Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

tempo

  • [catavento]

    [catavento]

    _

    Cata
    Só por um momento
    Penso
    Em quase nada
    Enquanto cato tempo
    E ganho tempo
    Pra uma nova segunda-feira
    Que me cata
    E descarta
    Tampa o tempo
    Tanto tempo
    Vem por tanto
    Vento tanto
    Tento tanto
    Por tanto tempo

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Inércia]

    [Inércia]

    Vamos parar o tempo
    No template do meu prato
    No tempero do teu vento
    No pedaço do nosso cansaço

    Vamos parar o tempo
    Na cadência do compasso
    Na ternura do momento
    No aconchego de um abraço

    Vamos parar o tempo
    Na batida do teu ato
    No frame do meu jeito
    No sorriso de um pensamento

    Vamos parar o tempo
    Na neblina da estrada
    Na pressa do efêmero
    Num sincero lamento

    Vamos parar o tempo
    Na aspereza de um beijo lento
    No mergulho de um fundo raro
    No suor de um passatempo

    Vamos parar o tempo
    Na maciez do amanhecer na praia
    Na palidez do outono pleno
    Na escassez da saudade

    Vamos parar o tempo
    Porque a vida pede um tempo
    Porque o tempo pede um tempo
    Porque esse é o nosso momento

    Vamos parar o tempo

    Na poesia das coisas todas

    No tic-tac das bodas

    Na inércia dessa segunda-feira tonta

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Não sei fazer conta]

    [Não sei fazer conta]

    Carrossel dividido
    Chuva de setes
    Quanto custa
    um olhar arrependido?

    Meu cálculo se repete
    Por que você foi embora?
    Na matemática do seu retorno
    É onde eu conto as horas

    Conto, conto e o tempo não passa
    Ou será que o tempo para
    Segunda-feira fica pronto
    Segunda-feira me dispara 

    Conto, conto e faço de conta
    Que eu não sei fazer conta
    Só pra ver se você volta
    Enquanto o vento se demora


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte de Sônia Menna Barreto chamada Enxuta e feita em glicée, palavra francesa usada nos EUA para nomear o processo de microjato de tinta, a uma determinada pressão, usado na impressão desta nova geração de gravuras. É feita na máquina “Giclée Printer”, que jateia aproximadamente 4 milhões de microscópicos pingos de tinta por segundo, em papel (100% algodão, 220 g) ou tela. Podem ser usadas até 16 milhões de cores numa só giclée.
    *

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  • [Desembrulho]

    [Desembrulho]

    Laçada de orgulho
    Desembrulho
    Pedaço de euforia
    Kriptonita
    Segunda-feira maldita
    Pedregulho
    Saudade simples dos pés gelados
    Debaixo da coberta amassada
    Saudade de um drinque
    Enquanto você me olha
    E depois me brinca
    Me abafa em beijos
    Me afoga em carinho
    Me invade em silêncio
    E me desembrulha
    E me teletransporta
    O tempo todo
    Por todo o mundo
    Pra qualquer tempo
    Praquele momento
    Praquele “oi” dito de fora pra dentro
    Como que me convidando
    A fazer parte do seu tempo
    Sem pestanejar
    Porque você é o meu lugar
    Nossos pés se tocam
    E trocam
    Milhares de paisagens
    Em cada olhar uma mensagem
    Do alto do muro
    Abraço puro
    Amasso no escuro
    Eu te seguro
    E grito
    Em negrito
    O quanto eu quero
    Caramelo
    E desembrulho
    Seu coração
    No meu castelo
    Onde chove algodão
    E adormece um universo paralelo
    Sensação
    Presente terno
    Tão belo
    Te encontrar foi singelo
    Te querer é um novelo
    Que eu desembrulho
    E me enrolo
    Porque é em você que eu moro
    Porque é seu gosto que eu decoro
    E repito em goles cada vez melhores
    É com você que eu namoro
    E adoro
    E desembrulho
    E desenrolo
    Segunda-feira aflita
    Volte, eu imploro
    Repita
    Segunda-feira tem visita
    Que bonita
    Você é meu presente
    Que eu desembrulho
    E desenho nosso futuro
    Com meus cabelos
    Amarelos


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Sem tempo]

    [Sem tempo]

    Rugas de datilografia
    Contam histórias, nostalgias
    Mudas memórias
    Tanta rebeldia

    Mude a sua sina
    Carimbe seu sorriso
    Com goles de adrenalina

    Troque o tempo
    Trote o vento

    Furte a cor do pensamento

    Deixe a segunda-feira surgir
    Pra semana nascer feliz
    E todo o resto distrair
    E fluir


    by Tina Teresa

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  • [Tanto tempo]

    [Tanto tempo]

    Tudo contra

    Contra tempo

    Tanto tudo

    Ao mesmo tempo

    Tic tac

    Tem que ter que

    Dar um tempo

    Fale tudo

    Sinta muito

    Pouco mesmo

    Tanto muito

    O tempo todo

    De tempos em tempos

    Ame muito

    Meu contento

    Tudo junto

    Nosso mundo

    Tempo tanto

    Tem portanto

    Tanto por

    Muito tudo

    Por você

    Meu amor

    Se na segunda-feira eu for

     –
    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Times Haiku, um projeto do The New York Times que utiliza algoritmos para identificar poesias acidentais (no formato 5-7-5 sílabas) em seus artigos. A arte deste poema foi extraída do artigo “A Test Track for Tuning Up Supreme Court Arguments”, publicado em 23 de junho de 2013.

