[cone]

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não sei porque
você insiste em se mover
pra frente dos meus dias
me deixando vazia
enquanto a segunda-feira arrepia
não sei porque
você insiste em só querer
a segurança do padrão
à beleza do avesso
sem apreço
mereço?
não sei porque
você escolhe permanecer
no mesmo passo decorado
no mesmo chão já mapeado
no mesmo roteiro cansado
não sei porque
você insiste em repousar
firme no mesmo lugar
como se mudar de ideia
fosse pior que tombar
como se o erro fosse queda
e não movimento
como se a coragem exigisse
certeza e consentimento
não sei porque
você insiste em proteger
promessas que nunca cumpriu
medos que o tempo já viu
retratos que o futuro despiu
não sei porque
você passa os dias a dizer
por aqui
não por ali
sem nunca querer saber
o que mora depois dali
não sei porque
você insiste em ser cone
quando a vida pede curva
e cada segunda-feira nasce
pra romper a paisagem turva
não sei porque
você insiste em conter
tudo aquilo que transborda
tudo aquilo que se move
tudo aquilo que descobre
que outro caminho resolve
eu olho a segunda-feira
e vejo uma porta entreaberta
você olha a segunda-feira
e confere se a fechadura está certa
talvez por isso
eu procure a vertigem do começo
e você a repetição do endereço
eu a beleza do avesso
você o conforto do regresso
cego
tudo tem um preço
laranja de vocação
sentinela da repetição
fiscal de imaginação
plantado sobre o asfalto
esperando o próximo empurrão
ou que a próxima segunda-feira
abra frestas na avenida
embaralhe as faixas
contrarie o mapa
brinque com a despedida
em favor da vida
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❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday
★ ilustração deste poema: CONES, 2024. Imagem © Grégoire d’Ablon, cortesia da artista Pia Hinz, que recria ferramentas industriais em delicados objetos de vitral.
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[durma até sonhar, viva até acordar…]



