


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema: Com a nova câmera D3400 da Nikon, Benjamin Colombel cria esta série que sutilmente entrelaça absurdo, humor e estética. Ora no coração de um deserto urbano fascinante, ora no meio do mar, a jovem das fotos se mostra obcecada por seu smartphone, “celebrando a solidão”. 

    **

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  • [Solidão]

    [Solidão]

    Pra te esquecer, te escrevi
    Quando você partiu, me encontrei
    Lembranças jazem num instante
    E a grama cresce verdejante
    Não importa se é solidão ou saudade
    Somos eternos enquanto vivos
    E nos confundimos com a liberdade

    Pra te cantar, escolhi
    Uma sinfonia inacabada
    Mas as palavras me perseguem
    E não entendo essa urgência em provocar
    Em cutucar o destino desmaiado
    Em tentar te bater com luvas de pelica
    Com spikes nas pontas dos dedos mofados

    Não vou lembrar de nada disso
    Nem agora, nem na próxima Segunda-feira
    O modelo sempre simplifica a realidade
    E o que sobra é o meu coração indeciso
    Que amortece o soluço da vontade
    E desenha um poema de improviso


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Sílabas tortas]

    [Sílabas tortas]

    Unhas descascadas,
    cutículas machucadas.
    Não, uma sílaba não é nada simples:
    pode levar do céu ao inferno.
    Ou o inverso. 

    Nem toda revolta
    gera uma revolução.
    Mas uma evolução
    pode nascer de pouco menos
    de cinquenta tons
    de uma única frustração. 

    E sem nenhum verso pra contar história.
    Lembranças fazem cócegas,
    sorrisos são vírgulas
    que aguardam palavras. 

    Uma sílaba pode ser uma palavra inteira.
    Inteira, repleta, cheia…
    cheia de nada no meio do nada.
    No meio.
    Meio, metade, quase tudo, quase nada.
    Algodão. 

    É na segunda-feira que a semana começa?
    Qual a melhor música
    para inundar dias repletos de nada? 

    Qual mescla de letras transparece
    a melhor mescla de uma tentação? 

    Penso. Denso. Tenso. Imenso. Propenso.
    Cheiro da chuva de ontem de noite.
    Cheiro da grama recém cortada
    de ante-ontem.
    Cheiro de segunda-feira

    Músicas, muitas músicas, músicas sem fim.
    Sílabas em espiral. Tortas. Quase mortas. 

    Teriam as canções o poder de transformar
    meus comportamentos (e o dos outros)
    com a mesma eloquência e drama
    com que saem da minha boca? 

    Enquanto a boca canta,
    o estômago espreme as sílabas
    da sutil idiotice de existir. 

    Porque o porvir nada pede.
    Mas se algo está por vir,
    de que vale soletrar
    se a preguiça vai irritar
    a sílaba gritada,
    a sílaba quebrada? 

    O momento da decisão
    rasgou a unha num V. 

    Uma letra cravada no meio
    que atrapalha a minha pegada.
    Por quê? 

    O que virá? Quem viver, verá.
    Mais um verso.
    Reverso. Repenso. Convenço.
    Posso usar esse seu lenço? 

    Canto aqui no meu canto
    breves canções em contra-senso
    enquanto encanto,
    num pânico condescendente,
    mais uma segunda-feira sem silêncio.


    Tina Teresa

    • Artwork by Merna’s Artwork

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