Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Pronto. E ponto.]

    [Pronto. E ponto.]

    Se me apronto, é ponto?
    Se demoro, comemoro?
    Contra-ponto em prantos.
    Não, não choro, mas imploro…

    … por uma laçada, um alinhavo,
    um ponto.
    Inacabado, é claro. 

    Porque nada nunca está pronto.
     Porque agora eu me declaro…

    … amante de retalhos emendados.
    Ponto a ponto. Delicado.
    De cada lado encontro

    caracóis de linhas…

    … costurando amores temporários
    em corações imaginários.

    É tão tonto esse sonho
    que padeço pouco a pouco.
    Ponto a ponto. Quase pronto.
    De pronto.
    Segunda-feira eu conto. 

    Não me ame sem pesponto,
    não me abrace sem moldes,
    não me costure sem abraços apertados. 

    Só lamento, não aguento.
    É um tormento, falei, pronto.
    Agora chega?
    Teu dedo me dá choque
    e teu toque me dá medo,
     teu pelo me acorda
    e tua boca me dá corda.

    Não, não to morta.
    Não me morda.
    Pouco importa.
     Giro a chave, fecho a porta
    e logo adormeço. 

    É só o começo.
    Tô toda torta, mas nem ligo.
    Sei que apronto, volte logo
    que prometo mais um ponto. 

    Ou uma massagem.

    Teu leito comigo.
    Eu consigo.
    Teu acordo,
    meu abrigo.


  • [Das coisas mortas pelo caminho…]

    [Das coisas mortas pelo caminho…]

    Da borboleta tenho dó:
    o desfrute das asas coloridas
    chega de repente, resplandecente. 

    Vê-la caída no chão reflete
    a fatia de tempo cortada
    pelo rasante final. 

    Da ratazana, que dizer?
    Pelos amassados, olhos esbugalhados.
    Fim trágico de uma corrida mal sucedida. 

    Da barata passo perto por mero descuido.
    O que realmente quero
    é que seu último suspiro fique longe
    ou sou capaz de plantar bananeira no muro. 

    Das formigas que pisoteio,
    melhor deixar de escanteio o pensamento
    antes que venha um morcego. 

    Do passarinho, exclamo: “Oh!”
    e fico imaginando
    se foi acidente de percurso ou atropelo. 

    Da aranha, que drama. 

    A cidade invade e muita coisa nela mais não cabe. 
    A segunda-feira chama e tudo se reparte.

    Be part. Not apart.


  • [Violeta]

    [Violeta]

    Enquanto chove, floresço.
    Enquanto enquadro, anoiteço.
    Enquanto trago, violeta.
    Enquanto você não chega, percebo
    segunda-feira ainda é cedo  
    e cada paisagem que invento, borboleta.

  • [Amarelinha]

    [Amarelinha]

    Depois você me diz
    se é mesmo verdade
    essa sua mania
    de pular amarelinha
    em toda calçada quadrada
    encontrada no seu caminho,
    seja na segunda-feira ou
    no meio da madrugada.

    Se fosse você,
    eu desenhava com giz
    e tornava real
    essa brincadeira banal. 

    Eu pintava o céu e o inferno
    com fagulhas de cristal
    e esperava brilhar
    tua poesia no meu carnaval. 


    by Tina Teresa

  • [White tulip]

    [White tulip]

    Cada segunda-feira que chega
    é um novo começo.
    Um reset de tempo,
    uma tulipa branca.
    Um universo paralelo
    repleto de possibilidades.
    Uma página nova
    para sonhar,
    planejar,
    pestanejar,
    relembrar
    que uma história
    só tem dono
    quando é carimbada
    no coração.
    Panela de pressão.
    Coisas que vêm e vão.
    Coisas que aparecem
    de onde eu chego
    e nem por isso
    o dia amanhece mais cedo.
    Morcego.
    Pé gelado no verão.
    Vigilância solitária
    de um tempo
    que não foi meu.
    Pra que esforço
    ou alvoroço
    se o que sobra
    é apenas sobra.
    Manobra.
    Saudade que nem dói,
    mas corrói.
    Saudade de um novo dia
    que não tarda,
    que não chega,
    que não falha,
    que não pensa,
    que não nega
    nem tolera
    essa cega
    parcela de nós.