    **

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  • [Chuva Prata]

    [Chuva Prata]

    Não tinha motivo para não ir,
    mas rolava um receio,
    um aperto no estômago,
    não tinha explicação. 

    Desculpas pra ficar surgiam a todo instante.
    A chuva poderia ser a culpada.
    A pontinha de dor de cabeça, também.
    Assim como o trânsito, a preguiça,
    o desconforto no pescoço,
    a vontade de ficar debaixo das cobertas
    assistindo seriado atrasado… 

    Mas de repente
    a gente tinha hora marcada.
    E daí era pra valer.
    E o vidro do carro embaçado,
    o café adocicado,
    as voltas na quadra procurando vaga,
    a fruta trocada,
    o fone sem estéreo
    e o adaptador da tomada
    eram motivos de sorrisos. 

    A chuva nem atrapalhava.
    Eu fazia que nada era nada,
    que não tava nem aí,
    que pouco me importava.
    Mas a verdade me esmagava.
    A segunda-feira vai chegar atrasada.
    Eu não precisei falar nada,
    porque você já sabia de tudo. 

    Fosse preto ou fosse prata,
    não rolava mais medo de dar mancada.
    Mentira, rolava sim.
    Fosse mesmo você mesmo.
    Venha o que vier, seja o que for,
    se falei demais, se o que li foi muito,
    se duvidei um pouco,
    se entreguei o jogo… Foi. 

    E que seja o que tiver de ser.
    E que seja o que a gente quiser,
    haja o que houver, chova o que chover. 

    Porque existe um sol dentro da gente
    que brilha docemente,
    intensamente.
    Um sol eloquente.
    Que me faz ver estrelas
    no céu da tua boca.
    E que traz o aroma do mar
    para os seus olhos
    enquanto a chuva prata
    desenha arco-íris
    nos meus cabelos dourados. 

    E daí se estava nublado?
    Apenas sinta, não minta.
    O tempo tem a cor que a gente pinta
    quando estamos com os olhos fechados.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

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  • [White tulip]

    [White tulip]

    Cada segunda-feira que chega
    é um novo começo.
    Um reset de tempo,
    uma tulipa branca.
    Um universo paralelo
    repleto de possibilidades.
    Uma página nova
    para sonhar,
    planejar,
    pestanejar,
    relembrar
    que uma história
    só tem dono
    quando é carimbada
    no coração.
    Panela de pressão.
    Coisas que vêm e vão.
    Coisas que aparecem
    de onde eu chego
    e nem por isso
    o dia amanhece mais cedo.
    Morcego.
    Pé gelado no verão.
    Vigilância solitária
    de um tempo
    que não foi meu.
    Pra que esforço
    ou alvoroço
    se o que sobra
    é apenas sobra.
    Manobra.
    Saudade que nem dói,
    mas corrói.
    Saudade de um novo dia
    que não tarda,
    que não chega,
    que não falha,
    que não pensa,
    que não nega
    nem tolera
    essa cega
    parcela de nós.

    by Tina Teresa

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  • [Enquanto você não vem…]

    [Enquanto você não vem…]

    O tempo passa tanto.
    Tanto tempo num enquanto.
    Tanta espera, tanto pranto.
    Por que tanto portanto?
    Enquanto canto em cada canto,
    o tempo canta na varanda
    do meu peito.
    Não tem jeito.
    Ou eu espero ou apenas quero
    que esse tempo que eu não tenho
    simplesmente apareça
    e me vire de ponta cabeça.
    Seria o destino me olhando de canto?
    Ou um menino de tamanco
    sapateando dores,
    furtando amores,
    trocando sorrisos
    por pequenos sabores… 

    Enquanto a segunda não vem. 

     –
    by Tina Teresa

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  • [Mistério]

    [Mistério]


    Se escrevo é porque tenho
    O tempo na garganta
    A intensidade nas mãos
    E sorriso de criança

    Se escrevo é porque tento
    Segurar o infinito
    Apertar o grito junto ao peito
    E abrir qualquer pedaço restrito

    Se sonho é porque quero
    Que a segunda-feira venha
    E traga afago, traga renda
    Na neblina desse mistério


    by Tina Teresa

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