Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

romance

  • [Enquanto eu respiro]

    [Enquanto eu respiro]

    Cada vez que você vai embora, nossos corpos ficam entrelaçados no meu pensamento. 

    Enquanto minha pele esfria, a lembrança do tom da tua voz me anestesia. 

    Não quero só na próxima segunda-feira, eu quero todo dia, eu quero agora.

    Cada vez que você me namora, tua mordida me ensina uma rima nova que me renova. 

    Enquanto a noite se esvazia, minha alma macia se abastece dos teus sonhos risonhos. 

    Durante o dia, apenas conto. Apenas guardo cada cheiro solto. E aguardo seu retorno morno. 

    E percebo que o ensaio torto fez efeito. Se foi placebo, não me lembro. Se foi momento, não tenho medo. 

    Ainda há tanto pra descobrir, pra inventar, pra sorrir. Ainda o muito vai fazer visita por aqui. 

    Então fecho os olhos e permito. Não demoro, não reflito. Apenas sinto tua presença sincera enquanto eu respiro. 


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday 

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  • [Aceito]

    [Aceito]

    Aceito convites pra sair ou pra ficar regados a cavalheirismo, água com gelo, gengibre e hortelã, pedaços de madrugadas e recheio de manhãs.

    Aceito chamego na nuca e na cintura, doçuras e travessuras, gargalhadas desbotadas, cachoeiras de ternura e queijo com goiabada.

    Aceito até o ciúme do vento se for pra te ter de escudo enquanto ganho o mundo, enquanto arranho o fundo e viajo no tempo.

    Aceito sorvete com caramelo assim, de vez em quando, assim enquanto espero você pra mim com um abraço deste tamanho.

    Aceito cetim gelado de madrugada, estrada de areia e terra molhada, cabelo ao vento, orvalho ao relento na praia e gotas de noz moscada.

    Aceito café cremoso com cheiro de chuva, geleia de amora e travesseiros de plumas, e um amor que me invada feito cachoeira em plena segunda-feira.

    Aceito ombro macio, sorriso sincero, massagem forte e mordida leve. Antes que o dia amanheça e o sol me carregue numa brisa breve.

    Numa trilha leve que não se mede, numa vida que a gente escreve do jeito que a gente pede, do jeito que a gente cria na malícia do dia a dia.

    To pronta, me leve. Não espere a noite cair nem a chuva passar, não espere o mar te levar. Sozinha eu não sei remar.

    To tonta, não negue. Apenas me pegue. E deixe que o medo leve embora toda ponta solta. Pra que a bagunça tome conta e que o riso nos entregue.

    Aceito toda a forma, toda a queda, todo peito aberto em paraquedas. Aceito coração transparente. Chocolate quente e beijos calientes.

    Aceito o universo em cascata, de braços abertos e alma lavada. De olhos fechados, sem motivos velados, apenas o mundo inteiro do nosso lado.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    *

    Arte: ‘My Love Flows Out Like a Waterfall’ by Tara McPherson available here. 16” x 24” Giclee Print on Canvas.

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  • [Espelho maldito]

    [Espelho maldito]

    Não sei se consigo
    Outra paz aqui comigo
    Coração aflito
    Encontro fictício

    Foi amor ou feitiço?
    Armadilha do destino
    Diálogo tremido
    Abraço merecido

    Não sei se ainda vivo
    Se sou prece ou alívio
    Futuro dividido
    Passado atravessado

    Caminho bagunçado
    Poema despedaçado
    Pensei em você no sábado
    E no domingo escondido 

    Você ainda lembra de mim?
    Sinceramente, eu duvido
    Segunda-feira eu grito
    E troco seu sorriso

    Por um beijo coagido
    Atrás do espelho maldito
    Enquanto eu reflito
    Nosso desejo destemido

    Tenho um sonho contido
    Um segredo adormecido
    Uma vontade insana
    De fazer amor contigo


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday 

    **

    Photo by Tina Teresa

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  • [Tatuagem]

    [Tatuagem]

    Palavras na pele
    Letras, cortes
    Cicatrizes escolhidas
    Encolhidas
    em tortas linhas,
    tontas tintas,
    dobras de vida