    by Tina Teresa

  • [Enquanto você não vem…]

    [Enquanto você não vem…]

    O tempo passa tanto.
    Tanto tempo num enquanto.
    Tanta espera, tanto pranto.
    Por que tanto portanto?
    Enquanto canto em cada canto,
    o tempo canta na varanda
    do meu peito.
    Não tem jeito.
    Ou eu espero ou apenas quero
    que esse tempo que eu não tenho
    simplesmente apareça
    e me vire de ponta cabeça.
    Seria o destino me olhando de canto?
    Ou um menino de tamanco
    sapateando dores,
    furtando amores,
    trocando sorrisos
    por pequenos sabores… 

    Enquanto a segunda não vem. 

     –
    by Tina Teresa

  • [Etapas]

    [Etapas]

    Os olhos se abrem novamente.
    Mais um dia. Mais uma etapa.
    Adoro etapas, ciclos, fases, vidas. 

    Tudo muda o tempo todo,
    o minuto seguinte já passou,
    de passo em passo,
    de salto em salto,
    amarelinha, céu e inferno,
    paradoxos que se encontram,
    se invertem, divertem, convertem. 

    Dormir em etapas é tão bom:
    refresca a cabeça,
    reorganiza as ideias,
    entorpece e esclarece. 

    Porque o mundo é efêmero.
    A vida é efêmera.
    A cor é efêmera,
    basta olhar para o céu. 

    Tem gente que muda de humor
    de acordo com o céu.
    Tem gente que de tanto mau humor
    nem olha o céu. 

    Se bem que caminhar
    com a cabeça nas nuvens
    pode te fazer tropeçar.
    No entanto um tropeço
    pode ser um belo começo. 

    Tem gente que sorri à toa,
    tem gente que sorri com os olhos,
    tem gente que cerra os lábios em dor
    para depois verter em lágrimas de amor. 

    Todos os dias são dias comuns,
    até que alguma coisa acontece.
    Até que uma nova etapa ganha forma
    Até que a segunda-feira fica torta  
    e toma conta. E faz de conta…


    by Tina Teresa

  • [Ano novo]

    [Ano novo]

    _

    Quero cabelo sedoso,
    um corpitcho novo,
    a pele mais macia,
    rugas de telepatia
    e um cochilo ao meio-dia.

    Quero aconchego
    embrulhado pra presente, 
    daqueles que pra abrir,
    é preciso usar os dentes. 

    Quero um bocado
    de calda de caramelo,
    daquelas que formam fios
    e lambuzam as mãos,
    o rosto, a boca, o prato,
    o bolo, que rolo! 

    Quando acaba um ano,
    o que será a sobremesa
    dessa ceia toda,
    ora saboreada com gosto e pressa,
    ora travada na garganta
    feito uma travessa
    de pimenta
    ou um gole de soda cáustica? 

    Essas palavras ácidas
    definem quem eu sou
    ou quem você permite que eu seja? 

    Esse falso humor barato
    diz mais sobre quem quer que seja você
    do que você pensa que é. 

    Ou quer ser. 

    Ou aparenta ser. 

    Ou já foi. 

    Foi tarde. 

    E ainda boceja. 

    Esvaiu-se com o ano
    que insiste em acabar
    e acaba exercendo
    uma pressão psicológica na gente
    maior que qualquer
    mousse de chocolate de liquidificador. 

    Porque pequenos segredos
    ou pequenas desventuras
    não tornam ninguém mais forte. 

    Tampouco grandes projetos emprestados
    defendidos com voz melosa e espalhados
    com panos bêbados de desinfetante. 

