Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

poema

  • [Alfaiataria]

    [Alfaiataria]

    Deixe-me costurar minha vida na tua
    E admirar a estrela vespertina
    Que ilumina meus sonhos de menina
    E me leva pra rua

    Deixe-me recortar as bordas do teu peito
    Até achei que eu não tinha esse direito
    Só que tem coisa que merece o meu bocejo
    E minha fé pura

    Fatos versus argumentos
    Padecem no firmamento
    A causa é nobre, eu entendo
    Mas a batalha é podre

    E muita coisa não tem preço
    Muita coisa é só apreço
    Muita coisa fica em segredo
    Muito se quebra feito gesso

    Se foi assim desde o começo
    Eu faço um ponto e te costuro todo
    Num novo ensejo
    Vem comigo, vem ser meu aconchego

    Só assim eu apareço
    E aparento costurar teu futuro
    No meu peito
    Saudade, te despeço

    Deixa que eu seja teu sossego
    Segunda-feira te desejo
    Enquanto padeço
    Em teus lábios desfeitos…


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Ukraine-based fine art photographer Oleg Oprisco’s imaginative photographs — featuring mysterious young women, fantastical props, and hazy, dreamy colors — evoke a strong sense of otherworldliness, as if they depict scenes from fairytales or ethereal realms.

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  • [Onde o coração está]

    [Onde o coração está]

    Sempre duvidei da tua perfeição
    E do teu mundo paralelo
    Emoldurado por palavras
    Entre o coral e o amarelo

    Duvidei do coração
    Pelo quanto de nós que você esquecia
    Cada vez que o sono fugia
    E abocanhava tua podridão

    Duvidei das nossas prioridades mundanas
    Tantas vezes irônicas
    Julgamos ser o que mais desejamos
    E nos perdemos num ciúme insano

    Duvidei do nosso querer insaciável
    E das tuas fantasias eletivas
    Escolhi mudar o imutável
    Pra sentir aquele frio na barriga

    Te fiz nobre
    Te fiz rato
    Pensei ser forte
    Ardi no asfalto

    Duvidei que teus versos
    Trariam lágrimas
    A meus olhos decrépitos
    Sorvendo páginas e páginas

    Enquanto teus livros fétidos
    Ganhavam prateleiras
    E cabeceiras
    De amantes céticos

    Duvidei da segunda-feira
    E da minha vida alheia
    Sobrevivi, mesmo feia
    Senti na veia

    Porque se lar é onde o coração está
    Com você o meu não tinha onde morar

    Duvidei da verdade
    E da pseudo liberdade
    Que você me dava
    Encolhendo minhas asas

    Se foi timing ou desatino
    Tracei meu novo destino
    E aprendi a amar teu conflito
    Que hoje apenas admiro

    Eu sei, eu consigo

    Pois do teu talento
    Ah, do teu talento
    Deste eu nunca duvidei
    Cedi meu tempo
    Perdi um pouco do jeito
    Sambei na cara do respeito
    Aprendi na marra, bem feito
    Desenhei um mocinho
    Pra descasar do bandido…

    E foi então que me encontrei


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Desenho em garrafa do projeto Toka, da designer e ilustradora portuguesa Marta Carvalho, que seleciona e desenha em garrafas vazias usando uma caneta do tipo Posca.

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  • [Jardim]

    [Jardim]

    Você e seu jardim
    Um olho na terra
    Outro no jasmim
    Queria uma festa
    Pra bailar sem fim
    E fazer teus dois olhos
    Se virarem pra mim

    Fico aqui tão desmedida
    Tanta coisa borbulhando
    Ainda pra ser dita

    E você aí, todo enterrado
    Desde sei lá quando
    Desbravando raízes
    Descobrindo enquantos
    Talvez sonhando
    Com vivaz matizes

    Tenho ciúme das suas flores
    Que bebem suas lágrimas
    E mastigam minha dores

    Um dia ainda quero ser flor
    Assim, do nada e por tudo
    Pra ganhar o seu calor
    Me despetalar de amor
    E morrer dentro dos seus olhos

    Numa segunda-feira qualquer
    Seja como for


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: O JARDIM DO MONGE WU, uma pintura de Fernando José Karl.

