Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

tina teresa

  • [Desenho]

    [Desenho]

    Deixa, vai, só um pouquinho
    Prometo que não vai doer
    É só um risquinho, você vai ver

    Deixa eu te pintar
    Com meu cheiro de sossego

    Deixa que o toque, o suor e o enfoque
    Nos enforque, nos troque, nos mostre

    Deixa, vai, tem que ser agora
    Quero te marcar
    Te invadir, te dedicar
    Quero te escrever
    Com minha letra viciada
    Te entorpecer
    Fumaça borrifada
    Suspiros azuis
    Teu vento é meu sustento
    Teu tempo me devora

    Deixa eu te desenhar
    Numa prece sincera
    Na beira da minha janela

    Deixa, vai, de segunda a segunda
    Eu te desenho e você me inunda

    Meu coração é feito de tinta
    Eu te desenho e você me pinta

    Deixa eu te rabiscar inteiro
    Com todos os meus devaneios
    Deixa eu te carimbar
    Com meu dasatino
    Vem ser meu destino

    Sou menina e traço poemas
    Se eu te desenho,
    É você meu menino?


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Emptying Gestures by Heather Hansen, a contemporary performance artist and dancer in New Orleans, who has come up with an elegant and creative way to capture her dancing motions on paper – she gets up-close and personal with a big piece of paper and some charcoal.

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  • [Suspiro]

    [Suspiro]

    Duelo desconcertante
    Rosto amendoado
    Segunda-feira errante
    Olhos abafados

    Cabelos de algodão
    Atalho machucado
    Sorriso inebriante
    Sol gelado

    Melodia exclusiva
    Trovoadas e raios
    Nostalgia lasciva
    Amanheço e desmaio

    Dilema equivocado
    Berço de flores negras
    Lágrima inflama
    Desejo boceja

    A vida me chama
    Me abriga, me beija
    Me tortura, relampeja
    Duvido do teu enredo

    Mas não tenho medo
    Teu drama na minha cama
    Me consome, me reclama
    Me pede, me ama

    Me impede, me demora
    Me acorda em soluços
    Acorde lusco-fusco fora de hora
    Reflexo, refluxo, agora

    Te meço, te busco
    Te duvido, me perturbo
    Caio no sono
    Te amo no susto

    Seria monótono
    Se não fosse brusco
    Haveria dúvida
    Se não tivesse pulso

    Minha saliva, tua música
    Palavra pausada na rua
    Ainda resta a dúvida
    Saudade amarrotada

    Seria justo?
    Te quero absurdo
    Assim doce, assim puro
    Um pouco torto, um pouco surdo

    Se ainda te duvido
    É porque te amo, te juro
    Te espero, te curo
    Te quero, me embrulho

    E tudo o que eu não te digo
    Paira no abismo… (*suspiro*)
    Onde pulei contigo
    Até o fundo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Hug by passavodiquipercaso

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  • [Solar flare]

    [Solar flare]

    Meio sem querer
    Quase sem perceber
    Daqui parece tão longe
    De perto parece tão frágil
    No centro parece tão forte
    Tão quente, ardente, inconsciente
    Tão lindo, gigante, latente

    A luz que ofusca
    Esconde a busca
    Pela vida partida
    Que explode perdida
    E encontra na avenida
    Uma nova rota
    Subtraída

    Quero provocar um eclipse
    Pra tua luz me invadir
    Me vazar, me sobrar, me parir
    Pra tua voz me beijar
    Ainda com os olhos fechados
    E me embalar dançando, antes de dormir
    Pra eu seguir sonhando, antes de acordar

    Me apaixono por tua cumplicidade
    A cada passo que gente dá
    Como se as pegadas na areia da praia
    Fossem pequenas promessas
    Marcadas pelo peso dos nossos corpos
    Levadas ao mar pelo vento
    E seladas pelo firmamento

    Na velocidade que o mundo gira
    Não tem como ficar parado
    Tudo muda, tudo voa, tudo pira
    A cumplicidade, no entanto, permanece lado a lado
    Mas é preciso reinventá-la numa prece
    E cobrir a luz do sol
    Pra descobrir a explosão que verte

    Na segunda-feira a gente vê
    O que sobrou dessa explosão
    Se no final de semana a gente faz fuzuê
    Na segunda-feira a gente gruda
    Todas as memórias surdas
    E elimina a paranoia
    Antes que o cansaço fuja

