Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [compasso alado]

    [compasso alado]

    _

    então fica assim

    não engula

    as perguntas

    para seguir

    em passo

    nem passe

    mais um ano

    descalço

    engula apenas

    pra fazer pazes

    e dar passagem

    pra segunda-feira

    que insiste

    em se atravessar

    algumas perguntas

    não sabem esperar

    outras

    só amadurecem

    no estômago 

    e tem as

    que pedem

    tempo

    e seguem

    sem alarde

    sem rótulo

    sem lados

    no compasso

    alado

    do que ainda

    se move

    _

    Tina Teresa

    ilustração deste poema: wall with abstract posters affixed BY  Darren Sacks

    **

  • [pluribus]

    [pluribus]

    _

    A segunda-feira não chega sozinha

    Vem carregada de restos do domingo, listas mentais, promessas reaproveitadas, desejos que ainda bocejam com gosto de cozinha

    Segunda-feira é acúmulo em movimento

    Um dia que já nasce atravessado por vozes, tarefas, vontades contraditórias

    Café da manhã com cheiro de tormento

    Por isso ela assusta e seduz

    Por isso ela pede manejo

    Por isso ela pede poema

    Por isso ela vem vestida de acordo

    Por isso ela pede movimento para virar forma

    Mais de um, mais de dois, mais do que cabe numa linha torta

    A segunda-feira mistura. Fricciona

    Desarruma a falsa ideia de unidade pura

    É uma multidão de vozes que não precisa virar uma só para fazer sentido

    É cheia de camadas e grunhidos

    Ela aceita versões, rasuras, respirações diferentes no mesmo verso

    Cada segunda singular ao avesso

    vira plural que não pede desculpa por existir

    E chega e some e soma e cega

    A segunda-feira não nega

    Você é quem vai decidir

    Então decide assim:

    com curiosidade,

    com margem,

    com a coragem de quem sabe

    que pensar também é verbo em trânsito

    no âmbito dos teus desejos

    _

    Tina Teresa

    **

  • [Dezembro]

    [Dezembro]

    Dezembro. A sexta-feira do ano

    Um mês em combustão lenta que não termina: incandesce

    Mesmo por debaixo dos panos

    É quando as promessas ficam com cheiro de papel novo

    E as pendências querem estacionar no calendário antigo

    De novo?

    Dezembro é festa e balanço

    É febre de fechamento

    ,é luz piscando antes do corte,

    é a pressa tentando parecer descanso

    Tudo quer acabar,

    mas nada aceita sair ileso

    Entre o que foi dito

    e o que ficou atravessado,

    o mês arde

    E a gente também

    Dezembro passa

    Deixa marcas

    E uma lucidez curiosa:

    o ano muda,

    mas a segunda-feira sempre reaprende a chegar

    Na próxima semana tem mais uma

    Você vai fugir ou vai ficar?

    _

    Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    artwork by David Bowers.   

    **

  • [Sob a tela da janela]

    [Sob a tela da janela]

    Sob a tela da janela

    A viagem segue lenta

    A paisagem acalenta

    O céu esquenta o coração

     

    O tempo dobra os quilômetros

    Costura nuvens e estradas

    Cada olhar encontra pouso

    Cada pausa vira mirada

     

    Na imensidão

     

    Sob a tela eu ensaio

    Um passo enfadonho

    Talvez um sonho

    Um recomeço, um pouco

     

    De uma sina

    Nunca antes aceita

    Nem seguida

    Nem na segunda-feira esquecida

     

    Feito pegada suja no chão

     

    Sob a tela da janela

    Revejo meus nãos

    _

  • [Passos roxos]

    [Passos roxos]

    segunda-feira

    é um território de partida

    onde o café ainda não sabe o próprio nome

    e a rua respira antes de acordar

     

    é o dia em que a semana prova o sapato

    e decide se caminha, se dança

    ou se inventa um jeito torto de seguir

     

    há quem tema as segundas

    eu as coleciono

    feito bilhetes deixados por versões minhas

    que ainda não descobriram o que vão ser

    mas já começaram a ser algo

     

    segunda é vento pelas bordas

    rearranjo do mapa

    ensaio de recomeço que não pede plateia

     

    porque recomeçar é um verbo cansado

    que fica lindo no papel

    então abrace o pânico

    trace um novo plano

    and be monday

    be yourself

    siga dançando no caos

    no seu ventre, no seu âmago

    como quem descobre, no meio da rotina,

    um caminho que só existe quando você pisa

    _

  • [Tomara que caia]

    [Tomara que caia]

    Chegou hoje

    Meu vestido de poá

    Tomara que caia

    Tomara que saia

    Que vaia, que seja

    Tomara que derreta

    Pelas calçadas pálidas

    Da cidade nublada

    Pelos bueiros rarefeitos

    Pelas valas flácidas

    Pelas vagas vagas

    Das ruas ácidas

    Das segundas cálidas

    Das feiras plácidas

    Tomara

    _

    Photo: The Red Shoes by Rachel Domleo

  • [Dança]

    [Dança]

    Cada vez que você dança

    eu também danço,

    mas quando você tropeça

    sou eu quem cai

    Cada raio de sol que te alcança

    me atravessa,

    e a sombra que sobra

    se enrosca em mim

    Ora na beira você se demora

    Que fazer com a escuridão que sobra?