    Rasuras
    Pedaços de guardanapos
    Travessuras codificadas
    Sonhos formatados
    Desenhos inventados

    Momento suspenso
    Segunda-feira tensa
    Talvez por insistência
    Talvez por existência

    Meus dedos doem

    Sinto dor de desenhar
    Dor de existir
    De aguardar o tempo cravar
    em meu corpo
    um desfecho absorto
    uma moldura dura
    dura de amargura

    Desenhos emoldurados
    feito pacotes dourados
    percorrem cada pedaço de pele meu
    Seriam presentes embrulhados
    por serpentes descontentes?

    Se o tempo presente é um presente
    Que dizer do futuro
    que atordoa e afoga de repente?

    Passado estampado na pele


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Ferida alada]

    [Ferida alada]

    Acordo alada
    Ao seu lado
    Levo o fardo
    De ser amada

    Sua amada
    Boicotada
    Recortada
    Recitada
    Empodeirada
    Empoleirada
    Escondida
    Temida
    Com frio na barriga
    Enquanto cores ganham vida

    Me testo e me descubro
    Só mais uma mordida
    Acordo alada
    Perdida
    Ladeada
    Perseguida
    Rapunzel adormecida
    Ferida
    Decidida
    Alada amada
    Amordaçada

    Ledo engano
    pedaço de pano
    Retalho amassado
    Sonho rasgado
    Paixão noturna
    Céu estrelado
    Acordo alada
    Ao seu lado

    Mas durmo nua
    Sob o beijo da lua
    E brilho enquanto
    Engulo o pranto

    Carne crua
    Lá fora, na rua
    Alada acordo
    Apenas concordo

    Seu soslaio
    Invade minha janela
    Um dia caio
    Um dia saio
    De maio a maio
    E desmaio

    Você cabisbaixo
    Entende o drama
    Prepara a cama
    Enquanto encaixo
    Meu disfarce
    Meu olhar amassado
    Você vem manso
    Sem descanso

    Seu solstício
    É meu destino
    Um dia eu finjo
    Um dia eu minto
    Um dia eu sinto
    Muito
    Um dia eu fujo
    Segunda eu junto
    Você faminto
    Troco mordida
    Por despedida
    E acordo de lado
    Com asas partidas


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Rock me]

    [Rock me]

    Pisei no rabo da gata
    E levei uma dentada
    Dedilhei sua guitarra
    De madrugada

    Rock me now, it’s Monday
    Prolongue o fim de semana
    Around the clock
    Come back to Sunday

    Encoste seus lábios no meu ouvido
    Mas não grite, nem sibile
    Suas sílabas amargas me enjoam
    Suas promessas povoam
    Minhas entranhas
    E eu duvido

    A trilha escolhida
    Despedida
    Rock me now
    Festival
    Desdobre-me em cifras
    En-cante-me
    Mas não cante
    Senão eu cedo
    Sua voz é meu placebo
    Entre o bem e o mal

    Foi tão cedo
    Foi tão lento
    E intenso
    Na velocidade do pensamento
    Que tormento
    Música muda
    Tudo muda
    Quando a noite surta

    E por mais que eu sonhe
    What did rock me there
    Will never rock me again
    Tudo o que foi dito
    Foi apenas uma música surda
    Que entrou por um ouvido
    E saiu por uma curva torta
    E eu duvido
    De cada estribilho
    Do brilho do meu brinco
    Que caiu mal criado
    Criado mudo, suor lavado
    Rock me then
    Again and again
    Segunda-feira, vem!
    Mesmo que eu peça
    Outra semana começa
    E não há nada que impeça
    Refrão mordido
    É, eu duvido


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Coração]

    [Coração]

    — Eu fico aqui…
    Minha mesa, meu note, meu cel, um guardanapo de papel… Um pedaço de céu.

    — Eu vou praí…
    Uma praia, uma varanda, uma risada, uma dança. Uma brincadeira de criança.

    — Musa é a lua.
    E não minha prece nua que despe em curva essa rua rasa. Musa é a sua morada.

    — Agradeço as memórias.
    E as noias. E as promessas veladas entre farpas. E os sorrisos invisíveis em patamares insondáveis.

