Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

drama

  • [No travesseiro]

    [No travesseiro]

    No travesseiro
    Palavras abafadas
    Dançam sortidas

    De madrugada
    Será que foram sonhos?
    Palavras ditas

    Foram sussurros
    Ou palavras choradas
    Palavras tantas

    Dos sonhos que não sonhei
    Das letras que li
    Promessas que escondi

    Talvez eu queira
    Ser palavra mofada
    Ser Monalisa

    Palavra ardida
    Decapitada por mim
    Engolidas, sim

    Promessas sem fim
    Sorriso inacabado
    Sonhos de cetim

    Jardim etéreo
    Palavras que florescem
    No travesseiro

    Sabe o que eu quero?
    Dormir a noite inteira
    Te sentindo em mim

    Imaginando
    Cada toque na pele
    Cada palavra

    Cada sussurro
    Que você sopra em mim
    Guardo comigo

    Pra minha coleção
    De palavras sortidas
    No travesseiro

    Cada palavra
    Que entra no meu sonho
    Conta uma história

    Te sinto quente
    Desdobrando sorrisos
    Respirando em mim

    Vem, dorme agora
    Que não chove lá fora
    Só na memória

    Primeiro beijo
    Tinha chuva, tinha sol
    Tinha desejo

    Sabe o que eu quero?
    Quero você só pra mim
    A meu critério

    Prometa agora
    Com todas as palavras
    Inundar meu ser

    Então você diz:
    — Segunda-feira chegou…
    — Ri, Monalisa!

    Fale comigo
    Amasse meus cabelos
    No travesseiro

    Tire meu tédio
    Ame cada sonho meu
    Durma comigo

    Não é castigo
    É palavra ardida
    No travesseiro


    by Tina Teresa

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  • [Marionete]

    [Marionete]

    Retalhos vividos, memórias tímidas

    Fale baixo, aqui no meu ouvido

    Embale minha poesia única

    Fale uma letra de música colorida 

    Cada cor que meu cérebro promete

    Traz dó, traz dor, traz pó

    Do pó ao poema, ao dilema

    À carta que você me escreve 

    Qualquer que seja o pranto

    Teu nome em minhas costas

    Assombra o entretanto

    Faz sombra, faz cócegas 

    E o peso de um amor cantado
    Espera uma última obra

    Um desenho torto, borrado

    Uma migalha sem tinta que sobra 

    Marionete nos teus braços

    Danço um passo

    Retalho no retrato

    Segunda-feira eu faço
    Um risco?
    Um traço?

    Será que arrisco um suspiro?

    Ou um morango

    Permito-lhe ser vampiro

    Sorvo-lhe o vinho e danço tango

     –
    by Tina Teresa

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  • [Não sei lidar]

    [Não sei lidar]

    Com seus medos

    E seus desejos

    Com seus bom-dias

    E suas nostalgias

    Com suas palavras

    E suas almofadas

    Com sua fome

    E como soletra meu nome

    Com seu cheiro

    Importa quem chegou primeiro?

    Com sua cama

    E a palavra na sua boca

    Achando que me ama

    Achando que me acha

    Me chamando de louca

    Achando que logo passa

    Não sei lidar com essa sede

    Tampouco com a parede

    Nem com o recado

    Ou o retrato falado

    Já é segunda-feira
    E eu tenho sede

     –
    by Tina Teresa

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  • [Colo]

    [Colo]

    Não é só a chuva que cai do céu
    Cai formiga, cai mel
    Cai gelo que fere e queima a pele
    Cai canivete
    Cai balão na minha mão
    Cai folia, cai folha seca
    Qual a previsão?
    Se o céu no outono balança
    Quem concede a dança
    Rapunzel, jogue-me suas tranças!
    Cai confete e serpentina
    Cai o coração da menina
    No meio da escuridão
    Será que a chuva mansa
    Que ensopa a segunda-feira
    Faz o sonho vira lambança?
    E no meu colo
    To chegando, não demoro
    No precipício a mercê
    No meu colo cai você


    by Tina Teresa

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  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by Tina Teresa

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  • [Que feio]

    [Que feio]

    Que feio
    Cadê o compromisso?
    Cadê o devaneio?

