Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

tinateresa

  • [Oferenda]

    [Oferenda]

    Acordei ouvindo Raul Seixas em sua homenagem

    Pensei no seu cigarrinho escondido

    Na sua risada

    Na sua boca cheia de dentes esperando a morte chegar

    No seu coração gigante

    Feito de fogo, terra, água e ar

    Na pesca do pescador

    Na beleza da maluquice

    Na dor

    Na velhice

    No teto

    No feto

    Na segunda-feira traiçoeira

    Que te levou de rasteira

    Que te pregou uma peça

    Sem pressa

    Sem essa

    Sem fôlego

    Nem quente

    Nem morno

    Logo ponho

    Uma vela no altar

    Pra iluminar seu caminho

    E te levar de mansinho

    Pros braços largos

    De quem amamos

    E carregamos

    No colo

    Perdoe-me se demoro

    Logo choro

    Logo sinto

    Não minto

    Coração aflito

    Neste recinto

    Onde as lágrimas banham

    Nossos sonhos e memórias

    Enquanto inflamam

    As preces

    As fezes

    Às vezes breves

    Nas fendas

    Não se ofenda

    Todos viramos oferenda

    Nesta tenda

     

    Poem by Tina Teresa

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  • [Sueli]

    [Sueli]

    Com você, tanto aprendi
    Minha pequena grande Sueli
    Aprendi que a vida é breve
    E repleta de histórias e lendas
    Que a gente inventa e cria e emenda
    E compartilha
    E canta
    E dança
    E desenha
    E faz oferenda
    Como se fosse um croqui

    Com você cresci
    Num imaginário etéreo
    Feito um poema eterno

    Por você decidi
    Caminhar pra frente
    Me surpreendendo com o mundo
    Da leitura, da escrita e do contudo
    Da segunda-feira ao absurdo  

    E entendi
    Que ensinar e aprender
    É muito mais do que querer
    Ou amar
    Ou poder
    Ou sorrir
    Ou repreender
    Ou chorar
    Ou dividir
    Ou somar
    Ou passar
    Ou pular
    Ou teorizar
    E escrever uma tese
    E comprovar que a vida é breve

    Porque o tempo para de repente
    E voa tão rápido que a gente nem vê

    E a beleza é breve
    A dor é breve
    A sua voz é leve
    E ecoa
    No coração da gente
    Que bate com febre
    Na porta do tempo
    Pedindo pra ele voltar
    Pra gente redesenhar
    Só mais um encontro
    Uma valsa
    Um fado
    Um ponto
    Um passeio tonto
    Um segredo que tenho
    Mas tenho medo agora…
    Quem sabe no céu eu te conto

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: acervo pessoal Sueli Anacleto, com efeito.  

    Amiga e mentora: voe em paz… ♥

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  • [Melodia]

    [Melodia]

    Teu
    sorriso me motiva 
    A
    respirar e a abraçar o mundo 
    Feito uma
    planta 
    Com
    raízes vivas 
    Buscando
    o fundo 
    E
    alcançando o céu 

    Teus
    olhos me guiam 
    Me
    inspiram 
    Me
    ensinam 
    Me dizem
    tudo 
    Sem falar
    nada 
    E
    traduzem os surtos 
    Dos
    imbecis 
    Que
    insistem 
    Em nos
    importunar 

    Teu
    abraço me protege 
    Das
    mazelas e das querelas 
    Do vento
    e da chuva forte 
    Dos anos
    e dos falhos planos 
    Da segunda-feira
    insana 
    E de toda
    a falta de sorte 

    Teu
    coração me abraça
    Todas as
    noites e todos os dias 
    Em todas
    as canções 
    E
    orações 
    Pois teu amor
    de mãe 
    Não tem
    preço nem estadia
    Ele
    apenas irradia 
    Feito
    melodia 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: fotografia de arquivo pessoal.  