    — E se houver brilho…
    A gente dispersa do mundo e foca um no outro. E troca os pratos e divide amassos.

    — E esconde a navalha.
    Pois se há corte que valha, já estiquei os braços e encolhi as pernas para o muito o que me resta.

    — Eu salto.
    De salto alto da beira do asfalto para a areia movediça dos começos e das fatias, das metades e das tardes vazias.

    — Eu sinto.
    E minto que não há saudade por pura maldade/faz-de-conta. Debaixo da sombra a gente sonha com o perto/longe que afronta.

    — E se houver sobremesa…
    Você escolhe manjar depois do jantar. Ou alfajor, só pra rimar com major. Ou sorvete de chocolate pra dar empate.

    — Mas se houver guerra…
    Não te espero não, não quero mais soldado machucado, tampouco safado, esfolado, escaldado, sem rumo, sem fardo, sem banca armada.

    — Se quiser, venha.
    Mas venha sem farda. Sem desculpas ou falhas. Sem agenda marcada, sem planos. Só com seu sorriso insano.

    — De coração…
    Desapego, logo chego. Decore, folclore, perfile, não demore. Dê alma, dê corpo, dê ventre, desejo, em vão?

    — Que seja segunda-feira.
    Que hajam estrelas e fagulhas e centelhas e rasuras. Que haja saga, mágica e tempestade. Entre, fique à vontade.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Illustration by Julian Gallash [binary heart]

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  • [Depois Olivia]

    [Depois Olivia]

    De lado, de novo
    De noite, depois
    Devolvo
    Resolvo
    Revolvo
    Nós dois

    Não da nada, de nada
    Obrigada, não foi
    Madrugada
    Segunda-feira rasa
    Embriagada
    Tolstói

    De novo, depois
    Mais um gole
    Não demore
    Just a bit more
    Sinto muito
    Sinto nós

    Sinto nada
    Nada além
    De volta
    De bem
    Depois você vem
    Tudo bem

    Não enrole
    Wormhole
    Noite fria
    Não demore
    Depois Olivia
    Ainda to viva


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Será que pode?]

    [Será que pode?]

    Sua presença
    Minha ausência
    Encontro perdido
    Pista de dança

    Compartilhamos olhares
    E partilhamos mares
    Inebriantes patamares
    Esquinas fugidias
    Escadas frias
    Beijo seco
    Segunda-feira do avesso

    Olho no olho, tudo bem
    Só se for agora
    Na Segunda-feira, meu bem
    Cara virada e alma lavada

    Face a face num pedido
    É só o que eu preciso
    Aqui dentro eu digo:
    Escolhi sumiço
    E antes o incerto
    Do que um beijo perto
    Perdeu o feitiço
    Tão longe, tão certo

    A música levou a semana embora
    A dúvida definiu a memória
    Um carinho breve
    O que houve ali ficou pra história

    Ciranda cirandinha
    Vem agora me buscar
    Meu sono é protegido
    Volta e meia tudo pode mudar

    Meia noite é hora da ceia
    Noite inteira, meia sobremesa
    Mudou tudo e não era nada
    Segunda-feira de boas maneiras

    Que venha o sonho sem critério
    Que o filtro evoque seu mistério
    Que outras Segundas voltem
    Que o feltro forje e a saia rode
    E o sorriso roubado molde
    Mas… Será que pode?


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Brigadeiro…]

    [Brigadeiro…]

    Tem coisa que não tem por quê
    Precisa explicar?
    Tem coisa que é assim, com gostinho de saquê
    Precisa detalhar?
    Tem resposta que não existe
    Tem momento que apenas persiste
    Tem sorriso que transparece a alma
    Tem pergunta que não cala
    Como se o silêncio dissesse tudo
    E uma simples respiração movesse o mundo

    Tem jeito que surge e ganha vida
    Jeito de falar, de escutar,
    de escolher a comida
    Tem jeito que aparece sem avisar
    E toma conta do jardim de casa
    Faz florescer uma nova morada
    Uma nova segunda-feira alucinada
    Da sacada à colina
    Do lençol à lamparina
    Do sonho de menina à flanela da cortina

