Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [café]

    [café]

    _

    fiz um pequeno tratado sobre cair

    e ser amparada no que coube

    uma segunda-feira de camadas

    onde o amargo aprende a dançar com o doce

    pra semana começar

    com o café acordando a língua,

    pousando feito pó de pensamento

    em estado de abraço,

    feito laço,

    sem embaraço

    desacelerei o tempo

    com as mexidas da colher

    pra a pressa perder o fôlego

    e a segunda-feira

    ganhar cara de sobremesa,

    ocupando a mesa,

    esticando a conversa,

    espalhando migalhas de pausa

    no meio do dia,

    no meio da ceia,

    no meio do peito

    onde medos e sonhos

    seguem acordados, apertados,

    pedindo intervalo,

    pedindo colo

    e desejos novos

    por favor, me espere

    quando eu me demoro

    _

    Tina Teresa

    **

    ★ ilustração deste poema: “the lucky break to make a wish” by @coco_woah

  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.


  • [Memórias]

    [Memórias]

    Tropecei na escada rolante das minhas memórias

    Era um trânsito de vontades que se esbarravam

    E não respeitavam o ir e vir das discórdias

    Diálogos de quereres em dias de glória
     
    Luta de antagonias que nos apoia em prosa

    E nos diverge em versos 

    Ventania passageira, ilusão rebordosa

    Tonteria em estágios diversos

    Era o mesmo filme passando

    A mesma cena entrando em colapso

    O mesmo tempo perdido que voltava chorando

    Memória em compasso 

    Filme de vida,
    lembrança tardia,
    desci o degrau em lapso 

    Transe transitório,
    tontos passos 
    segunda-feira ardida

    Tina Teresa

  • [Caos]

    [Caos]

    Se tua ordem

    Me chama

    É porque o caos

    Me derrama

    Em prantos

    Em cantos

    Enquanto

    Um universo inteiro

    Ganha morada

    Segunda-feira guardada
    Em meu canteiro

    De obras

    De sobras

    Desordem

    Estrelas explodem

    Decifra-me

    E me convida

    Pra ser sua rua

    Sua pele nua

    Sua namorada 

     –
    Tina Teresa

  • [Contentamento descontente]

    [Contentamento descontente]

    Contentamento descontente

    Cheiro de lua, cama nua

    Segunda-feira, pasta de dente 
    Serpente no canto da rua 

    Cabe mais um?

    Tempo quente, sorridente
    Talvez um gole de rum

    Aguardente, momento eloquente

    Filme, almofada, vigília estrelada
    Chove chuva transparente
    Tv, sofá, perna atravessada
    Incerteza dentro da gente 

    Doce tempero, café da manhã

    Calor decadente, frio caliente
    Da umidade, uma gota de maçã

    Enxergo sem ver o que paira na frente 

    Fatia no prato, vento no asfalto
    Velocidade apática, caminho lentamente
    Mais um pedaço de doce e fico no anonimato 
    Aqueça-me friamente 

    Só mais um beijo, um pão de queijo 
    Enquanto a textura esfola intimamente 
    Se temperatura fosse desejo 
    Amaríamos eternamente 

     –

    Tina Teresa

  • [antes do chão]

    [antes do chão]

    _

    eu amo teu sorriso

    e até teu deboche

    quando diz “eu não preciso”

    eu amo teus olhos profundos

    e teu caminhar moribundo

    amo teu cheiro

    teu suspiro partido ao meio

    eu amo teu silêncio que se mexe

    quando o mundo encosta demais

    e tu finges distração

    amo teu atraso crônico

    para as certezas

    e essa pressa curiosa

    de viver agora

    amo teu jeito de ir

    sem sair do lugar

    de ficar

    sem se explicar

    de quase cair

    e ainda assim levantar

    te reconheço em mim

    no modo de respirar antes da fala,

    no tempo que segura o gesto

    sem travar o movimento,

    na pausa que se sustenta

    sem pedir tradução,

    no riso que acontece

    e segue

    te reconheço

    onde o passo aprende

    antes do chão,

    onde o tempo passa

    e pausa no meu coração

    atravessando a segunda-feira

    sem pedir licença

    ao calendário

    ou à contramão

    o passo segue

    e eu te amo

    entre cafés

    pensamentos

    parafusos

    ruas

    sou toda tua

    sempre

    mesmo sem lua

    entra ano, sai ano

    a vida passa

    a pele arde crua

    Tina Teresa

    ilustração deste poema: foto de família editada.