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  • [Hipnotizada]

    [Hipnotizada]


    Olho o tempo

    E busco teu cheiro

    Olho o mesmo céu

    Que cobre

    Teu corpo inteiro

    Olho o muro

    Que esconde o mundo

    Olho o véu

    Sem fundo

    Olho o vento

    Coração atento

    Janela ao relento

    Sigo lendo

    Cada pensamento

    Olho o tempo

    E amo cada segundo

    Desse mundo surdo

    Que grita

    Tua ortografia erudita

    Pra dentro

    Sem tempo

    Do meu quarto

    E parto

    Pro teu abraço

    Enquanto reparto

    Cada réveillon

    Numa nova segunda-feira

    Fico assim de bobeira

    Entregue

    Absurdamente leve

    Então me leve

    Cante um reage

    Toque uma canção

    Pra me ninar

    E me hipnotizar

    Enquanto olho

    Esse mundo alho e óleo

    Enquanto choro

    E te decoro


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Street art d’une série nommée «Lock, Poster and Shutters». Lors d’une escapade à Istanbul, l’artiste Pejac a associé ses talents de dessinateur aux influences orientales du pays pour peindre des moucharabiehs et des mises en abîme de serrures sur les murs. Le résultat, très réaliste, crée une véritable illusion.

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  • [Despedaçada]

    [Despedaçada]

    Você me deixou assim
    Numa tarde sem fim
    Despedaçada

    Desleixo premeditado
    Cabelo amassado, jogado pro lado
    Tentei me juntar, mas fiquei ali…
    Despedaçada

    Não gosto quando você demora
    A fome passa, mas não as horas
    Você me deixou jogada, dividida, recortada
    Pensei que era breve mas fui enganada
    Você me deixou despedaçada

    Tracei mil planos no ar
    Mudei os móveis de lugar
    Guardei todas as roupas jogadas na sala
    Fiz uma limpa na caixa de entrada
    Que tarde linda e eu aqui virada
    De pernas pro ar, despedaçada

    A casa vazia ecoa teu cheiro
    Fico abismada se não te vejo
    Fecho os olhos e engulo seco
    Sonhando com teu abraço forte
    A juntar meus cacos,
    meus afagos e meus tropeços
    Sou tua amada e estou despedaçada

    Não me deixe assim calada
    Contando vultos na calçada
    Ouvindo a saudade no ronco dos carros
    Ruminando a vontade do teu amasso
    Volte logo, senão eu grito
    Eu te adoro e assim não vivo
    Não quero mais flutuar nesse limbo
    Não me deixe mais despedaçada

    Em plena segunda-feira
    Não tenha pena, apenas queira
    Apenas venha ao meu encontro
    Esteja então apenas pronto
    Enquanto eu monto ponto por ponto
    Meu corpo torto que te aguarda
    Minha alma parda que te afaga
    Na varanda da minha casa
    Te espero aqui, despedaçada

    Dispa-se pra mim e serei tua
    Apenas existindo à luz da lua
    Talvez apenas crua
    Talvez nua, talvez linda,
      talvez rindo à toa
    Remendada na rua
    Costurada nos teus versos
    Amarrada no teu sexo
    Talvez nada, talvez apenas
    …despedaçada

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    ilustração deste poema: A arte consegue modificar ambientes e situações usando criatividade e sagacidade. Para fugir do tédio do dia a dia, o ilustrador francês Troqman decidiu apostar em seu bloquinho de notas e criou o projeto Cartoonbombing. No Tumblr do projeto e em seu Instagram, ele posta semanalmente, desde 2013, algumas intervenções que faz em cenários do cotidiano.

