Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

romance

  • [Trovoada na areia da praia]

    [Trovoada na areia da praia]

    Conversei com minha sombra na areia da praia
    Mergulhei de cabeça e queimei os pés
    Descobri segredos e perdi pedaços
    Afoguei mágoas e desatei laços

    Na sombra, todas as cores se confundem
    E se fundem num lugar nenhum
    Seja no café dos meus olhos ou no mar dos teus
    Seja na jura breve que ninguém prometeu

    Passeei com minha sombra na areia
    E tentei roubar abraços
    De uma paisagem que ninguém desenhou

    Conversei com minha sombra na areia da praia
    E mesmo em silêncio ela me deu
    Todas as respostas que eu não perguntei

    Minha sombra me olhou profundamente
    Silhueta salgada de conchas
    Marcas das escolhas que fiz em repentes

    Era um domingo na praia
    Quando minha sombra me disse
    Que o sol queima dentro da gente
    Que a segunda-feira chega sem pedir licença
    Que as marcas do sol quente
    Desenham pecados calados
    Calcados em calos latentes

    Vontade de voltar no tempo
    De mudar o verso
    De fazer tudo ao inverso
    De trocar aquele momento
    Por um passo lento, um passo certo

    Conversei com minha sombra na areia
    E pedi que nunca anoiteça
    Para que os contornos não se percam na dor

    Conversei com minha sombra
    Nada mais me afronta
    Eu tava na praia e tava tonta
    Depois de tanta trava
    Eu tava avoada
    E queimei meus pés
    Trovoada na areia da praia


    by Tina Teresa

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  • [Cão e gato]

    [Cão e gato]

    Eu construí o que eu queria que você fosse e me frustrei porque enxergo o que você realmente é. Não que isso seja de todo ruim, só que não é o que eu quero pra mim.

    E se você insistir que não tem culpa, eu até vou entender, mas vou buscar desculpas pra divergir e te mostrar que sua gramática é pragmática e o que eu sentia era só um querer de brinquedo perfeito numa busca nada sistemática.

    É… na verdade eu sei que você não tem culpa. Porque quando a gente sonha o sonho alheio, a gente cede em devaneio e nem percebe que a alma padece. Então de repente eu não mais queria. E eu sabia que aquela sua ironia me diria que tudo o que existia acabaria um dia. Na periferia.

    Porque eu sou gata e você é cachorro. Quando eu acordo, eu me estico, me torço, ronrono… Eu aprendo rápido, eu desconfio, eu me recolho… E sua carência me tira a paciência porque gato conhece astrofísica e tem plano de contingência. Gato tem habilidade segura e cão… Ah, o cão é pura patetice, que amargura.

    Gato tem apelo intrigante e ensaio dissonante… Cão tem trotoar sem sintonia enquanto o gato é pura melodia. Cachorro mendiga e ainda faz festa. Gato vê tédio no paradigma que lhe resta porque crê num companheirismo distanciado. E cão quer grude, suor e babados.

    Palavras velhas ganham novos significados. Novas palavras são inventadas, sem significado algum… Palavras soltas num discurso etéreo pairam no mistério de lugar nenhum…
    Um passo dado pra frente é um espaço que fica pra trás… Foi uma nova segunda-feira que chegou e tudo mudou. Há um abismo semântico entre nós: você faz au. Eu digo miau. E nada mais.

    Você erra sem querer e fica sem perdão. Eu espaireço na contramão. Porque o entendimento foi em vão e a aliança de papel ficou na memória do mesmo jeito que essa história de cão e gato lado a lado.
    Mesmo que o cartão seja uma pétala que não murcha, o atropelo, o afobo, o engodo… tudo isso suga a energia do que poderia um dia ser magia. Latidos viram nostalgia. E miados seguem esmagados. Na padaria.

