Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Lua amarela]

    [Lua amarela]

    Lua amarela
    Desnuda a segunda
    Pela janela
    Sem feira, sem beira
    Só pra ela
    Passarela
    Que sorri acordada
    Porém deitada
    Toda dobrada
    Apertada de frio
    Azul de arrepio
    Desnuda
    Em plena segunda
    Lua enquadrada
    Na janela
    Camisola
    Cortina
    Stricnina
    Lua safada
    Fada madrinha
    Desbotada
    Na madrugada
    Serpentina


    by Tina Teresa

  • [Ar/mar]

    [Ar/mar]

    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Da janela, o ar parece mar
    Ar/mar, como não amar?
    Décimo primeiro andar
    Desce a sintonia do seu andar
    Desce a melodia
    Do balanço do mar
    Da ternura do ar
    Vem me abraçar
    Amada história
    Não fui eu
    A má da história
    Percebeu?
    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Pestanejar
    Marejar
    Só quero amar
    E quero que o mar
    Inunde o seu olhar
    E cristalize
    E se eu, Cris, estiver Alice
    Que você me carregue
    E me guie
    Sem perder a fantasia
    Mas mostrando que há caminhos
    Adivinhando cada planície
    Mesmo que o mar pedisse
    E cada segredo que você disse
    Simplesmente sumisse
    E cada nova palavra que surgisse
    Cristalizasse
    Enquanto eu, Cris, imaginasse
    Daqui, do décimo primeiro andar
    Uma paisagem
    Assim, de passagem
    Pela trigésima terceira segunda-feira
    Que me teletransportasse
    Para o seu mar
    Para o seu ar
    Ar/mar
    Até cada olho
    Um de cada vez
    Marejar


    by Tina Teresa

  • [Por enquanto]

    [Por enquanto]

    Nossos momentos todos

    Fazem da vida um eterno por enquanto
    Um pedaço de mar no pensamento

    Um altar de entretantos

    Garoa fina na menina

    Suco de tangerina

    Cheiro de fruta doce

    Flores de seda na cortina

    Café da manhã com neblina

    Segunda-feira matutina
    De vez em quando, parafina

    Croissant, sonho, bananinha

    Passos de bailarina

    Passo o passo passo-a-passo

    E caminho ao seu lado

    Por nossos momentos todos

    E disfarço, por enquanto

    Porque eu te desenhei

    Mesmo que você não saiba

    Mesmo que você nem sonhe

    Desenhei em tons e sons e amores

    Colori alguns momentos
    Para que fossem nossos

    Desenhei apontamentos

    Construí apartamentos

    Imaginei a música que vai tocar

    Quando no colo você me carregar

    Mas por enquanto me contento

    Com cada momento ao relento

    Pois nossos momentos todos

    Fazem da acolhida
    um eterno por enquanto

    E norteiam nossa vida

    Por quantos portantos
    couberem no entretanto

     –
    by Tina Teresa

  • [Confissões]

    [Confissões]

    Se é questão de confessar
    Não gosto de cama arrumada
    Cheia de pompa, com a coberta dobrada

    Eu só quero te contar
    Que nem café eu sei fazer
    Tampouco jogo bem xadrez

    Mas arraso na sobremesa
    E escrevo com presteza
    Minha poesia sobre sua tez

    Te deixo de queixo caído
    Com meu brincar de imaginar
    Faço cor, aconchego e o que mais for permitido

    Se é questão de confessar
    Gosto de misturar doce com salgado
    Pão de queijo com melado

    Almoço seu vocabulário
    Em doses homeopáticas
    E permito que o céu chova falácias

    Mesmo que eu faça varal no banheiro
    Que eu me estrale a noite inteira
    Ou que eu durma com três travesseiros

    Cubro-lhe de beijos no meu leito de ninar
    Pra compensar a falta de jeito
    Ao preparar o jantar

    Porque todas as profecias de amor que fiz
    Nestes infinitos dias de verniz
    Foram cegas, erradas, perdidas

    Consumiram-me noites de sono
    Noites de amor, retalhos de pano
    E nunca foram realmente por mim

    Tudo isso até agora
    Quando a chuva lhe trouxe, sem demora
    Do céu dos seus olhos à minha memória