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  • [Diálogos] – parte 1 – de mim pra ti

    [Diálogos] – parte 1 – de mim pra ti

    Adoro te ver na penumbra
    E sentir teu cheiro de sol
    Adoro repousar no teu ventre
    De segunda a segunda
    Enquanto teu peito chia
    Feito rádio fora de sintonia
    Misturado ao barulho do mar
    Ecoando na tua barriga fria
    E fazendo dobras no meu lençol

    Adoro acordar do teu lado
    E trocar cochichos descompassados
    Enquanto a redundância mista tua
    Faz gentilezas sobre a alma minha nua
    Domingo, dormindo, subindo pelas paredes
    Zunindo, saindo, entrando, pedindo
    Expelindo sonhos e coletando encontros
    Desejos perdidos em canções ardentes
    Enquanto que o que existe, resiste
    E as cordas da viola choram tuas dores
    Para além da saudade e dos outros amores

    Adoro nossas impressões compartilhadas
    Nossas figuras de linguagem atravessadas
    Nossos diálogos desritmados
    Sem preferências estrábicas
    Definidas por convenções limitadas
    Ou por opiniões repartidas
    Numa curiosa simetria
    Dissimulada por tua respiração arredia
    Mergulhada no silêncio da noite
    Abafada por teus extremos
    E pelos teus risos altos
    À espera do dia seguinte
    E de todos os dias outra vez
    Tua voz na minha tez
    Destino atroz que te refez


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Styven Magnes: Speech balloons | Classwork by Styven Magnes (2TID1) at HEAJ (Haute Ecole Albert Jacquard, Namur, B): graphic research inspired by Saul Steinberg’s work.

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  • [Ponto a ponto]

    [Ponto a ponto]

    Muda o timbre
    Muda o tom
    Muda o som
    Muda o frame
    De repente, a gente treme
    Segunda-feira a gente sente
    Todo o tempo
    Muda o leme
    Crème de la crème
    Foi tão bom
    E tão perene
    Agora o ventre
    Tem nova flame
    Que chama
    Inflama
    E abocanha
    Toda distância
    Toda direção
    Toda escolha
    Coração
    Grito na boca
    Novo rumo
    Nova vida
    A despedida ficou no passado
    A nova acolhida
    Brindou o trabalho
    O destino brincou com a premissa
    E a promessa tilintou na barriga
    Só uma frase
    Nova fase

    Oh, I love mondays…
    A new begining
    A new bikini
    A new life
    A new job
    A new love
    If you make me happy
    I’ll love you so
    Let’s work and play
    And drink chardonnay
    Se eu fugir sem plano
    Você me busca
    De trem, asa delta ou aeroplano
    Se eu perder o ponto
    Você me acha
    E a gente faz um encontro
    Se você me abraça
    A gente conta um conto
    Ponto a ponto


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Registro do festival Burning Man – evento de contra-cultura dedicado à vida em comunidade, arte, auto-expressão, auto-suficiência, meditação e qualquer outra coisa que rompa a barreira da moral e do medo do ridículo – feito pelo fotógrafo Victor Habchy, que viaja o mundo com mochila nas costas, olhar curioso e máquina sempre pronta para encontrar o disparo perfeito. Ele comprou sua passagem com a ajuda de uma campanha de crowdfunding mesmo sem saber como chegar ao evento, que acontece anualmente em Nevada (EUA) no meio do deserto.

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  • [Sem teto] ou [Em queda livre…]

    [Sem teto] ou [Em queda livre…]

    Foi quando fiquei sem chão
    Que o céu se abriu sem nexo
    Depois de um dia comum, em vão
    O mundo se queixou perplexo
    O futuro estava tão perto
    E escorreu por minhas mãos
    De repente, não tinha graça
    Não tinha nada, não tinha teto
    Não tinha sexo, não tinha casa
    Não tinha som, nem alma, nem asa
    Em queda livre numa cova rasa
    Segunda-feira amarga

    Fiquei preso àquelas vontades
    Escravo de uma razão torta
    De uma carência ambígua
    Alimentada por um medo antigo
    E por um desejo infinito
    Quando me vi banido, varrido
    A vi absorta e um pouco afoita
    Até achei que ficaria diferente,
    Mas apenas uma árvore nova nasceu
    Onde antes o arrependimento
    Impregnava o presente
    Segunda-feira reincidente