    **

  • [compasso alado]

    [compasso alado]

    _

    então fica assim

    não engula

    as perguntas

    para seguir

    em passo

    nem passe

    mais um ano

    descalço

    engula apenas

    pra fazer pazes

    e dar passagem

    pra segunda-feira

    que insiste

    em se atravessar

    algumas perguntas

    não sabem esperar

    outras

    só amadurecem

    no estômago 

    e tem as

    que pedem

    tempo

    e seguem

    sem alarde

    sem rótulo

    sem lados

    no compasso

    alado

    do que ainda

    se move

    _

    Tina Teresa

    ilustração deste poema: wall with abstract posters affixed BY  Darren Sacks

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  • [pluribus]

    [pluribus]

    _

    A segunda-feira não chega sozinha

    Vem carregada de restos do domingo, listas mentais, promessas reaproveitadas, desejos que ainda bocejam com gosto de cozinha

    Segunda-feira é acúmulo em movimento

    Um dia que já nasce atravessado por vozes, tarefas, vontades contraditórias

    Café da manhã com cheiro de tormento

    Por isso ela assusta e seduz

    Por isso ela pede manejo

    Por isso ela pede poema

    Por isso ela vem vestida de acordo

    Por isso ela pede movimento para virar forma

    Mais de um, mais de dois, mais do que cabe numa linha torta

    A segunda-feira mistura. Fricciona

    Desarruma a falsa ideia de unidade pura

    É uma multidão de vozes que não precisa virar uma só para fazer sentido

    É cheia de camadas e grunhidos

    Ela aceita versões, rasuras, respirações diferentes no mesmo verso

    Cada segunda singular ao avesso

    vira plural que não pede desculpa por existir

    E chega e some e soma e cega

    A segunda-feira não nega

    Você é quem vai decidir

    Então decide assim:

    com curiosidade,

    com margem,

    com a coragem de quem sabe

    que pensar também é verbo em trânsito

    no âmbito dos teus desejos

    _

    Tina Teresa

    **

  • [Dezembro]

    [Dezembro]

    Dezembro. A sexta-feira do ano

    Um mês em combustão lenta que não termina: incandesce

    Mesmo por debaixo dos panos

    É quando as promessas ficam com cheiro de papel novo

    E as pendências querem estacionar no calendário antigo

    De novo?

    Dezembro é festa e balanço

    É febre de fechamento

    ,é luz piscando antes do corte,

    é a pressa tentando parecer descanso

    Tudo quer acabar,

    mas nada aceita sair ileso

    Entre o que foi dito

    e o que ficou atravessado,

    o mês arde

    E a gente também

    Dezembro passa

    Deixa marcas

    E uma lucidez curiosa:

    o ano muda,

    mas a segunda-feira sempre reaprende a chegar

    Na próxima semana tem mais uma

    Você vai fugir ou vai ficar?

    _

    Tina Teresa


    ilustração deste poema:

    artwork by David Bowers.   

    **

  • [Sob a tela da janela]

    [Sob a tela da janela]

    Sob a tela da janela

    A viagem segue lenta

    A paisagem acalenta

    O céu esquenta o coração

     

    O tempo dobra os quilômetros

    Costura nuvens e estradas

    Cada olhar encontra pouso

    Cada pausa vira mirada

     

    Na imensidão

     

    Sob a tela eu ensaio

    Um passo enfadonho

    Talvez um sonho

    Um recomeço, um pouco

     

    De uma sina

    Nunca antes aceita

    Nem seguida

    Nem na segunda-feira esquecida

     

    Feito pegada suja no chão

     

    Sob a tela da janela

    Revejo meus nãos

    _

  • [Passos roxos]

    [Passos roxos]

    segunda-feira

    é um território de partida

    onde o café ainda não sabe o próprio nome

    e a rua respira antes de acordar

     

    é o dia em que a semana prova o sapato

    e decide se caminha, se dança

    ou se inventa um jeito torto de seguir

     

    há quem tema as segundas

    eu as coleciono

    feito bilhetes deixados por versões minhas

    que ainda não descobriram o que vão ser

    mas já começaram a ser algo

     

    segunda é vento pelas bordas

    rearranjo do mapa

    ensaio de recomeço que não pede plateia

     

    porque recomeçar é um verbo cansado

    que fica lindo no papel

    então abrace o pânico

    trace um novo plano

    and be monday

    be yourself

    siga dançando no caos

    no seu ventre, no seu âmago

    como quem descobre, no meio da rotina,

    um caminho que só existe quando você pisa

    _

  • [Tomara que caia]

    [Tomara que caia]

    Chegou hoje

    Meu vestido de poá

    Tomara que caia

    Tomara que saia

    Que vaia, que seja

    Tomara que derreta

    Pelas calçadas pálidas

    Da cidade nublada

    Pelos bueiros rarefeitos

    Pelas valas flácidas

    Pelas vagas vagas

    Das ruas ácidas

    Das segundas cálidas

    Das feiras plácidas

    Tomara

    _

    Photo: The Red Shoes by Rachel Domleo

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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