Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

relacionamento

  • [Contentamento descontente]

    [Contentamento descontente]

    Contentamento descontente

    Cheiro de lua, cama nua

    Segunda-feira, pasta de dente 
    Serpente no canto da rua 

    Cabe mais um?

    Tempo quente, sorridente
    Talvez um gole de rum

    Aguardente, momento eloquente

    Filme, almofada, vigília estrelada
    Chove chuva transparente
    Tv, sofá, perna atravessada
    Incerteza dentro da gente 

    Doce tempero, café da manhã

    Calor decadente, frio caliente
    Da umidade, uma gota de maçã

    Enxergo sem ver o que paira na frente 

    Fatia no prato, vento no asfalto
    Velocidade apática, caminho lentamente
    Mais um pedaço de doce e fico no anonimato 
    Aqueça-me friamente 

    Só mais um beijo, um pão de queijo 
    Enquanto a textura esfola intimamente 
    Se temperatura fosse desejo 
    Amaríamos eternamente 

     –

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Invectiva]

    [Invectiva]

    Eu só
    queria uma magia 
    Pra
    apagar da memória esse dia 
    Segunda-feira invectiva 
    Alma
    vazia 
    Coração
    pesado 
    Futuro
    amassado 
    Passado
    rasgado 
    Abraço
    dilacerado 
    Joelhos
    ralados 
    Andar
    arrastado 
    Segunda-feira eu faço 

    Eu faço um buquê enfadado

    Com um laço
    bem apertado 
    Nesse dia
    nefasto 
    Pra
    deixá-lo bem marcado 
    No tempo,
    no espaço 
    Segunda-feira eu basto 
    Teus
    preceitos baratos 
    Teu
    fastio virado 
    Teu asco
    embriagado 
    Segunda-feira arredia 
    Vou
    lançar uma magia 
    Pra
    apagar esse dia 
    E
    arrancar da minha nostalgia 
    Os
    impropérios patéticos 
    Reflexos
    da tua melancolia   

    by Tina Teresa | @DiaboliqViolet 

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    ilustração deste poema: artwork by Aykut Aydoğdu.

    **

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  • [Só hoje]

    [Só hoje]

    Só hoje, apenas hoje
    Só hoje eu guardei
    A rolha que fechava
    a garrafa do vinho
    que você levou lá em casa

    Só hoje eu olhei
    pra folha em branco
    enquanto os pratos
    ainda descansavam
    num infinito em prantos

    Hoje eu chorei
    Hoje eu guardei o passado
    Assim desavisado
    Hoje eu comemorei
    Hoje eu botei tudo abaixo

    Hoje eu deixei queimar
    a vela que você esqueceu
    sobre a mesinha da sala
    no dia que comemos
    foundue de queijo no chão

    Só hoje, apenas hoje
    Hoje eu até me esqueci
    que foi numa segunda-feira
    quando você telefonou
    e falou tudo aquilo que engoli

    Hoje eu me libertei

    Eu apertei meu coração
    e deixei a dor se esvair
    Troquei a estação do rádio
    Now I know what you mean

    Hoje eu voltei a ser criança
    Hoje eu aprendi aquela dança
    que você fez comigo
    no meio do domingo
    Hoje choveu na minha lembrança      


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    A internet está cheia de belas e surpreendentes fotografias e você já deve ter parado para se perguntar como essa foto foi feita para ficar tão perfeita? E não estamos falando apenas sobre o lado do processo de manipulação digital das fotos, embora não haja dúvida que há muito disso envolvido. Não, estamos falando sobre o duro trabalho físico combinado muitas vezes com as abordagens super-criativas dos fotógrafos, a fim de assegurar que a sua foto seja a melhor que pode ser. Essa é um exemplo.

    **

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  • [De graça, nada]

    [De graça, nada]

    Nada vem de graça. 

    Nossa vida é uma constante transformação, momentos de paz e equilíbrio nos invadem, a segunda-feira vem toda a semana fazendo alarde.

    De repente parece que a rotina não tem graça e um choque de realidade, de pura maldade ou falta de maturidade nos confronta. Então tudo contrasta.

    Quando isso acontece, a acidez nos abraça e o instinto toma conta. Daí a visão se livra da neblina que nos afronta e o aconchego nos abandona.

    Mas é bom. Ignorance is a bliss. Conhecimento dói. Saudade corrói. Palavras ditas docemente criam promessas e desejos inconsequentes. E tudo se despedaça.

    É uma pena que você faça pirraça. É uma pena que nossos assuntos pendentes fujam do presente e se evaporem na vidraça dos nossos sonhos, feito fumaça…

    De ofegante, teu beijo virou tratante. Parecia passeio na praça. Ou na praia, numa agenda falsa. Virou desgraça. Passa ou repassa? Nada vem de graça.

    Mesmo que eu culpe aquela maquiagem frustrada ou a noite lotada de olhares tensos e desencontros intensos.