    Sem teto
    Avesso ao universo
    E a tudo mais que prezo
    Esfolado da cabeça aos passos descalços
    Interrompido por uma visceral falta de sentido
    Surpreendido, bandido
    Na densidade do dia seguinte
    Acordado pelo coração nos olhos
    E as lágrimas no sorriso
    Rasgado pelo ralo entorpecido
    Em queda livre, bandido
    Segunda-feira acordei decidido

    Naquele dia não podia
    Eu até achei que não queria
    Mas quando me deparei com seus olhos
    Ah, seus mornos olhos
    Tudo mudou, tudo virou
    Num piscar de olhos
    Eu vi meu mundo caótico
    Por vezes psicótico e profético
    Tragi-cômico e patético
    Virar filme Technicolor
    Em queda livre eu te decoro
    Segunda-feira eu choro

    Minhas convicções imutáveis
    Se perderam nos teus passos rasos
    Meu coração arisco de repente ficou calmo
    Minha pressa áspera mudou teu repertório
    Sei lá, pelo menos é o que eu acho
    Você chegou falando baixo
    Sabe, repertório se faz com o que se vê
    E eu quero mostrar meu mundo pra você
    Em queda livre, sem teto
    De perto, de olhos abertos
    Até que nossos olhos pisquem pela última vez
    Segunda-feira talvez


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: ‘Colourant’ is a series of images produced by the duo of artists Floto+Warner (Jeremy Floto and Cassandra Warner) that seemingly turns large splashes of colorful liquid into sculptures that hover in midair. The photos were shot at a speed of 1/3,500th of a second, transforming the non-discernible and ephemeral to the eternal. The essence of photography – immortalize the transitory.

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  • [Desenho]

    [Desenho]

    Deixa, vai, só um pouquinho
    Prometo que não vai doer
    É só um risquinho, você vai ver

    Deixa eu te pintar
    Com meu cheiro de sossego

    Deixa que o toque, o suor e o enfoque
    Nos enforque, nos troque, nos mostre

    Deixa, vai, tem que ser agora
    Quero te marcar
    Te invadir, te dedicar
    Quero te escrever
    Com minha letra viciada
    Te entorpecer
    Fumaça borrifada
    Suspiros azuis
    Teu vento é meu sustento
    Teu tempo me devora

    Deixa eu te desenhar
    Numa prece sincera
    Na beira da minha janela

    Deixa, vai, de segunda a segunda
    Eu te desenho e você me inunda

    Meu coração é feito de tinta
    Eu te desenho e você me pinta

    Deixa eu te rabiscar inteiro
    Com todos os meus devaneios
    Deixa eu te carimbar
    Com meu dasatino
    Vem ser meu destino

    Sou menina e traço poemas
    Se eu te desenho,
    É você meu menino?


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Emptying Gestures by Heather Hansen, a contemporary performance artist and dancer in New Orleans, who has come up with an elegant and creative way to capture her dancing motions on paper – she gets up-close and personal with a big piece of paper and some charcoal.

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  • [Suspiro]

    [Suspiro]

    Duelo desconcertante
    Rosto amendoado
    Segunda-feira errante
    Olhos abafados

    Cabelos de algodão
    Atalho machucado
    Sorriso inebriante
    Sol gelado

    Melodia exclusiva
    Trovoadas e raios
    Nostalgia lasciva
    Amanheço e desmaio

    Dilema equivocado
    Berço de flores negras
    Lágrima inflama
    Desejo boceja

    A vida me chama
    Me abriga, me beija
    Me tortura, relampeja
    Duvido do teu enredo

    Mas não tenho medo
    Teu drama na minha cama
    Me consome, me reclama
    Me pede, me ama

    Me impede, me demora
    Me acorda em soluços
    Acorde lusco-fusco fora de hora
    Reflexo, refluxo, agora