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  • [Efêmero]

    [Efêmero]

    Feito o vento
    Voo com meus pensamentos
    Longe do centro
    Do meu coração sedento

    Feito um fiapo
    De flor que nasce
    E morre ao relento

    Feito mar
    Que vem e vai
    Pra cá e pra lá
    Fazendo corrente
    Serpente

    A segunda-feira passa
    E quantas vezes
    A gente nem sente

    – Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: ephemeral – Miura Gallery
    “the territory of the girl girls” at the exhibition “Spring
    whistle” by hirano hirano.  

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  • [Peito aberto]

    [Peito aberto]

    Não quero mais pensar 
    No passado que nos mordeu 
    Por mais que ainda doam 
    As feridas que você nos deu 
    De graça 
    Sem graça 
    Como pontas de facas 
    Em nossos peitos abertos 

    Dizem que é preciso 
    Morrer um pouco para viver 
    E que mesmo escondidos 
    Nossos sorrisos 
    Hão de prevalecer 
    Na raça 
    Sem farsa 
    Com força e com garra 
    Buscando sentido 
    Em cada amanhecer 

    Porque a segunda-feira 
    Chega para todos 
    E a tua cadeia 
    Está guardada no sufoco 
    Das nossas gargantas 

    Porque o que é nosso 
    Volta ao nosso colo 
    Sejam sonhos roubados 
    Dados lançados 
    Ou caminhos sequestrados 

    Nosso peito continua aberto 
    Mas só entram os convidados 
    De alma pura 
    E horário marcado 
    Só entram os convidados 
    Sem culpa 
    Sem intenções duplas 
    Aperto de mão de verdade 
    E coração repleto de honestidade 

    A segunda-feira ensina 
    Que toda volta por cima 
    Começa de baixo 
    Pra ganhar impulso 
    Com sangue nos olhos 
    E força nos pulsos 

    A segunda-feira nos vira 
    De cabeça pra baixo 
    Pra mostrar que a sina 
    É a gente quem cria 
    Tropeçando em falso 
    Esbarrando em gente falsa 
    Ralando no asfalto 
    Entrando em fria 
    E saindo escaldado 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: “The Key Demon” by Jared Krichevsky.  

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  • [Kali]

    [Kali]

    Quem diria
    Que um dia
    Você criaria asas 

    Você que sempre gostou
    De rolar no chão
    Ou voar sobre os meus pés
    Brincando de avião 

    Você que chegou
    De mansinho
    Feito um carinho
    Nas nossas almas
    Com passos finos
    Tão lindos 

    Você e sua pancinha redonda
    Tão fofa
    E seu pelinho curtinho
    Tão sedoso
    Seu miado fininho
    Tão zeloso
    Seu focinho meigo
    Tão charmoso
    Seu rom-rom macio
    Tão gostoso
    Seu temperamento
    Tão seu
    E sua própria segunda-feira
    Tão sua 

    Você ganhou a lua
    E nos trouxe a paz
    Você fez sua rua
    E voou nua
    Envolta em nossas lágrimas
    E em nosso toque fugaz 

    E você deixou com a gente
    Um amor imenso
    Tão denso
    Escrito por extenso
    Em nossos corações suspensos

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: Foto da Kali by Tina Teresa.  

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  • [Passo a passo]

    [Passo a passo]

    Os pés presos
    Em ponta
    Paralisados
    Para o próximo passo 

    Os pés lesos
    Calcados
    Descalços
    Disfarçando o cansaço 

    Os pés relapsos
    Desalmados
    Pesados
    Segunda-feira eu passo 

    Perdidos no espaço
    Buscando laços
    Escassos
    Passo a passo

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: artwork by Justin Michael Zielke.  

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  • [Segunda-feira escondida]

    [Segunda-feira escondida]

    Você segue
    E as flores te perseguem
    O teu caminho é leve
    E a segunda-feira ferve

    Você devolve
    Os olhares que te medem
    Feito bola de neve
    Enfrentando quem se atreve 

    Você caminha
    Dona de si
    Dona do mundo
    Sem ladainha
    Sem fim
    Sem fundo 

    Você é minha
    Alma viva
    Minha segunda-feira escondida
    Que ninguém vê
    Mas todos sabem
    Que você existe
    Dentro do meu olhar
    Repleto de por quês

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    Artwork by Norman Duenas.  