    Mesmo que uma simples fotografia seja motivo de agonia pelo brilho combinado entre o gole trocado e o pecado anunciado.

    Ou que o recado deixado fira feito adaga atirada nas costas que doem, machucadas. Se a noite é uma criança, que dizer da madrugada?

    Talvez a roupa amassada ou a toalha jogada sejam cartas marcadas. Ou só mais uma rodada, uma aposta inebriada. Uma ameaça atravessada por um oceano de trapaças.

    Do que você acha graça? Você pensa que um “bom dia, gata” disfarça? Você pensa que o teu cheiro grudado no meu travesseiro ainda te aguarda?

    Prepare o vinho que eu levo a taça. Ofereço um brinde à escolha nefasta. If it was a tinder, you better whatch out. #Simplesassim: nada vem de graça.

    Mas ainda há graça nas mancadas do destino. Não economize sorrisos nem esconda essa mágoa isolada sob uma capa mágica. É bom soltar as lágrimas. Tudo passa.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

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  • [Fadiga]

    [Fadiga]

    Que espécie de carinho é esse
    Que me irrita e ao mesmo tempo me intriga…
    E me convida a te provar

    Que agonia louca é essa
    Que aparece e some
    E me consome
    Em espasmos insondáveis

    Nem caminho, nem destino

    Esse seu olhar sozinho
    Me enerva
    Me irradia
    E me fadiga em sua companhia

    Esse seu andar mansinho
    Me apressa
    Me tropeça
    E me fadiga antes do raiar do dia

    E eu me canso
    E lanço um sorriso invertido
    Pra confundir esse seu querer dividido

    Então eu danço
    De olhos fechados, sem sentido
    De braços abertos e passos aflitos

    Dispenso os galanteios
    Evito a despedida
    Segunda-feira maldita
    Viro a cara pra monotonia
    Mas me perco na fadiga
    Do seu carinho ácido
    Que me irrita
    Que me intriga
    Que me agonia
    Que me convida
    E me consome
    Que me enerva
    E me irradia
    Que me apressa
    E me tropeça
    Que me cansa
    E me abocanha
    Que me inverte
    E me divide
    Que me pede
    E me decide
    Que me abriga
    E me fadiga


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Vertigem]

    [Vertigem]

    Teu gosto me embriaga

    Mas quando não te tenho

    Meu corpo padece

    e eu durmo numa prece 

    Teu abandono me dá sono

    Me dá náuseas,
    me dá dor de estômago

    Presentes? Não me traga

    Apenas se faça presente

    Ou então não faça nada:
    aconteça, pertença, tente 

    E não pense que não guardo mágoa

    Meu coração pode até parecer pequeno

    Mas, de gigante, quer teu aconchego

    Teu cheiro, teu chamego

    Mesmo que essa vertigem seja um exagero

    Na segunda-feira sem apego

     –
    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte by Os Gêmeos; obra sem título exibida na exposição “vertigem”.

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  • [Não sei fazer conta]

    [Não sei fazer conta]

    Carrossel dividido
    Chuva de setes
    Quanto custa
    um olhar arrependido?

    Meu cálculo se repete
    Por que você foi embora?
    Na matemática do seu retorno
    É onde eu conto as horas

    Conto, conto e o tempo não passa
    Ou será que o tempo para
    Segunda-feira fica pronto
    Segunda-feira me dispara 

    Conto, conto e faço de conta
    Que eu não sei fazer conta
    Só pra ver se você volta
    Enquanto o vento se demora


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte de Sônia Menna Barreto chamada Enxuta e feita em glicée, palavra francesa usada nos EUA para nomear o processo de microjato de tinta, a uma determinada pressão, usado na impressão desta nova geração de gravuras. É feita na máquina “Giclée Printer”, que jateia aproximadamente 4 milhões de microscópicos pingos de tinta por segundo, em papel (100% algodão, 220 g) ou tela. Podem ser usadas até 16 milhões de cores numa só giclée.
    *

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  • [Solidão]

    [Solidão]

    Pra te esquecer, te escrevi
    Quando você partiu, me encontrei
    Lembranças jazem num instante
    E a grama cresce verdejante
    Não importa se é solidão ou saudade
    Somos eternos enquanto vivos
    E nos confundimos com a liberdade

    Pra te cantar, escolhi
    Uma sinfonia inacabada
    Mas as palavras me perseguem
    E não entendo essa urgência em provocar
    Em cutucar o destino desmaiado
    Em tentar te bater com luvas de pelica
    Com spikes nas pontas dos dedos mofados

    Não vou lembrar de nada disso
    Nem agora, nem na próxima Segunda-feira
    O modelo sempre simplifica a realidade
    E o que sobra é o meu coração indeciso
    Que amortece o soluço da vontade
    E desenha um poema de improviso


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Vigília]

    [Vigília]

    Dei corda no meu coração
    E arrisquei uma valsa
    Na sincera atmosfera
    Da espera

    Noite arredia
    Estrela vazia
    Poço de lume prata
    Diplomacia alucinada
    Invada-me
    Brilhe em meu peito
    Rarefeito

    Negra noite
    Vaga-lume metálico
    Azul pálido
    Sorriso febril
    Estrelas férteis
    Bicho delicado
    Inerte

    O que te aflige?
    O sol não voltar a nascer
    Ou o seu coração escurecer?

