Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

[inventário dos conflitos guardados]

__

lá atrás do seu castelo
tem uma segunda-feira guardada
você a mantém dobrada
para que nunca termine
para que nunca acabe

você a guarda
na prateleira mais alta
porque ela enferruja
tudo o que toca
ela rebusca
tudo o que mofa
ela busca
ela afoga
ela troca recomeço por conflito
chama por grito
no meio do infinito

volta e meia
você reorganiza a coleção
como quem junta ímãs de geladeira
de cidades onde nunca esteve
mesmo os que já perderam a tinta
ou os que ainda seguram a porta fechada
velando bocas que nunca tremem

lá atrás do seu castelo
tem um armário
só para desentendimentos
você fica polindo cada atrito
tentando apagar o arrependimento
você pole tanto,
como se fosse encanto
até que ele reflita
apenas seu próprio rosto
e chame isso de memória
causando zero espanto

há conflitos de edição limitada
alguns ainda vêm na embalagem original
você sabe a procedência de cada um
mas esquece que a vida precisa de sal

há exemplares repetidos
mas você insiste em chamá-los de inéditos
nunca empresta os mais valiosos
mesmo que pareçam fétidos

seu armário já empenou
com o peso das razões veladas
com as brigas antigas restauradas
e as noias emprestadas

você tirou o pó das ofensas
que ninguém mais lembrava
conservou mágoas
em temperatura ambiente
só pra sentir a língua amarga

você classifica seus conflitos
com etiquetas escritas à mão
você herdou alguns
outros comprou usados
}há falsificações na coleção
mas você os exibe mesmo assim
com orgulho da escuridão

há conflitos que vencem
mas você nunca confere a validade
prefere fugir da verdade
a viver na sanidade

lá atrás do seu castelo
você embrulha com laço de fita
sua vida bonita
faz inventário do desnecessário
e chama de relicário
compra silêncio usado
vende sossego riscado
troca descanso por recado
dobra o desgosto do lado oposto
para que todo remendo
pareça pressuposto

__

❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

ilustração deste poema: By transforming her own old paintings into new works of art, Eliza Douglas raises questions about sincerity and cynicism.

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