    Te meço, te busco
    Te duvido, me perturbo
    Caio no sono
    Te amo no susto

    Seria monótono
    Se não fosse brusco
    Haveria dúvida
    Se não tivesse pulso

    Minha saliva, tua música
    Palavra pausada na rua
    Ainda resta a dúvida
    Saudade amarrotada

    Seria justo?
    Te quero absurdo
    Assim doce, assim puro
    Um pouco torto, um pouco surdo

    Se ainda te duvido
    É porque te amo, te juro
    Te espero, te curo
    Te quero, me embrulho

    E tudo o que eu não te digo
    Paira no abismo… (*suspiro*)
    Onde pulei contigo
    Até o fundo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Hug by passavodiquipercaso

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  • [Ouça-me]

    [Ouça-me]

    Ouça-me
    Com sua pele tensa
    Sua vontade imensa
    E sua boca intensa

    Ouça-me
    Com seu olhar intrigante
    Seu abraço inebriante
    E seu sorriso ofegante

    Ouça-me
    Com sua rotina quebrada
    Sua ânsia esmagada
    E sua certeza esgotada

    Tenha-me
    Com sua memória
    Sua boemia ilusória
    E sua destreza transitória

    Cale-me
    Com sua sede insana
    Sua melodia plana
    E sua voz cigana

    Ouça-me
    Com seu corpo inteiro
    Mas dispa-se primeiro
    De todo o seu desespero

    Lace-me
    Com sua culpa adormecida
    Sua barriga mordida
    E sua promessa entorpecida

    Ouça-me
    Talvez eu fale agora
    Talvez eu abra a porta
    E espante o medo embora

    Leia-me
    Com sua risada faceira
    Sua rima primeira
    Ou segunda, se for feira

    Toque-me
    Com seu universo
    Seu carinho (in)verso
    E seu tempo incerto

    Beba-me
    Estrela por estrela
    Engula cada centelha
    Da vida que me incendeia


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Art: Fluorescent landscapes painted on female bodies by artist John Poppleton

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  • [Pode ser lambretta]

    [Pode ser lambretta]

    Logo vi que de forte não tenho nada… não tenho vaga na calçada, não como bolinho com mostarda nem apareço na sua lembrança da noite passada… Pois é, só que a carne é fraca… mas não há de ser nada, não. Pode ser que eu chore, pode ser que eu volte, pode ser que eu quebre a cara.

    Eu to de bota e to de boa, mas não pense que fico à toa ainda por muito tempo… Pode ser que a espera vire desprezo. Pode ser que você mesmo não me escolha. Pode ser que a folhagem morra e que a paisagem encolha. Pode ser que eu me arrependa, pode ser que você me renda.

    Queria agora poder olhar na sua cara e entender porquê você só me ama quando está na minha casa. Porquê você me leva na manha, me arranha e me abraça forte quando vai embora. Queria saber porque você não me chama se é pra mim que você reclama quando pesadelos povoam sua cama.

    Cansei da sombra, cansei da água, cansei da perna dobrada. E do braço cruzado, da panca de otário, do copo quebrado. Cansei de cair de barriga. Cansei de guardar lugar na fila. Cansei de remar, de sonhar, cansei de olhar pro lado e te ver ali embriagado caçando sorrisos mofados.

    Quem você pensa que é? Qual o seu disfarce quando conversa comigo sobre cenários e abismos, sobre glossários e eufemismos, sobre salafrários e casos ambíguos? Confio no seu umbigo. E no seu discurso frenético. Mas pode ser que seu tempero cético não queira nada sério.

    Que patético!

    Pode ser que eu solte o que me amarra. Pode ser que eu cresça, pode ser que eu inverta minhas certezas. Pode ser que eu entenda que suas prioridades não têm lugar pra minha agenda. Pode ser que na segunda-feira você me prenda. Pode ser que eu compre uma lambretta. Pode ser que você me perca.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    **
    ilustração deste poema:
    Efeito sobre photo de Emerson Alexandre

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