Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

drama

  • [Sobre nós]

    [Sobre nós]

    Levo horas
    desatando os nós
    dos meus cabelos,
    diariamente. 

    Lavo horas.Tantos nós.
    Nós diários. Nós na mente.
    Pensamentos, pensa mente.
    Enozadamente. 

    Enozada mente. 
    Segunda-feira latente.

    Nós que travam dedos.
    Entre nós. 

    Se tenho segredos,
    os guardo entre nós.
    Porque se dali os solto,
    é pela minha pele
    que eles deslizam. 

    Entre cachos.
    Sobre nós.
    Sobre a chuva morna
    que bagunça
    esses fios cor de mel.
    Chuva sem céu. 

    Ah, esses nós!
    Que lavam mágoas
    e levam histórias árduas
    por entre águas
    que escorrem entre nós. 

    Banhe-se comigo
    e sinta os dentes do pente
    desatando os nós
    dos meus cabelos
    que bailam feito serpentes
    sem destino.
    Breve desatino. 

    Quantos nós
    unem essa dança? 

    Seriam feiticeiras
    minhas madeixas? 

    Quais dentes as soltam?
    Meu pente?
    Ou sua boca caliente
    mordiscando segredos
    debaixo do chuveiro? 


    by @DiaboliqViolet

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  • [Tédio]

    [Tédio]

    Tédio? Como assim?
    Pisco de leve enquanto o pisco
    desce garganta abaixo.
    Não leve nada não.
    Nem economize sola de sapato.
    Passos leves pouco importam.
    O tédio espera do outro lado da porta,
    mas ela não se abre.
    Nem convida a entrar nem nada.
    Nado eu, nesse gole de madrugada.
    Nessa segunda-feira abafada.
    Pisco Sauer. Saio leve. Saia voa.
    Não me leve na garoa.
    Pisco um sorriso. Pesco à toa.
    Te levo até a proa.
    Porque o tédio não tem lugar
    nessa dança boba.
    Descubra-se. Questione-me.
    Que porta é essa que não se abre?
    Abra seu coração.
    Não abra a guarda, mas guarde a chave.
    Disfarce.
    Não há tédio que desagrade tamanha desilusão.
    Adrenalina na contramão.
    Cadê a chave do seu coração?
    Vem pular na chuva, não solte a minha mão.
    Fique com a chave você.
    E lembre-se que tudo pode acontecer.
    Ou não.
    Não há tédio que vença tanta alteração.
    Não sou eu quem clama atenção,
    é a vida que me puxa e me joga,
    que me torce e desafia,
    que me pira, me gira, me irradia
    de noite e de dia.
    Tédio, pisca pra mim.
    De longe te aceno, venha sereno,
    que o orvalho me entorpece. 
    Segunda-feira mais ou menos.

    by @DiaboliqViolet

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  • [Leviandade]

    [Leviandade]

    É, eu sei que sou séria quando quero, o problema é conseguir ser séria em momento lúdico, em que o perfume que ele usava, para que todos sentissem, não estava sendo sentido por outra pessoa naquele momento a não ser por mim.

    Leviandade? Pode ser. Mas… Se a gente nunca se esquece de andar de bicicleta, por que parar de sentir assim tão forte, de se apaixonar e de se permitir à sorte? Se nossas memórias são armazenadas de forma difusa, trancadas num padrão de conexões entre diversos neurônios, por que não podemos ter amantes que nos provoquem sensações inesquecíveis; feromônios?

    Afinal de contas, a recuperação espontânea das nossas memórias perdidas não pode ser ignorada… E então eu deixo de pensar e flutuo, mais leve que o ar, no aroma onírico dos meus sonhos e no brilho profundo daquele olhar que alcança minha alma e me embala… E então eu me entrego e me pergunto se estou errada, mas só consigo pedir para ser mais beijada.

    Leviandade? Talvez. Mas fazer o quê se as memórias insistem em vir à tona? E olha que isso é cientificamente provado: a recuperação espontânea não é apenas possível, mas inevitável. A gente nunca se esquece de se apaixonar. Segundas-quentes, terças-confidentes, quartas-feiras, quintas-incandescentes, sextas-dormentes, sábados, domingos latentes.

    Aliás, isso deve acontecer porque ninguém consegue preservar qualquer forma de prazer nos mesmos níveis por muito tempo. A intensidade da dor ou do prazer ao longo da exposição de um mesmo estímulo tende a diminuir com o tempo; um fenômeno inconsciente chamado de psicoadaptação. Isso quer dizer que por mais que a gente queira emoções cada vez mais fortes, logo, logo a gente se acostuma. E daí a gente quer mais uma, mais uma e mais uma.

    Augusto Jorge Cury* explica que a energia emocional não é estática, mas dinâmica. Ela se organiza, se desorganiza e se reorganiza num fluxo vital contínuo e ininterrupto; assim, nossa capacidade de permanecer em estado de êxtase é limitada. Então, por conta disso, a sensação de felicidade é condicional e sem estabilidade. Mas daí ele aparece, a saudade pulsa, a boca estremece, os olhos cativam e beijo acontece. Uma amizade pode sim ser colorida e a vida, mais divertida.

