Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Foco]

    [Foco]

    seria o foco
    uma metodologia criativa
    nada cartesiana

    ou talvez só uma intenção
    imprecisa que atravessa o caos
    e se deixa levar
    mais pelo desejo
    que pelo cronograma?

    um esboço
    um fluxo
    um tropeço que insiste
    em parecer caminho

    porque focar não é alinhar
    não é conter
    não é reduzir à lógica

    é sustentar o movimento
    mesmo quando tudo falha
    mesmo quando o método implode

    e o foco permanece
    ainda assim
    como um sopro
    irregular
    feito de caos
    e de intenção
    e de segundas-feiras

    A C U M U L A D A S

    promessas atrasadas

    e quem sabe
    não seja exatamente isso
    focar:

    não fixar
    não endurecer
    mas afrouxar
    a rédea
    e seguir
    onde o caos
    se encontra
    com o pulso
    num impulso

    _

     

    📸 Renato Heusi
    Sem filtro – 29/07/25 – 7h15

  • [Previsão]

    [Previsão]

    Vinicius já previa…

    tudo morre, tudo esfria,

    mesmo o job, mesmo a parceria

    no fundo, todo mundo já sabia,

    que nada dura, só a nostalgia

    true story, pura melancolia

    mas se ardeu, foi alegria,

    se marcou, virou poesia

    foi inteiro, sem economia

    sem contrato, só química e energia

    não precisa eternidade,

    basta a sintonia

    não precisa a segunda-feira,

    basta a rebeldia

    _

     

    Artwork by mathiole

  • [Número]

    [Número]

    Todo mundo tem o direito de mudar de ideia. De planos, de sonhos, de encantos.

    Mas há uma pergunta que não cala: por que você me pediu pra ficar?

    Eu estava quase indo. Partindo. Saindo. Trocando rotinas pífias por outras melodias.

    Mensagens. Promessas. Propostas. Elogios. Projetos. Histórias.

    Parecia incrível. E foi.

    Até não ser mais.

    Até eu virar só mais um número, cortado à navalha.

    Seu foco mudou.

    O que era estratégico virou secundário.

    Do nada você inflou. Crescimento acelerado? Pra onde foi? Um caminho novo a ser traçado, fragmentou. Destroçado por traças roedoras traiçoeiras atrás das frágeis segundas-feiras.

    Palavras. Mágoas.

    Um futuro tolhido. Talhado. Ceifado.

    Um número.

    Um nada.

    O que era soma virou sumiço.

    Desperdício.

    Desperdiçada.

    Despedida.

    Despedaçada.

    Era quarta, mas virou sexta.

    E a quinta virou segunda.

    Mais um dia zero.

    Segunda sem feira.

    Apenas um número.

    À beira da lareira que queima os saldos não salvos das promessas traiçoeiras.

    Por que você me pediu pra ficar?

    _

     

    Artworw by henn_kim

  • [Oferenda]

    [Oferenda]

    Acordei ouvindo Raul Seixas em sua homenagem

    Pensei no seu cigarrinho escondido

    Na sua risada

    Na sua boca cheia de dentes esperando a morte chegar

    No seu coração gigante

    Feito de fogo, terra, água e ar

    Na pesca do pescador

    Na beleza da maluquice

    Na dor

    Na velhice

    No teto

    No feto

    Na segunda-feira traiçoeira

    Que te levou de rasteira

    Que te pregou uma peça

    Sem pressa

    Sem essa

    Sem fôlego

    Nem quente

    Nem morno

    Logo ponho

    Uma vela no altar

    Pra iluminar seu caminho

    E te levar de mansinho

    Pros braços largos

    De quem amamos

    E carregamos

    No colo

    Perdoe-me se demoro

    Logo choro

    Logo sinto

    Não minto

    Coração aflito

    Neste recinto

    Onde as lágrimas banham

    Nossos sonhos e memórias

    Enquanto inflamam

    As preces

    As fezes

    Às vezes breves

    Nas fendas

    Não se ofenda

    Todos viramos oferenda

    Nesta tenda

     

    Poem by Tina Teresa

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    [durma até sonhar, viva até acordar…]

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    **

  • [Sueli]

    [Sueli]

