[tristezas de estimação]

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você tava cabisbaixo
quando eu cheguei
você nem percebeu
eu só me encostei
você logo adormeceu
parecia amor
parecia nostalgia
mas era dor
disfarçada de afasia
enquanto chovia
você tava enjoado
quando eu aprendi
o caminho de casa
e me hospedei no seu coração
como item de coleção
eu cheguei devagar, eu sei:
um pensamento recorrente aqui
uma memória revisitada ali
uma segunda-feira atrasada
uma camiseta rasgada
uma angústia amassada
buscando morada
eu cheguei
como quem não quer nada
eu era só um “e se”
que ganhou coleira e nome próprio
e, quando você viu,
eu já tinha lugar no seu sofá
então você passou a me alimentar
e a me chamar pro seu colo
de dia, de noite, de madrugada
debaixo das cobertas
da segunda-feira abafada
você me deu comida, carinho,
um gole de vinho,
um quê de afeto torto
enquanto eu me criava
e multiplicava suas dores
num zoológico íntimo
de tristezas de estimação
eu me alojei no disco riscado
que você escolheu ouvir
virei lembrança de algo que não foi
enquanto você gritava pra eu partir
virei aquela saudade
de uma versão sua devarde
que ficou em algum lugar do passado
numa segunda-feira mofada
num domingo inacabado
você me adotadou aos poucos
primeiro, visita. depois, encosto.
no infinito de um e de outro
juntos, fizemos cafuné no tédio
pensando que era remédio
você me deixava solta no quarto
fazendo bagunça na cama
fazendo pirraça no armário
enquanto você cantava pneu no asfalto
tentando fugir
do vitimismo
do abismo
do destino
do roteiro que se repete
do travesseiro inerte
da segunda-feira em vão
comigo, não
comigo você inventa
mais uma tristeza de estimação
dormindo aos pés da sua rotina
polindo suas dores
refletidas na sua retina
colecionando tombos, sapos, afagos
desaprendendo o cuidado
justificando maços e maços
inventando hábitos
vomitando hálitos
e orando
pra eu não virar acervo
pra um dia, sem anúncio,
eu esquecer seu endereço
pra você fechar a porta devagar,
com as mãos vazias pela primeira vez em anos
e, no silêncio que ficar, ainda estranho,
deixar-se dormir sobre seus próprios ombros
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❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday
★ ilustração deste poema: obras ‘tocando com o coração’, ‘sufocado na própria delicadeza’ e ‘coração, sem razão’ by Susano Correia para a linha Co_Folk da Folk Books.
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[durma até sonhar, viva até acordar…]