    Observo-te pulsando
    É Segunda-feira e é Dezembro
    Desmembro-me e lembro
    Que dia longo!
    Entre passos e escombros: assombro
    Gota de chuva no ombro
    Foi mesmo

    Anáforas espaçadas
    Cabelo molhado
    Pensamento refrescado
    Labirinto dissipado
    Que susto!
    Quase caí do telhado
    Na calçada

    Ainda te vejo partindo
    Distraído, sorrindo
    Me partindo em duas
    Dissipando dunas
    Ferindo


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Ciclos]

    [Ciclos]

    Sete erros
    Jogo bobo
    Muda o medo
    Muda o troco
    Não reparei
    Foi por pouco
    Quase errei
    Te deixei louco
    Foi mais um ciclo
    Mais um sufoco
    Chegou num pulo
    E passou fosco
    Cabeça girando
    Coração tosco
    Sete notas
    Sete cores
    Sete erros
    Sete amores
    Sete anos
    Sete fardos
    Vida louca
    Gato pardo
    Sete ciclos
    Sete chakras
    Sete pecados
    Sete vidas
    Machucados
    A sete palmos
    Doce veneno
    Suor amargo
    Tem certeza?
    Te quero livre
    Não grite
    Te quero meu
    Sem deslize
    Eu te espero
    Sorriso aberto
    Sete infernos
    Tava tão perto
    Mudei o rumo
    Pulei o muro
    Troquei a rota
    E roubei a aposta
    Perdi o prumo
    E primei por mim
    Foi mais um ciclo
    Fugi de mim
    Temperatura
    Pela cintura
    Flor de jasmim
    Sete mentiras
    Almocei capim
    Segunda-feira
    Angústia carmim
    Sete feiras
    Sem asneiras
    Sete dias na semana
    Sete passos na lama
    Sete erros
    Joguei ao vento
    Sete marias
    À revelia
    À minha maneira
    Por sete tempos
    Descontento
    Sete magias
    Você viria?


    by Tina Teresa

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  • [Dilema]

    [Dilema]

    Também pensei naquele café
    No meio da tarde, no meio da chuva
    No meio de tanto destempero
    Foi o que era ou é o que é?

    Também pensei que seria eterno
    Mas durou o tempo de um inverno
    Teve calor, torpor e ardor
    E se esvaiu num torpedo moderno

    Será que escrevo sobe o que foi?
    Ou sobre a fadiga, sobre o depois?

    Será que deixo as vozes veladas
    Ditarem novos passos pelas calçadas?

    Não tem poeira no ar, pare de pestanejar
    Não tem dilema, é só mais um poema
    Seu drama parece um texto do Carpinejar
    Não me venha com mais um teorema
    Deixe a segunda-feira chegar
    Deixe-se voar

    Respire fundo e desprenda-se
    Antes que eu me arrependa


    by Tina Teresa

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  • [Tapete roxo]

    [Tapete roxo]

    Vinho do porto
    Tapete roxo
    Sorriso torto
    Tropeço um pouco
    Bailarina

    Se no chão cai vinho, nem noto
    Tudo bem, só mais um gole
    Escreva seu nome, distorça o foco
    Se perco o tom, desboto
    Tonteria de morfina

    Lenço de papel ou guardanapo?
    Um bilhete atrasado
    Perdido, quase esquecido, surrado
    Era um poema ou um recado?
    Segredo de menina

    O papel faz cortes invisíveis
    Que vertem e ardem saudade
    Você trocaria momentos incríveis
    Por palavras travestidas de verdade
    O mundo muda numa esquina

    No papel eu escrevo
    Só um pouco de bobagem
    Segunda-feira bêbada de medos
    Tapete no vinho é brinquedo
    A mancha agora é inquilina

    Se meu coração de tinta
    Transborda palavras derretidas
    Junte os trapos e apenas sinta
    Forme uma frase descontraída
    E guarde numa mordida

    Cada um lê com os olhos que tem
    Cada gole que toca o peito
    É uma gota que não cai no tapete
    Palavra rasgada; pedaço de bilhete
    Segunda-feira fluída, tão fina

    Vamos dançar?
    Mais uma taça, pra embalar
    Não importa que tudo derrame
    Se der, ame; não reclame
    Cristal, cristalina, Cristina


    by Tina Teresa

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