    Mentiras cotidianas não se calam,
    ofensas veladas escondem-se
    em frestas de ventilação,
    farpas geladas rasgam carnes quentes
    em predicados latentes
    porque a sinceridade não tem
    cadeira pra sentar,
    apenas um leito pra deitar
    e esperar a morte chegar,
    ou o ano findar
    sem deixar sequer poeira,
    já que uma simples besteira
    falou mais alto que a respiração. 

    Coração nenhum bate de bobeira.
    Nem em plena segunda-feira.

    Não afine a voz, não.
    Essa estribeira ainda vai botar
    toda essa angústia na linha. 

    Vem fingir que tá tudo bem, vem.
    Tenha medo da chuva, não.
    Vem tomar sorvete de creme
    com cobertura de gelatina
    que escapa e treme na base,
    não pare, não tema, não há problema,
    apenas tente, coma, lute, não morra,
    chova, viva o novo de novo,
    depois da chuva,
    antes da próxima segunda.

     –
    by Tina Teresa

  • [Eu já…]

    [Eu já…]

    Eu engatinhei de costas,
    caí do balanço e soltei pipa,

    apanhei na bunda com pá de mexer fubá,
    corri e cansei um bocado,
    chamei professora de tia,
    menti para não apanhar 
    esperei a segunda-feira chegar
    e já fiz bico e birra. 

    Já caí do salto, já rasguei a meia
    e pisei no vestido,
    já meti a cara no vidro
    e me esborrachei na gangorra do parquinho,

    já me vesti de noiva, já morri de vergonha,
    já assoei nariz em fronha,

    perdi o rumo e enxerguei o fundo
    sem cerimônia. 

    E eu já decepcionei 
    e já me frustrei também.
    Já fiz pessoas sofrerem por minha causa,
    já sofri por outras pessoas,

    planejei me nivelar a alguém
    e percebi que estava apenas permitindo
    que continuassem a me magoar,
    em plena segunda-feira eu tava mentindo. 

    Já tive vontade de sumir,
    já estive no palco como uma atriz,

    já tomei porre, já fiz dieta e ginástica,
    já surtei geral,
    já chorei de tanto rir,
    e deixei a segunda-feira fluir
    já abracei pra proteger,
    mas também já ri
    quando não deveria
    e falei mais do que podia (ou devia). 

    Fiz amigos eternos
    que quase nunca vejo,

    mas nem por isso os desprezo,
    muito pelo contrário.

    Já amei e fui amada,
    todavia já fui também rejeitada,

    já fui amada e não amei
    segunda-feira sem lei 

    Já perdi amizades e as recuperei,
    já beijei por beijar,

    e também já virei noites
    ora na internet, ora nas baladas,

    já chorei sentada no chão do banheiro
    e
    já amanheci pensando
    em alguém que não valia nada
    segunda-feira extasiada. 

    Já passei noite em claro,
    Já passei o dia dormindo,
    escrevi
    poemas, contos e crônicas,
    tive amores platônicos.

    Já gritei e pulei de tanta felicidade,
    quebrei a
    cara muitas vezes
    esperei a segunda chance 
    e até já fingi que era verdade! 

    Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
    já liguei só para escutar uma voz,

    me apaixonei ora por um sorriso,
    ora por um olhar, sem pensar…

    Já acreditei que fosse morrer de tanta saudade
    e tive medo
    de perder alguém especial
    (e acabei perdendo)
    por pura falta de sanidade. 

    Mas também já festejei datas,
    retomei lutas, abandonei sonhos,

    vi o sol nascer na estrada
    com amigos de verdade.

    Já comi polenta com leite,
    já colei em prova de história,
     tirei dez em matemática
    e até ganhei gincana de análise sintática. 

    Já tomei banho de cachoeira e de rio,
    já vivi de amor,
    mas também
    já me decepcionei com um grande amor.