    To be unremarkable for others is remarkable for me
    Just like a solar flare is how I imagine you to be
    Your voice broke my monday evening
    And everything in between
    Your heart beats my song
    Your eyes are my sky, my life, my world enough
    Please never leave me alone

    Be my atmosphere
    Let me shine
    Flare by my side
    My only sunshine
    Be Panic
    Take me to fly…
    Be mine


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Illustration: a look at the mid-level solar flare from Sunday, August 24th, 2014’s taken with the LASCO C2 coronagraph on NASA/ESA’s SOHO spacecraft. A coronagraph is a special type of telescope that uses a solid disk to actually cover up the Sun itself, completely blocking direct sunlight, and allowing us to see the atmosphere around. Taken 2 hours after the flare, this image allow us to see the hot plasma of charged particles being ejected towards the side of the Sun.

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  • [Quase]

    [Quase]

    Nunca a frase de Saint-Exupéry fez tanto sentido
    Vi a eternidade desbotar diante dos teus olhos tremidos

    Meu amor, não foi tua intenção me cativar
    Que será de mim agora se tua voz
    É só uma lembrança sussurrando no meu ouvido?

    Gosto de espelho, banheiro, edredom, chuveiro
    Do teu sorriso safado, inteligente, criativo, aventureiro

    No teu abraço apertado há demônios e outros amores
    Será que se deixar cativar por alguém é isso?
    É querer algo que não cabe nem na linguagem, nem no infinito?

    Quase o improvável substituiu a distância
    Quase nossas incoerências dissolveram a tolerância

    Nossos nós e nossos defeitos derreteram nossos sonhos
    Nossa incompetência escapou da filosofia careta
    Entre sua atmosfera interior e o resto do planeta

    O cotidiano superou a surpresa
    Teu gosto solúvel avistou meu amor de duquesa

    E as promessas veladas… Ah, as promessas veladas
    Estacionadas no quase imponderável
    Vencidas pela fugaz percepção inefável

    Até quem olhava de fora percebia
    Ancorada em nossos laços pairava a sintonia

    Onde foi parar a eterna responsabilidade?
    Aquele querer respirar junto e cativar a liberdade?
    Onde foi parar o futuro? Foi quase…

    Nós e nossos imperdoáveis medos
    Nós e nossos quases perdidos no tempo

    Tudo remetia ao caminhar conjugado
    Toda a matemática, a literatura, a ciência dos ventos trocados
    Tudo era quase, menos o imponderável

    Você e seu talento pra chegar atrasado
    A nós, resta assistir a tudo calados

    Até quando vamos alimentar essa companhia solitária?
    A quase união foi interrompida pelo abandono
    Os quase momentos viraram desertos sem sono

    Como posso lamentar o que não nos coube?
    Até cheguei a provar-lhe as lágrimas, o que houve?

    Não dá pra ser quase feliz, quase pronto, quase quase
    Nossos tempos incompatíveis, nossos afazeres aqui e ali
    Quase é um advérbio de tempo que não sobrevive ao “vem dormir”

    Nada fácil viver no quase sem fresta
    Nada fácil deixar a porta entreaberta

    É uma irresponsabilidade extraordinária
    Cativar alguém e partir pra indiferença
    Cativar alguém e só agradecer a presença

    Não, o quase não é só isso
    Companhia sem compromisso

    Ou você acha que quase amar
    Permite fugir e se descontrolar
    Separar primeiro para depois se encontrar?

    Não é o acaso que nos prende na tempestade
    São nossas escolhas, nossas verdades e nossas amizades

    “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
    Não dissolva a eternidade no quase, minha vida
    Não permita que teu vazio abafe a despedida

    Tenho preguiça do teu vacilo que me definha agora
    Não faço mágica nem nada pra tirar sorriso da cartola toda a hora

    Vivo no quase esperando o depois
    Não me esqueço do antes, não esqueço nós dois
    Se houver vontade, a gente grita gol

    Já é quase segunda-feira e eu não decidi ainda
    Se adormeço ou se a dor meço enquanto a noite finda


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Art by Jarek Puczel, who approaches his work with the idea that life is a movie or a game of illusion and the world is a playground where different realities play with one another. Quase como um quase.

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