    E é ótimo, sabe por quê?
    Porque a falta de motivo brinca com a rotina
    Manda flores no meio da tarde
    E leva brigadeiro com gosto de saudade
    A falta de motivo me duvida, mas me mima
    Me carinha, mas me cala
    Me espera e me guarda
    Me solta e me aguarda
    Me segura e me encanta
    Enquanto eu cato em cada canto
    Mais motivos pra sonhar

    O que é ótimo
    É simples assim
    Geleia cor de carmim
    Feito minha boca entreaberta
    Que espera mais um beijo
    Mais um chamego
    Um carinho assim, assim

    Chega de falta de motivos
    Vem pra perto, aqui no meu ouvido
    E fala mais um pouco
    Discurso manso, desejo louco
    Nada de extraordinário
    Apenas o necessário
    Assim, na medida
    Nem demais, nem de menos
    De leve, breve, palavra colorida
    Tanto faz, já é eterno

    O que é ótimo basta
    Não tem por quê
    Karaokê a contraponto
    Não tem clichê
    Ah, se eu pudesse
    Mostrar pra você
    Toda a adrenalina que circula
    Aqui dentro do meu ser
    Você veria cada curva
    Cada drift, cada fala muda
    E aceitaria
    Que você é ótimo
    Por ser o que é
    Por fazer o que faz
    E sentir o que me traz
    Esse aperto todo
    Sem medo tolo
    Sem emoção fugaz


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Flor congelada]

    [Flor congelada]

    Pedaço perdido de inverno só pra mim
    Ou um pedaço de primavera?
    Inferno enfermo que congelei
    Flores que ganhei e pendurei na janela

    Preces roubadas, momento abafado
    Flores que inundei com lágrimas de requinte
    Naquele momento em que o óbvio ainda é um fardo
    E não dá pra imaginar o segundo seguinte

    Que seria do futuro se o gelo derretesse
    E as cores das flores sumissem
    E se fundissem num quadro de Matisse?

    Tenho receio de descobrir o que pode acontecer
    Tenho medo do que está por vir
    Prefiro parar o tempo e congelar o momento

    Tenho medo de sentir coragem
    E perder teu beijo, teu cheiro, tua margem
    Segunda-feira não é mera paisagem

    Flor congelada não chora, não sofre, não morre
    Não ama, não vive, não canta, não sonha nem comemora
    Flor congelada apenas contempla o tempo de um momento
    Um instante condenado a pairar sempre no presente


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Borboleta]

    [Borboleta]

    Sabe aqueles primeiros momentos da manhã?
    Aqueles que ainda ninguém usou
    Que ninguém ainda ousou descartar
    Aqueles momentos que existem só no seu sonho
    Porque você também ainda não acordou?

    Sim, aqueles momentos que não têm dono
    Repletos de lembranças que só eu consigo saborear

    São notas de música que misturam o vinho na minha barriga
    Com todas as borboletas que me habitam
    São toques macios… ora de cordas, ora de dedos
    Que aparecem entre cores e me abraçam com desejo

    Você sabe? Sabe de quais momentos eu falo?
    Às vezes parecem que momentos assim não existem
    Não sei dizer se é sonho ou conjuntivite
    Ou uma obra de Magritte

    Poderia ser um momento desses uma música do Pearl Jam?
    Ou uma balada do Red Hot que eu não sei cantar muito bem
    Porque eu só tinha ainda em mente o som do seu discman
    E você me pegou desprevenida: sem tempero, sem medida
    E me ganhou com uma mordida

    Eu me distraio e me divido
    Revivo cada gosto, cada corredor partido
    Cada palavra, cada brisa, cada gole, cada nota, cada grito
    Cada reflexo invertido

    Tudo o que peço
    Vem em verso
    Tudo o que eu vivo
    Tem eco
    Que persiste no amanhecer
    Daquele momento seguinte
    Que não sei bem se existe
    Segunda-feira is ending

    Momento que sobra
    Depois que a borboleta bate sua asa
    E deixa no ar uma leve saudade
    E uma doida vontade
    De ter 15 anos por toda eternidade


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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