    Segunda-feira fria
    Combina com vinho e poesia
    Combina com sinfonia

    Que feio
    Deixar na mão a rebeldia
    Largar a conversa no meio

    Segunda-feira arredia
    Presente ausente inconsequente
    O brinde virou nostalgia

    Que feio
    Esperei na tempestade
    Uma taça de vontade

    Segunda-feira sem malícia
    Traga um gole de liberdade
    Leve um trago de saudade

    Que feio
    Se tivesse bebido o presente
    Não teria vinho no meu seio


    by Tina Teresa

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  • [Palavras cortadas]

    [Palavras cortadas]

    Cada palavra recortada
    É um pedaço de madrugada
    Nesta segunda-feira imaginada

    Uma fala inacabada
    Um desejo de…

    Porque a flor que você não trouxe
    Trouxe nós sobre nós
    Trouxe notícias de papel
    Trouxe palavras de fel

    Trouxe palavras cortadas
    Retiradas do peito
    Recortadas meio sem jeito

    Meias palavras
    Meio duras
    Meio gastas
    Talvez um pouco devassas
    E escassas
    Recortadas
    Sem sentido
    Ah se eu tivesse mantido
    Minha boca fechada


    by Tina Teresa

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  • [Lua crescente]

    [Lua crescente]

    Desafios, dias,
    noites frias, arrepios

    Cores se confundem,
    maquiagem escorre pela pia…

    Expectativas explodem em desejos

    Lua crescente

    Sorriso recente

    Segunda-feira quente
    Planos, sonhos, ciclos

    Momento

    Monumento

    Amor? Tormento

    Tempo corrente

    Água corrente

    Desprenda-me, corrente

    Lua crescente

    O bolo de ontem, comi hoje

    Para festejar
    o aniversário de amanhã

    Que nunca chega

    Que nunca acaba

    Pra sempre latente

    Lua crescente

    Lua de Abril

    Estado febril

    Grama cortada

    Roupa amassada

    Cheiro de fogo

    Eu sei, foi um jogo

    Mesa empoeirada

    Canela dormente

    Lua crescente

    Segunda-feira em frente

     –
    by Tina Teresa

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  • [Aniversário]

    [Aniversário]

    Amigos vão e vem

    As pessoas mudam
    e todas as coisas mudam

    Envelheço por entre caprichos e desdém

    Enquanto as memórias flutuam

    Enquanto a pele esfarela

    A segunda-feira perece
    E o sorriso desfalece 

    Enquanto as plantas sorvem sangue

    E a terra fica amarela

    Outono que me tange

    Primavera que me tinge

    Mundo insano que me abrange

    Tempo ingrato que me aflige 

    Cresço e me farto

    Não te seguro nem te puxo
    de cima do muro

    Dou um passo e te largo

    No asfalto, de sobressalto, de leve

    Não me leve a mal

    É só mais um ano que chega e passa

    E muda tudo sem mexer em nada

    E troca tudo de lugar 

    Trocam os amigos,
    trocam os pedidos

    Troca a sorte,
    toca a vida

    Faço figa
    que um dia

    Enquanto mudo

    Todavia, porém, contudo

    Esse escudo se quebre

    E revele

    Um recorte

    Não que eu me importe

    Já que é breve
    a linha do norte

    Não me guie, desvie

    Delire e me pire,
    me vire, me gire

    Mais um ciclo

    Reciclo

     –
    by Tina Teresa

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  • [Interfone]

    [Interfone]

    Depois da chuva, vapor no asfalto
    Não ouvi direito, fale mais alto
    Ou não, não fale não
    Não toque o interfone
    Deixe que eu me viro com o jantar
    Caso contrário, caio do salto
    E deixo o tornozelo torcido no passado
    Só pra matar essa fome
    Será que vou ou falto?
    Você disse o meu nome
    Eu digo “presente”
    Não pense que sair incólume
    É o mesmo que afundar sorridente
    Penso alto
    Já é segunda-feira de novo
    Alguém abaixe esse volume
    Cada história, cada vida, eu não pedi para ouvir
    “Sou eu”
    “Posso entrar?”
    “Abriu?”
    “Sobe aqui”
    “Vamos caminhar”
    Cada tecla, cada som, cada pedaço de pão
    Cada entrada, cada porta destravada
    Impossível insensatez
    Será que chove outra vez?


    by Tina Teresa

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  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by Tina Teresa

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  • [Restos]

    [Restos]

    Restos de domingo assombram a segunda-feira
    Dia sem fim, noite sem beira
    Prefiro um pedaço de caqui

    Choveu e eu nem vi
    A luz dos postes brilha na rua molhada
    Mas o piso da sacada continua quente
    Silêncios que só eu ouvi

    Nos pés descalços gruda o cheiro gorduroso
    Que vem pelo ar sem avisar
    Algum vizinho fez festa, será?
    Orvalho misturado com pedaços de almoço

    Criei minha própria tempestade
    Numa taça de cristal tão frágil, tão limpa
    Trincada por raios e trovões, sobrevivi

    Nem me dei conta que meus pés não estavam no chão
    Boiei em bolhas de champagne
    E esperei o arco-íris surgir


    by Tina Teresa

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