    Já disse “eu te amo” sinceramente,
    já me disseram
    “eu te amo”,
    mas eu não sei se era pra valer… 
    ou se era apenas entusiasmo
    segunda-feira repelente.

    Já fui promovida,
    já fui demitida sumariamente,

    já troquei de emprego,
    já inventei trabalho.

    Já mudei a rotina, joguei serpentina
    e comi banana com mel. 
    Pintei o cabelo de roxo, almocei miojo
    e fiz careta pro Papai Noel. 

    Já acreditei demais, já desconfiei demais,
    me dediquei de menos.

    Já me deslumbrei, já persisti num erro,
    já aprendi com vários erros,

    tomei sorvete no frio e sopa no calor,
    já inventei lendas,

    me escondi em tendas
    e já comi pão-de-ló com gosto de isopor. 

    …e você???

     


    by Tina Teresa

  • [No banho]

    [No banho]

    Mais um dia escorre em nós, por nós, fazendo nós nos meus cabelos cor-de-mel. Nem respiro porque seu sorriso fica torto, refratado, molhado, absorto. E cada nó que eu desfaço respinga nos teus lábios e chicoteia teu fôlego. E te afoga. Te afaga. Te faz rir de mim. Quem sou eu senão versões e mais versões do muito que carrego dentro de mim? Vem se perder em meus braços, se emaranhar nos cadarços dos meus passos, se afogar nos meus cabelos, se entregar ao desespero dessa rotina arredia que faz da segunda-feira meu pânico, meu filtro, meu rim. Se sou vermelha ou violeta, se pisco ou busco, se olho ou ofusco é porque não distinguo mais o jasmim do capim, mesmo que o cheiro atravesse paredes e inunde meu banho. Tua visita, meu carmim. Tua paisagem, meu fim. Teu toque, meu plano. Teu abraço, meu desejo insano. Tua primeira, minha segunda-feira.

    by Tina Teresa

  • [Miss. Sunshine in the rain…]

    [Miss. Sunshine in the rain…]

    – Posso mesmo ir com vocês? Cabe mais um?

    – Claro que cabe, prima, é uma kombi!
    (Hmmm… to me sentindo a Miss. Sunshine…)

    – A porta tem todo um esquema para abrir e fechar…

    – Tá ali, aquela branca, ali…

    – É a única kombi da rua, podia ser pink, amarela…
    (Miss. Sunshine…)

    – Deixa que eu cuido da porta. Entrem.

    – Quem ficou com o vô?

    – Onde?

    – Vô?

    – Poxa, ninguém ficou com o vô.

    – Eu estou bem, eu estou bem.

    – Como ninguém ficou com o vô? Eu to aqui no meio da rua com os braços abertos para nenhum carro passar por cima dele!

    – Que chuva, logo agora!

    – Choveu quando eu vim também, tive que vir saltando de marquise em marquise, mas mesmo assim me molhei bastante.

    – Se fosse segunda-feira, seria uma crise.
    – Você veio a pé?

    – Claro, é tão pertinho, imagina… mas pra voltar carregando essa máquina… esse negócio tá ficando pesado…

    – Mas você se molhou, viu?

    – Vai ficar gripada.

    – Não se preocupe.

    – Vou prender o cabelo.

    – Seu cabelo tá molhado da chuva?

    – Sim.

    – Se eu soubesse que você viria de carona conosco, prima, teria deixado a máquina no carro ao invés de carregá-la no aniversário.

    – Pois é, e o que você vai fazer com essa máquina de escrever?

    – Decorar a minha casa; eu sou apaixonada por máquina de escrever.

    – A mãe vai na frente com o pai. As crianças já entraram?

    – Também tenho uma máquina de costura antiga que era da outra tia, irmã da nona.

    – Eu já entrei.

    – Eu também.

    – Você já tinha visto a máquina lá em casa, da outra vez?

    – Sua vez, vó.

    – Já tinha inclusive feito uma foto dela.