    Com você, tanto aprendi
    Minha pequena grande Sueli
    Aprendi que a vida é breve
    E repleta de histórias e lendas
    Que a gente inventa e cria e emenda
    E compartilha
    E canta
    E dança
    E desenha
    E faz oferenda
    Como se fosse um croqui

    Com você cresci
    Num imaginário etéreo
    Feito um poema eterno

    Por você decidi
    Caminhar pra frente
    Me surpreendendo com o mundo
    Da leitura, da escrita e do contudo
    Da segunda-feira ao absurdo  

    E entendi
    Que ensinar e aprender
    É muito mais do que querer
    Ou amar
    Ou poder
    Ou sorrir
    Ou repreender
    Ou chorar
    Ou dividir
    Ou somar
    Ou passar
    Ou pular
    Ou teorizar
    E escrever uma tese
    E comprovar que a vida é breve

    Porque o tempo para de repente
    E voa tão rápido que a gente nem vê

    E a beleza é breve
    A dor é breve
    A sua voz é leve
    E ecoa
    No coração da gente
    Que bate com febre
    Na porta do tempo
    Pedindo pra ele voltar
    Pra gente redesenhar
    Só mais um encontro
    Uma valsa
    Um fado
    Um ponto
    Um passeio tonto
    Um segredo que tenho
    Mas tenho medo agora…
    Quem sabe no céu eu te conto

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: acervo pessoal Sueli Anacleto, com efeito.  

    Amiga e mentora: voe em paz… ♥

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    **

  • [Melodia]

    [Melodia]

    Teu
    sorriso me motiva 
    A
    respirar e a abraçar o mundo 
    Feito uma
    planta 
    Com
    raízes vivas 
    Buscando
    o fundo 
    E
    alcançando o céu 

    Teus
    olhos me guiam 
    Me
    inspiram 
    Me
    ensinam 
    Me dizem
    tudo 
    Sem falar
    nada 
    E
    traduzem os surtos 
    Dos
    imbecis 
    Que
    insistem 
    Em nos
    importunar 

    Teu
    abraço me protege 
    Das
    mazelas e das querelas 
    Do vento
    e da chuva forte 
    Dos anos
    e dos falhos planos 
    Da segunda-feira
    insana 
    E de toda
    a falta de sorte 

    Teu
    coração me abraça
    Todas as
    noites e todos os dias 
    Em todas
    as canções 
    E
    orações 
    Pois teu amor
    de mãe 
    Não tem
    preço nem estadia
    Ele
    apenas irradia 
    Feito
    melodia 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: fotografia de arquivo pessoal.  

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    **

  • [Efêmero]

    [Efêmero]

    Feito o vento
    Voo com meus pensamentos
    Longe do centro
    Do meu coração sedento

    Feito um fiapo
    De flor que nasce
    E morre ao relento

    Feito mar
    Que vem e vai
    Pra cá e pra lá
    Fazendo corrente
    Serpente

    A segunda-feira passa
    E quantas vezes
    A gente nem sente

    – Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: ephemeral – Miura Gallery
    “the territory of the girl girls” at the exhibition “Spring
    whistle” by hirano hirano.  

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    **

  • [Meio]

    [Meio]

    Como pode um só minuto levar tanto tempo pra passar?

    Como pode a saudade apertar tanto até transbordar?

    Como podem as lágrimas verteram tanto sem cessar?

    Como pode a segunda-feira nos aproximar e nos afastar?

    E essa distância da nossa infância, como pode nos sarar?

    E essa lembrança cheia de vontades, como eu posso tanto te amar?

    Como pode a felicidade só fazer sentido quando você está aqui?

    Aqui no peito esquerdo, no meu leito, no meu suspiro rarefeio.

    Aqui no meu universo inteiro, no meu sonho e no meu pesadelo.