    Pra gente desenhar um novo caminho
    De jipe, de moto, com café e açúcar mascavo
    De verdade, com vontade, de mansinho

    Se é questão de confessar
    Pertenço a teus braços
    Seja em dia de chuva ou em noite de luar

    Pois amanheço com música
    E dirijo cantando até que a curva dobre
    Até que cada encontro se renove

    Até que a descoberta vire festa
    E a valsa vire sonho
    Enquanto a fantasia se manifesta

    E quando você paira do meu lado
    Vejo o tudo e o nada
    Num compasso inacabado

    Sem fim, sem medo, sem mundo
    Primeiro um beijo, um cheiro num segundo
    Segunda-feira à nossa maneira


    by Tina Teresa

  • [No travesseiro]

    [No travesseiro]

    No travesseiro
    Palavras abafadas
    Dançam sortidas

    De madrugada
    Será que foram sonhos?
    Palavras ditas

    Foram sussurros
    Ou palavras choradas
    Palavras tantas

    Dos sonhos que não sonhei
    Das letras que li
    Promessas que escondi

    Talvez eu queira
    Ser palavra mofada
    Ser Monalisa

    Palavra ardida
    Decapitada por mim
    Engolidas, sim

    Promessas sem fim
    Sorriso inacabado
    Sonhos de cetim

    Jardim etéreo
    Palavras que florescem
    No travesseiro

    Sabe o que eu quero?
    Dormir a noite inteira
    Te sentindo em mim

    Imaginando
    Cada toque na pele
    Cada palavra

    Cada sussurro
    Que você sopra em mim
    Guardo comigo

    Pra minha coleção
    De palavras sortidas
    No travesseiro

    Cada palavra
    Que entra no meu sonho
    Conta uma história

    Te sinto quente
    Desdobrando sorrisos
    Respirando em mim

    Vem, dorme agora
    Que não chove lá fora
    Só na memória

    Primeiro beijo
    Tinha chuva, tinha sol
    Tinha desejo

    Sabe o que eu quero?
    Quero você só pra mim
    A meu critério

    Prometa agora
    Com todas as palavras
    Inundar meu ser

    Então você diz:
    — Segunda-feira chegou…
    — Ri, Monalisa!

    Fale comigo
    Amasse meus cabelos
    No travesseiro

    Tire meu tédio
    Ame cada sonho meu
    Durma comigo

    Não é castigo
    É palavra ardida
    No travesseiro


    by Tina Teresa

  • [Marionete]

    [Marionete]

    Retalhos vividos, memórias tímidas

    Fale baixo, aqui no meu ouvido

    Embale minha poesia única

    Fale uma letra de música colorida 

    Cada cor que meu cérebro promete

    Traz dó, traz dor, traz pó

    Do pó ao poema, ao dilema

    À carta que você me escreve 

    Qualquer que seja o pranto

    Teu nome em minhas costas

    Assombra o entretanto

    Faz sombra, faz cócegas 

    E o peso de um amor cantado
    Espera uma última obra

    Um desenho torto, borrado

    Uma migalha sem tinta que sobra 

    Marionete nos teus braços

    Danço um passo

    Retalho no retrato

    Segunda-feira eu faço
    Um risco?
    Um traço?

    Será que arrisco um suspiro?

    Ou um morango

    Permito-lhe ser vampiro

    Sorvo-lhe o vinho e danço tango

     –
    by Tina Teresa

  • [Mais um dia a menos]

    [Mais um dia a menos]

    Segunda-feira acordou vazia
    Sem presença, sem sentença
    Mas cheia de memórias
    Cheia de bom-dias

    Ontem foi um dia a mais
    Hoje é mais um dia a menos
    Quando menos é mais
    Um pouco mais nunca é de menos
    Um pouco de história nunca é demais
    E um futuro incerto nunca é de menos

    Será que passa o tempo mais rápido
    Se eu esquecer de acordar?
    Será que um lance de uma noite
    Vai nos levar a algum lugar?