    No espelho não me reconheço

    Seria um fim

    ou um novo começo?

    Talvez na próxima segunda-feira

    eu tenha certeza

    mesmo que a dúvida me espere na soleira

    da beira

    do mar

    da areia

    da ceia

    do espaço de ninar

    ___

    Artwork by @marcosalvarado La Danza De La Esperanza (Blue Roof), 2025, Acrylic on canvas

  • [Poderia]

    [Poderia]

    Eu não sabia que o Gessinger fez uma música sobre a segunda-feira

    Remete a um baião

    É gostosa, tem refrão

    Faz sentido

    Nos meus ouvidos

    No meu coração de poeta

    Que acredita

    Na segunda muda

    No domingo etéreo

    Nas contas que acumulam

    Nos fogos que fogem do horizonte

    Na luz que se apaga

    Pra nova semana que começa

    Pro sono que chega

    Antes da hora

    Pra conversa que não vinga

    Antes do sol raiar

    Você conhecia?

    Chama-se ‘a noite inteira’

    E fala das coisas que a gente poderia

    fazer, falar, sonhar, sorrir, dormir, trocar,

    conversar, desprender, pagar, brincar

    pecar, fluir, voar…

    Tem tanta coisa que a gente poderia

    se a gente não se prendesse

    na fobia da nostalgia

    na agonia da mordida

    da segunda-feira bandida

    _

     

    Artwork by Engenheiros do Hawaii

  • [Felicidade]

    [Felicidade]

    felicidade é um carinho

    é um café quentinho, coado

    é um olhar enamorado

    um beijo molhado

    um jantar elaborado

    ou não

    é ficar de pijama a manhã inteira

    e a tarde inteira

    e a noite inteira de novo

    e acordar na segunda-feira

    com gostinho de domingo

    _

  • [Muito obrigada]

    [Muito obrigada]

    Amo nossos tudos e nossos nadas

    Amo nossos dias, nossas noites e nossas tardes ensolaradas

    Amo nossos domingos e nossas segundas-feiras lotadas

    Amo nossos encaixes e nossas risadas largadas

    Amo nossos beijos e nossas piadas

    Amo nossos lugares preferidos, nossa cumplicidade absurda, nossos sonhos lúcidos, nossos choros lindos e nossas pelugens fartas

    Amo nossa linguagem inata

    Amo nosso mundo infinito

    Amo você

    Muito obrigada

    _

     

    Artwork by Anders Rokkum

  • [Chovia]

    [Chovia]

    a segunda amanheceu fria

    e o mundo parecia andar de lado

    sempre que chovia você não ia

    e eu aprendia a medir distâncias

    pelo som das goteiras

    escondendo os sonhos

    com um travesseiro mofado

     

    não tem desculpas, já não chove mais

    o céu abriu, mas deixou marcas no chão,

    no teto, no reto, no torto, no absorto,

    no meu choro abafado

     

    hoje entendo a tristeza que a segunda-feira traz:

    ela carrega o eco do que faltou,

    e a coragem tímida de seguir, apesar

    _

     

    📸 @fluzbrenda

  • [Despedidas acumuladas]

    [Despedidas acumuladas]

    Despedidas acumuladas não pesam de uma vez.

    Vão se guardando nos cantos —

    entre fotos que ninguém revela,

    mensagens que param no meio da frase,

    e aquele cheiro que insiste em ficar no casaco.

     

    São como poeira de constelação:

    cada grão, um instante que partiu,

    mas que ainda brilha um pouco antes de sumir.

    E, quando a gente menos espera,

    essas pequenas partidas se juntam,

    fazendo um céu inteiro mudar de cor —

    uma segunda-feira que chega sem aviso,

    com o peso leve das ausências empilhadas.

     

    Despedir-se não é só ir embora —

    é aprender a deixar partir pessoas,

    coisas, conceitos, verdades desbotadas,

    premissas que perderam o peso,

    promessas que viraram vento.

     

    É esvaziar as mãos para que algo novo possa pousar,

    é abrir espaço no peito para o que ainda quer nascer,

    mesmo que seja o silêncio antes da próxima palavra.

    Despedir-se é soltar, soltar, soltar — e ainda assim continuar.

     

    Artwork by Roberta Sant’Anna para Unsplash+

[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
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