    Você é meu amor primeiro

    Único, último e verdadeiro

    Você é meu mundo perfeito

    Sem limite e sem tempo

    Sem segunda-feira

    Em todos os momentos

    Pra vida inteira

    Com você eu devaneio

    Eu me entrego

    Até do lado avesso

    Você é meu começo, meu fim, meu meio

    _

    Artwork by Andrej Mashkovtsev

  • [Gritos]

    [Gritos]

    meus ouvidos doem
    enquanto suas palavras
    sem sentido
    moem meu choro
    meu umbigo
    seus gritos
    negritos
    desarmam meus mitos
    e espalham
    meus frangalhos
    pelo chão que você pisa
    e cospe
    e evita
    e grita
    de novo
    enquanto eu morro
    e esqueço
    que te amo
    enquanto peço
    que asegunda-feira leve embora
    tua saliva venenosa
    lasciva
    rancorosa
    doída
    que te leve embora
    daqui do peito
    do leito
    da minha cabeceira
    _

    Artwork by @anne_bengard_art

  • [Peito aberto]

    [Peito aberto]

    Não quero mais pensar 
    No passado que nos mordeu 
    Por mais que ainda doam 
    As feridas que você nos deu 
    De graça 
    Sem graça 
    Como pontas de facas 
    Em nossos peitos abertos 

    Dizem que é preciso 
    Morrer um pouco para viver 
    E que mesmo escondidos 
    Nossos sorrisos 
    Hão de prevalecer 
    Na raça 
    Sem farsa 
    Com força e com garra 
    Buscando sentido 
    Em cada amanhecer 

    Porque a segunda-feira 
    Chega para todos 
    E a tua cadeia 
    Está guardada no sufoco 
    Das nossas gargantas 

    Porque o que é nosso 
    Volta ao nosso colo 
    Sejam sonhos roubados 
    Dados lançados 
    Ou caminhos sequestrados 

    Nosso peito continua aberto 
    Mas só entram os convidados 
    De alma pura 
    E horário marcado 
    Só entram os convidados 
    Sem culpa 
    Sem intenções duplas 
    Aperto de mão de verdade 
    E coração repleto de honestidade 

    A segunda-feira ensina 
    Que toda volta por cima 
    Começa de baixo 
    Pra ganhar impulso 
    Com sangue nos olhos 
    E força nos pulsos 

    A segunda-feira nos vira 
    De cabeça pra baixo 
    Pra mostrar que a sina 
    É a gente quem cria 
    Tropeçando em falso 
    Esbarrando em gente falsa 
    Ralando no asfalto 
    Entrando em fria 
    E saindo escaldado 

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: “The Key Demon” by Jared Krichevsky.  

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    **

  • [Vocabulário]

    [Vocabulário]

    Existe um infinito
    Nos teus olhos lindos
    Que me leva a sonhar 

    Existe um lugar
    Cheio de histórias
    Mágoas e memórias
    Nos teus olhos vivos
    Que escolhemos morar 

    Existe um amor
    Que construímos juntos
    E renovamos a cada segundo
    Seja frio ou calor
    Seja raso ou fundo 

    Existe um tempo
    Que cura tudo
    Da segunda-feira pesada
    Até a terça maculada 

    Existe um mundo
    Cheio de sábados, domingos
    E feriado prolongados
    Onde vivemos sorrindo
    E fazendo de conta
    Que não importam as contas
    Nem as pontas soltas
    Dos dias ensolarados 

    Existe o dia
    Do teu aniversário
    Onde fazemos poesia
    E dançamos ao contrário
    Até o infinito
    Sem rodapé
    Nem cabeçalho
    Apenas meio
    Devaneios
    E nosso próprio
    Vocabulário

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: quirky capture by @larazankoul.  

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    **

  • [Kali]

    [Kali]

    Quem diria
    Que um dia
    Você criaria asas 

    Você que sempre gostou
    De rolar no chão
    Ou voar sobre os meus pés
    Brincando de avião 

    Você que chegou
    De mansinho
    Feito um carinho
    Nas nossas almas
    Com passos finos
    Tão lindos 

    Você e sua pancinha redonda
    Tão fofa
    E seu pelinho curtinho
    Tão sedoso
    Seu miado fininho
    Tão zeloso
    Seu focinho meigo
    Tão charmoso
    Seu rom-rom macio
    Tão gostoso
    Seu temperamento
    Tão seu
    E sua própria segunda-feira
    Tão sua 

    Você ganhou a lua
    E nos trouxe a paz
    Você fez sua rua
    E voou nua
    Envolta em nossas lágrimas
    E em nosso toque fugaz 

    E você deixou com a gente
    Um amor imenso
    Tão denso
    Escrito por extenso
    Em nossos corações suspensos

    Poem by Tina Teresa


    ilustração deste poema: Foto da Kali by Tina Teresa.  

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    **

[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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