    Só mais um pouco
    Soluço rouco
    Falta muito?
    É coisa de louco

    Sim, um pouco mais
    Um dia a mais, uma vida a mais
    Dia menos dia
    É pura fantasia

    Logo menos, nunca mais
    Logo, logo, muito mais
    Seremos nós daqui pra frente?
    Logo mais nunca é demais
    Deixa ser surpreendente
    Deixa ser muito mais

    Quanto mais dias a menos
    Mais dias pra muito mais
    Mais boas-noites pra novos dias
    Mais bom-dias pra outras noites a mais


    by Tina Teresa

  • [Chuva Prata]

    [Chuva Prata]

    Não tinha motivo para não ir,
    mas rolava um receio,
    um aperto no estômago,
    não tinha explicação. 

    Desculpas pra ficar surgiam a todo instante.
    A chuva poderia ser a culpada.
    A pontinha de dor de cabeça, também.
    Assim como o trânsito, a preguiça,
    o desconforto no pescoço,
    a vontade de ficar debaixo das cobertas
    assistindo seriado atrasado… 

    Mas de repente
    a gente tinha hora marcada.
    E daí era pra valer.
    E o vidro do carro embaçado,
    o café adocicado,
    as voltas na quadra procurando vaga,
    a fruta trocada,
    o fone sem estéreo
    e o adaptador da tomada
    eram motivos de sorrisos. 

    A chuva nem atrapalhava.
    Eu fazia que nada era nada,
    que não tava nem aí,
    que pouco me importava.
    Mas a verdade me esmagava.
    A segunda-feira vai chegar atrasada.
    Eu não precisei falar nada,
    porque você já sabia de tudo. 

    Fosse preto ou fosse prata,
    não rolava mais medo de dar mancada.
    Mentira, rolava sim.
    Fosse mesmo você mesmo.
    Venha o que vier, seja o que for,
    se falei demais, se o que li foi muito,
    se duvidei um pouco,
    se entreguei o jogo… Foi. 

    E que seja o que tiver de ser.
    E que seja o que a gente quiser,
    haja o que houver, chova o que chover. 

    Porque existe um sol dentro da gente
    que brilha docemente,
    intensamente.
    Um sol eloquente.
    Que me faz ver estrelas
    no céu da tua boca.
    E que traz o aroma do mar
    para os seus olhos
    enquanto a chuva prata
    desenha arco-íris
    nos meus cabelos dourados. 

    E daí se estava nublado?
    Apenas sinta, não minta.
    O tempo tem a cor que a gente pinta
    quando estamos com os olhos fechados.


    by Tina Teresa

  • [Não sei lidar]

    [Não sei lidar]

    Com seus medos

    E seus desejos

    Com seus bom-dias

    E suas nostalgias

    Com suas palavras

    E suas almofadas

    Com sua fome

    E como soletra meu nome

    Com seu cheiro

    Importa quem chegou primeiro?

    Com sua cama

    E a palavra na sua boca

    Achando que me ama

    Achando que me acha

    Me chamando de louca

    Achando que logo passa

    Não sei lidar com essa sede

    Tampouco com a parede

    Nem com o recado

    Ou o retrato falado

    Já é segunda-feira
    E eu tenho sede

     –
    by Tina Teresa

  • [Colo]

    [Colo]

    Não é só a chuva que cai do céu
    Cai formiga, cai mel
    Cai gelo que fere e queima a pele
    Cai canivete
    Cai balão na minha mão
    Cai folia, cai folha seca
    Qual a previsão?
    Se o céu no outono balança
    Quem concede a dança
    Rapunzel, jogue-me suas tranças!
    Cai confete e serpentina
    Cai o coração da menina
    No meio da escuridão
    Será que a chuva mansa
    Que ensopa a segunda-feira
    Faz o sonho vira lambança?
    E no meu colo
    To chegando, não demoro
    No precipício a mercê
    No meu colo cai você


    by Tina Teresa

  • [Segunda-feira num segundo]

    [Segunda-feira num segundo]

    Tão derradeira, tão assim, tão mundo
    Olhar noturno, luar soturno
    Que protege? Ou promete
    Uma freada brusca
    Vem aqui, me busca
    Traga confete
    A estrada segue em frente
    Nada mais se repete
    Tudo muda num acorde de trompete
    Tudo permanece
    No submundo


    by Tina Teresa

  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by Tina Teresa

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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