    – O vô já conseguiu atravessar a rua?

    – Entre você agora, prima, que eu levo a máquina no colo.

    – Peraí, vó, deixa eu arrumar a colcha aqui no banco pra você sentar.

    – Eu deixei aí pra forrar.

    – Eu aprendi a datilografar em máquina de escrever, antes do computador.

    – Por isso que você quis ser jornalista?

    – É. Não. Sei lá…

    – Cada louco com sua mania.

    – Será que ainda funciona? Quero contar essa historia nela…

    – Como você vai carregá-la no avião?
    (Miss. Sunshine in…)

    – Tá todo mundo aí dentro?

    – Ah, eu dou um jeito.

    – Prima, segura esses docinhos pra eu poder fechar a porta.

    – Tava ótimo o aniversário, não tava?

    – Pera, deixa eu acomodar a máquina no meu colo.

    – Puxa a colcha…

    – Tava sim, nossa, adorei rever toda a família e conhecer os que eu ainda não conhecia.

    – Agora devolve os meus docinhos.

    – Pena que sua tia não foi.

    – Você não pegou nenhum cupcake de lembrança?

    – Com a bolsa numa mão e a máquina na outra, não tinha como.

    – Você vai escrever com ela?

    – Eu vou tentar.

    – Acho que você vai ter que trocar a fita…

    – Na segunda-feira, quando eu voltar, vou procurar onde comprar uma nova, vô. Mas obrigada, ela era sua, né? Adorei…

    – Presente de Natal.

    – Você vai lá pra casa?

    – Não, eu fico aqui na casa do meu primo. É nessa mesma rua, só que mais pra trás.

    – Tenho que dar a volta na quadra, então?

    – Isso mesmo, tio, eu contei umas quatro quadras quando eu vim, a pé. Mas tava chovendo, melhor entrar mais pra frente.

    – Você está atravessando o sinal vermelho, marido!

    – Numa ladeira como esta, se eu parar a kombi, a gente desaba.

    – Esse bairro é cheio de morros…

    – Bem que meu amigo falou que quem mora aqui tem a barriga da perna durinha…

    – Tá tão abafado aqui dentro…

    – Esse verão vai ser forte…

    – Os vidros estão todos embaçados, mano.

    – Da outra vez que eu vim, quando fiquei na casa da sua madrinha, o aniversariante estava dentro da barriga ainda…

    – Nossa, já faz quatro anos!

    – Só mais uma quadra e penso que já podemos virar.

    – Eu só contei três até agora.

    – Abre um pouco mais essa sua janela, mãe.

    – Então vou dobrar na próxima esquina.

    – Titio, você pegou quantos docinhos?

    – É à direita, né?

    – Peguei vários docinhos, pra nossa sobremesa de amanhã.

    – Isso, á direita, mas eu não me lembro do prédio do meu primo ser numa subida, acho que é numa descida.

    – Penso que ou entramos uma rua antes da quadra dele ou uma rua depois.

    – Vamos mais pra frente.

    – Qual o número daquele prédio ali?

    – Hein?

    – Por que você está rindo?

    – Aquele prédio ali?

    – Alguém consegue enxergar o número? Sou míope e estou sem óculos…

    – Ele está rindo do seu sotaque do sul.

    – 1400.

    – Ix, passamos, temos que voltar mais uma quadra pra trás.

    – Contornar a quadra novamente?

    – Meu sotaque?

    – Isso, e dobrar à direita mais adiante.

    – Nessa?

    – Não. Quer dizer, sim. Nessa agora e seguimos em frente e então dobramos de novo.

    – Agora?

    – É isso aí, filhão, olha só quantos docinhos!

    – Sim, pode dobrar.

    – Tem certeza?

    – Quem mora ali?
    (Definitivamente Miss. Sunshine…)

    – Não quer ir lá pra casa mesmo?

    – Obrigada, foi muito bom estar com todos vocês.

    – Encosto onde?