    É sempre no final que as histórias começam. Entre o agredir o agradar, melhor partir, pra não latir. E recomeçar um novo miar.


    by Tina Teresa

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  • [Tapete roxo]

    [Tapete roxo]

    Vinho do porto
    Tapete roxo
    Sorriso torto
    Tropeço um pouco
    Bailarina

    Se no chão cai vinho, nem noto
    Tudo bem, só mais um gole
    Escreva seu nome, distorça o foco
    Se perco o tom, desboto
    Tonteria de morfina

    Lenço de papel ou guardanapo?
    Um bilhete atrasado
    Perdido, quase esquecido, surrado
    Era um poema ou um recado?
    Segredo de menina

    O papel faz cortes invisíveis
    Que vertem e ardem saudade
    Você trocaria momentos incríveis
    Por palavras travestidas de verdade
    O mundo muda numa esquina

    No papel eu escrevo
    Só um pouco de bobagem
    Segunda-feira bêbada de medos
    Tapete no vinho é brinquedo
    A mancha agora é inquilina

    Se meu coração de tinta
    Transborda palavras derretidas
    Junte os trapos e apenas sinta
    Forme uma frase descontraída
    E guarde numa mordida

    Cada um lê com os olhos que tem
    Cada gole que toca o peito
    É uma gota que não cai no tapete
    Palavra rasgada; pedaço de bilhete
    Segunda-feira fluída, tão fina

    Vamos dançar?
    Mais uma taça, pra embalar
    Não importa que tudo derrame
    Se der, ame; não reclame
    Cristal, cristalina, Cristina


    by Tina Teresa

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  • [Ar/mar]

    [Ar/mar]

    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Da janela, o ar parece mar
    Ar/mar, como não amar?
    Décimo primeiro andar
    Desce a sintonia do seu andar
    Desce a melodia
    Do balanço do mar
    Da ternura do ar
    Vem me abraçar
    Amada história
    Não fui eu
    A má da história
    Percebeu?
    Décimo primeiro andar
    Trigésima terceira segunda-feira
    Pestanejar
    Marejar
    Só quero amar
    E quero que o mar
    Inunde o seu olhar
    E cristalize
    E se eu, Cris, estiver Alice
    Que você me carregue
    E me guie
    Sem perder a fantasia
    Mas mostrando que há caminhos
    Adivinhando cada planície
    Mesmo que o mar pedisse
    E cada segredo que você disse
    Simplesmente sumisse
    E cada nova palavra que surgisse
    Cristalizasse
    Enquanto eu, Cris, imaginasse
    Daqui, do décimo primeiro andar
    Uma paisagem
    Assim, de passagem
    Pela trigésima terceira segunda-feira
    Que me teletransportasse
    Para o seu mar
    Para o seu ar
    Ar/mar
    Até cada olho
    Um de cada vez
    Marejar


    by Tina Teresa

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  • [Por enquanto]

    [Por enquanto]

    Nossos momentos todos

    Fazem da vida um eterno por enquanto
    Um pedaço de mar no pensamento

    Um altar de entretantos

    Garoa fina na menina

    Suco de tangerina

    Cheiro de fruta doce

    Flores de seda na cortina

    Café da manhã com neblina

    Segunda-feira matutina
    De vez em quando, parafina

    Croissant, sonho, bananinha

    Passos de bailarina

    Passo o passo passo-a-passo

    E caminho ao seu lado

    Por nossos momentos todos

    E disfarço, por enquanto

    Porque eu te desenhei

    Mesmo que você não saiba

    Mesmo que você nem sonhe

    Desenhei em tons e sons e amores

    Colori alguns momentos
    Para que fossem nossos

    Desenhei apontamentos

    Construí apartamentos

    Imaginei a música que vai tocar

    Quando no colo você me carregar

    Mas por enquanto me contento

    Com cada momento ao relento

    Pois nossos momentos todos

    Fazem da acolhida
    um eterno por enquanto

    E norteiam nossa vida

    Por quantos portantos
    couberem no entretanto

     –
    by Tina Teresa

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  • [Confissões]

    [Confissões]

    Se é questão de confessar
    Não gosto de cama arrumada
    Cheia de pompa, com a coberta dobrada

    Eu só quero te contar
    Que nem café eu sei fazer
    Tampouco jogo bem xadrez

    Mas arraso na sobremesa
    E escrevo com presteza
    Minha poesia sobre sua tez

    Te deixo de queixo caído
    Com meu brincar de imaginar
    Faço cor, aconchego e o que mais for permitido

    Se é questão de confessar
    Gosto de misturar doce com salgado
    Pão de queijo com melado

    Almoço seu vocabulário
    Em doses homeopáticas
    E permito que o céu chova falácias

    Mesmo que eu faça varal no banheiro
    Que eu me estrale a noite inteira
    Ou que eu durma com três travesseiros