    Leviandade? E por que não? Quando ele vem de mansinho e me segura com firmeza e carinho, me devolve depois ainda mais viva… Por mais que exista uma tentativa frustrante de deslocar os pensamentos inoportunos, pelo menos aqueles que queriam antever os próximos acontecimentos soturnos, eu me entrego, não nego. A lógica é consistente, apesar de parecer inexplicável. Se eu estou certa ou não; eu não sei. Se paixão é sinônimo de isenção… Será que não?

    As frustrações, as dores da existência, as preocupações cotidianas sufocam os lampejos de felicidade que possuímos. Assim… Por que ficar sempre consciente se a gente pode extrapolar e estratificar o sentimento ao menos por um breve momento? É claro que isso depende da definição de felicidade que a gente resolve adotar… Mas, o que os olhos não vêem o coração não sente, e… Às vezes, a gente fica carente. E daí a gente sente um cheiro diferente…

    Leviandade? Talvez… A biologia justifica, a sociedade abomina. De quem é a vez?

    Os olhos até mostram uma traição, mas aquele que acredita na sua própria verdade (ou mentira) não se trai com o olhar nem com a tensão. Amigos, inimigos, conhecidos, amores… A língua não se importa com o que sente o coração. E o coração não se importa com o que pensa o cérebro. Tudo é concentração. Tudo é atmosférico. Leviandade? Pode até parecer um paradoxo, mas não aposte nela sem ponderação nem sem cuidado periférico.

    Neste planeta tudo é lindo e horrível na mesma amplitude. Enquanto isso, carrego em minha bagagem muita atitude, muitos olhares ora sinceros ora injuriados, e também muitas palavras falsas. Palavras ditas, escritas, pensadas, guardadas… E, assim como Fábio de Lima**, vejo o defeito da existência pendurado na língua. Nada é perfeito sempre e é comum se perder pela língua… Ambígua… Ah… Se a gente falasse menos… Mesmo sem guardar as provas, a memória fica. E daí já é suficiente, não precisa dizer nem guardar nada; só sentir, só pensar, só lembrar… Embriagada.

    Leviandade? Qual é o problema? Se a adrenalina rejuvenesce e a rotina entedia, por que não se permitir amar a rebeldia, provocar a nostalgia e apimentar o dia-a-dia? E, se toda experiência é válida, eu vou me jogar; vem me pegar, me abraçar, me amar e se deliciar.

    Depois a gente retoma nosso cotidiano, mas sempre escapando de vez em quando e curtindo, fugindo, porque senão a gente enjoa e a vida é muito curta pra ser levada à toa. Hoje cedo li um texto da Denise Tavares*** e me surpreendi. Depois de assistir Babel sozinha, ela sente-se frustrada por não ter com quem trocar ideias sobre o filme. Na volta pra casa, o céu recém aberto depois das muitas chuvas de janeiro não revela nem estrelas, nem o cometa McNaught****, mas traz a lembrança de um amigo que de lá, do céu, talvez estivesse sorrindo de sua tristeza. E então ela conclui, com delicadeza: estar vivo é cumprir uma travessia com algum sentido e depois partir, deixando saudade para ensinar que o presente deve ser vivido com toda intensidade.


    * Tina Teresa

    • Artwork by US traditional artist Caia Koopman


    *Augusto Jorge Cury > Psiquiatra, cientista, escritor e fundador da Academia de Inteligência, um instituto que promove o treinamento de psicólogos, educadores e profissionais de recursos humanos.
    **Fábio de Lima > Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET (www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO.
    ***Denise Tavares > Jornalista, professora e diretora da Faculdade de Jornalismo da PUC – Campinas.
    ****McNaught > O cometa McNaught é atualmente o objeto celeste mais brilhante depois do Sol e da Lua e, em quarenta anos, é o cometa mais brilhante já visto no Brasil. Ficou visível a partir das 20h30 abaixo da linha do Equador durante meados de Janeiro/2007.

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  • [Terça-feira]

    [Terça-feira]

    Segunda-feira. De repente eu acordei com uma vontade danada de planejar minha vida inteira. Quero ser famosa e perfeita. Fico rindo à toa, tentando organizar a agenda e só encontro antagonias. Que anta agonia.

    Quem sou eu pra ter controle de tudo? Pra que querer tanto assim? Da próxima vez eu começo a academia. Não vá embora, segunda-feira, ainda não ouvi todas as musicas novas, ainda não decidi pra onde mudo o sofá de lugar.

    Não te quero, terça-feira. Quero a segunda. É na segunda que o planejamento começa. Será que é na terça que ele se torna vivo? Li em algum lugar uma frase que mudou meu mundo. “E a segunda-feira vai embora sem se despedir”. Como assim? Eu não quero que ela se despeça, senão meus planos amortecem na expectativa da semana seguinte. Foi depois dessa frase que decidi escrever aqui. Pode vir, terça-feira, estou preparada pra você. Te quero, sim. Quero todos os dias, cada vez mais. Quero vida, quero planos, quero mordidas e desenganos. Quero pânico.


    by @DiaboliqViolet

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