    – Ali, ali, marido.

    – É garagem, mas pode encostar ali, pra não ficar no meio da rua.

    – Meu primo mora aqui.

    – Vai ficar no meio da rua mesmo.

    – Ok, eu desço rapidinho.

    – Mas eu também sou seu primo? Ou não sou?

    – Claro que você é primo dela, pois se você é meu irmão, tem que ser primo dela também.

    – Dê um abraço na sua mãe quando você voltar e encontrar com ela.

    – Eu darei.

    – Fico feliz que conseguimos nos ver, vamos tentar combinar algo amanhã?

    – Aqui mora outro primo meu.

    – Toma, leva esse cupcake pra você.

    – Darei o abraço nela, lógico, vamos tentar combinar amanhã, sim.

    – Você vai na Bienal de Artes?

    – Que bacana conhecer seus pais, seu irmão, o filhinho dele é um fofo! E sua filha, prima, cada vez mais linda!

    – Ela vai.

    – Tchau, vô, vó…

    – Leva o cupcake…

    – Não precisa, pode ficar.

    – Pô, prima, eu to te dando!

    – Volte sempre, querida, fique lá em casa da próxima vez.

    – Ok, obrigada, vou comer no café da manhã.

    – Cuidado com essa porta, se não segurar ela vai bateeeeeer… olha o braço, mãe.

    – Desculpa, eu não consegui segurar.

    – Eu to bem.

    – Nossa, eu vi a porta esmagando o braço da mãe, agora.

    – Meu, que susto.

    – Tchau, crianças.

    – Tchau, prima, pegou o cachecol?

    – Você trouxe o cachecol que ela esqueceu lá em casa da outra vez?

    – Eu trouxe.

    – Calma aí que me engatei na barra da colcha.

    – Não tá vindo nenhum carro?

    – Aprendi a fazer crochê com a nonna, ainda criança, mas nunca fiz uma colcha deste tamanho…

    – Seu primo está em casa?

    – Eu estou com a chave da porta dos fundos.

    – Tchau tia, obrigada, tio.

    – Tchau, tchau.

    – Cuide-se, deixa que eu fecho a porta.

    – O carro que espere, agora.

    – E ainda chove.

    (Miss. Sunshine in the rain… Happy wet feet…)

    _

    by Tina Teresa

  • [Ferida, família ou saudade?]

    [Ferida, família ou saudade?]

    _

    Não sei se é fome ou é saudade
    Se é desapego ou liberdade
    Toda essa vontade
    de correr, pular e sorrir sem qualquer dificuldade

    Dezembro chegou e me pegou acordada
    Meia-noite virou e eu ali, toda atravessada
    Trovando verbos, trocando versos, trotando passos dispersos
    Amassando a almofada sem dó nem piedade

    Cheguei chegando
    Com os olhos brilhando
    Sem sono, sem dor, sem ninguém me esperando
    E com todo mundo se abraçando

    Tão bom esse cheiro de aconchego
    De tanto tempo, tanta vida, tanto desespero
    Tanta cor, tanto amor, tanta história sem memória
    Que alimenta esse bocejo de vitória

    Outro momento assim não se repete
    Talvez no céu ou num gole de grapette
    A lembrança de um fim de tarde
    Volte forte mas sem alarde e com gosto de sorvete

    Ferida que arde feito corte de papel
    Não sai sangue nem aparece na pele
    Só faz lembrar que eu também estive lá
    Naquele carrossel de gerações, de ciclos, de pequenas bombonières

    Família é tudo isso e nada disso
    Mistura de arte com feitiço
    Cada uma com sua parte e não se fala mais nisso
    Coceira de bem querer, vem, vamos comer

    Segunda-feira, quem diria, nem te vi
    Mundo sem fundo, caiu uma fagulha aqui
    Se era Verão ou Outono, não tenho dono
    Se foi só mais um sonho, não quero mais dormir

    _

    by Tina Teresa

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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