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  • [Efeito borboleta]

    [Efeito borboleta]

    Eu espero que um dia
    Você se perdoe
    E aprenda a agradecer 

    Eu espero que um dia
    Você reflita
    Sobre suas escolhas
    E aprenda a entender 

    Que tudo o que te cerca
    É você quem cria
    Que tudo o que você xinga
    São tuas próprias feridas
    Segundas-feiras banidas
    Palavras traídas
    Realidades divididas
    Falas amargas
    Risadas nocivas

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    Stephanie Law: “Cat’s Cradle” (watercolor and gold leaf, 16 x 26.5 inches. Part of the “Essence” series).  

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  • [Buraco]

    [Buraco]

    Quando venta lá fora
    Parece que o tempo
    Ecoa aqui dentro
    Parece que o amor mesmo
    Foi embora
    Saltar a esmo
    Num imbróglio suspenso

    Quero um abraço apertado
    Pra cobrir esse buraco
    Que ficou no meu peito
    E me deixou desse jeito
    Respirando lento
    Com o ar cortado
    Segunda-feira com
    cheiro de incenso

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    “Stolen Heart” from @shok_1 in London.  

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  • [Segunda-feira traiçoeira]

    [Segunda-feira traiçoeira]

    Hoje
    minha inspiração pulou a janela e foi brincar lá fora 
    Queria
    saltar gotas de chuva, rolar na grama, catar amoras 

    Era segunda-feira
    e ela me deixou sentada na varanda 
    Meus
    pensamentos ficaram soltos…
    Perdidos
    Sortidos 
    Absortos  

    Até que
    foi divertido 
    Perder a
    inspiração 
    Por hora
    me senti livre 
    Por hora
    me senti um vão  

    Um vão
    sem rumo 
    Sem
    direção 
    Uma
    fresta sem prumo 
    Na
    contramão  

    Oh,
    inspiração, volte 
    Não me
    deixe sozinha 
    Ainda
    mais na segunda-feira 
    Porque
    cada vez que uma nova semana começa 
    Ela vem
    assim mansinha 
    Devagar,
    com mal estar 
    Modesta,
    sem pressa 
    Depois
    acaba sorrateira  

    Ah, segunda-feira
    Logo
    você 
    Chegou
    assim 
    Traiçoeira 
    Roubou
    minha inspiração 
    E me
    deixou no chão 
    Sem eira
    nem beira  

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: artwork by Shamekh.   

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  • [Nó maldito]

    [Nó maldito]

    O inverso
    padece 
    Na espera
    do que precede 
    O que
    acontece 
    Ou vira
    prece 
    Ou vira
    praga 
    Ou
    cresce 
    Ou
    draga 
    Vértice 
    Mágoa  

    Sinto dor
    Dor de
    barriga 
    Dor nas
    pernas 
    Dor nos
    braços 
    Dor na
    alma 
    Dor na
    vida 
    Segunda-feira sofrida 
    Dúvida
    dividida 
    Entre o
    céu e a ferida  

    Joelhos
    inchados 
    Pés
    esfolados 
    Coração
    endurecido 
    Nariz
    entupido 
    Segunda-feira em negrito 
    Olhos
    ardidos 
    Arrancados 
    Pra não
    ver o passado 
    Pra não
    prever o futuro 
    E o vento
    zunindo 
    Empurrando
    pra frente 
    Pra eu
    não cair no grito 
    Pra você
    não ir pro escuro  

    Porque há
    de passar 
    Todo esse
    rito 
    Esse
    brado aflito 
    Esse
    fardo amargo 
    Esse
    nó 
    Apertado 
    Esfarrapado 
    Doído 
    Esse nó
    maldito 
    Incrédulo 
    Áspero 
    Esse nó
    que nos amordaça 
    Que nos
    atrasa 
    E nos
    arrasta 
    Esse nó,
    tenho dito 
    Vai
    desatar  

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: Creepy little girl by Maria Rubinke.  

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