    Cubro-lhe de beijos no meu leito de ninar
    Pra compensar a falta de jeito
    Ao preparar o jantar

    Porque todas as profecias de amor que fiz
    Nestes infinitos dias de verniz
    Foram cegas, erradas, perdidas

    Consumiram-me noites de sono
    Noites de amor, retalhos de pano
    E nunca foram realmente por mim

    Tudo isso até agora
    Quando a chuva lhe trouxe, sem demora
    Do céu dos seus olhos à minha memória

    Pra gente desenhar um novo caminho
    De jipe, de moto, com café e açúcar mascavo
    De verdade, com vontade, de mansinho

    Se é questão de confessar
    Pertenço a teus braços
    Seja em dia de chuva ou em noite de luar

    Pois amanheço com música
    E dirijo cantando até que a curva dobre
    Até que cada encontro se renove

    Até que a descoberta vire festa
    E a valsa vire sonho
    Enquanto a fantasia se manifesta

    E quando você paira do meu lado
    Vejo o tudo e o nada
    Num compasso inacabado

    Sem fim, sem medo, sem mundo
    Primeiro um beijo, um cheiro num segundo
    Segunda-feira à nossa maneira


    by Tina Teresa

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  • [Colo]

    [Colo]

    Não é só a chuva que cai do céu
    Cai formiga, cai mel
    Cai gelo que fere e queima a pele
    Cai canivete
    Cai balão na minha mão
    Cai folia, cai folha seca
    Qual a previsão?
    Se o céu no outono balança
    Quem concede a dança
    Rapunzel, jogue-me suas tranças!
    Cai confete e serpentina
    Cai o coração da menina
    No meio da escuridão
    Será que a chuva mansa
    Que ensopa a segunda-feira
    Faz o sonho vira lambança?
    E no meu colo
    To chegando, não demoro
    No precipício a mercê
    No meu colo cai você


    by Tina Teresa

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  • [Wolverine]

    [Wolverine]

    15h. Agonia tem hora marcada?
    Vejo sorriso entre barbas
    e nem preciso fechar os olhos. 

    Sinto aperto nas costelas
    enquanto esqueço de respirar.
    Doem minhas costelas.

    Chá de camomila. 
    Segunda-feira maldita.
    Não me deixe aflita. 

    Essa incoerência me relaxa
    mas me fisga as escápulas.
    Se eu penso que é só pose?
    Eu penso. E sei que você adora.
    Não pose de Conde Drácula.
    Faça-me de fanzine, Wolverine. 

    Risque e rabisque, encha o peito,
    aperte os braços, puxe-me os cabelos.
    Respire. Não pare. 

    Tá pensando no que agora?
    Eu lembro de tudo.
    Are you still performing? Eu to.


    by @DiaboliqViolet

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  • [Entre nós]

    [Entre nós]

    Eu quero um romance

    Você solta uma piada

    Eu volto a página

    Você diz que não foi nada

    Me visto de mulher

    Você se faz de menino

    Eu guardo minha infância

    Você se mostra mais criança

    Um cinema…
    Um poema…

    Eu apago a luz

    Você acende o abajur

    Meus olhos abertos

    Sono batendo

    E você na página cinco

    Minto, nem sei.

    Decoro o seu ‘Bom dia, Amor!’

    Você desatento cruza a porta

    Eu sei o seu dia

    Eu conheço o seu perfume

    Eu traço o seu traço

    Eu te acordo com os meus abraços…

    Segunda-feira eu passo

    Você corre para o ataque

    Você aumenta as desculpas

    Desenha a saudade
    e pinta os meus beijos

    Descobre as minhas lágrimas,
     mas cuida dos meus medos…

    Se eu procuro uma sexta

    Você torce pelo domingo

    Sofá, futebol, Playstation…

    Mas, se eu vejo um filme mais de uma vez

    Se eu acredito nas estrelas

    Se o pôr-do-sol se faz de bonito para nós

    Se as margaridas têm mais bem-querer
     do que qualquer outra coisa…

    Eu sei que vejo em cores,
     o que você imagina em P&B…

    Não há almas gêmeas.
     Existem almas que se entendem…

    E (não) gemem por pequenos detalhes.
     Nós dois assim meio ao avesso:

    ao meu gosto
    ao seu pitaco

    ao meu cheiro
    ao seu prazer

    entre nós. 


    by @DiaboliqViolet

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